05 agosto 2017

pequena ficção








Leonora limpou com lenço de cetim seu rosto de boneca de porcelana pura seda. Tão bonita. Natural feito flor que nasce bonita sem maquiagem, Leonora quase não suava. E, quando suava, secava. Ela nunca se deixava deselegante. Nunca feia. Nunca saiu da simetria de ser bela a donzela que com quem Augusto cansou de saciar a fome. Estranho foi vê-los ao tempo entregues e apartados. Aquilo não combinava. Estava fora do roteiro. Todo mundo se perguntava, perdido e sem entender, que estapafúrdia ideia veio lhes dar à cabeça de separar o que Deus, com tanto zelo, uniu. Era um casal admirado e cobiçado. Louça e pano de prato à mão pintados. Aconteceu de um dia, Augusto, ao regar planta, ver vizinha bonita querendo companhia. Ele se indagou e o mal do homem é se indagar. Faça não. Aceite o que a vida lhe dá e não desfaça do favor de ser feliz com o que se tem. Mas a vontade não se assopra feito vela. E não apaga. Embora Augusto tenha rezado muito na missa de certo domingo, Deus fez que não ouviu, e o homem escapuliu pela culatra do amor descansado e caiu, de papo e língua, no colo da vizinha. Ninguém viu. Porém, muito se ouviu. Disseram que até uivo Augusto expelia. Leonora não aguentou a traição e tratou de expulsar Augusto de casa. E nem precisava. Ele estava caído pela vizinha, que bruxa talvez fosse, pois conquistou Augusto, e de tal jeito, que nem para trás ele se deteve a olhar. Adeus, Augusto. Do paraíso da esposa se despediu e não havia alma viva que não o criticasse. Eram muitas as perguntas que o homem nem se importava em responder. Estava feliz. Leonora chorosa saiu em busca de doutor que prepara divórcio. O esposo foi chamado para dar par de suas ações. Volto não, anunciou. E o padre fez parte da audiência, pois é assim que a coisa é feita em cidade de pequena ficção. O padre alardeava os feitos do satanás e enfatizava que Augusto estava perdido. Não há salvação, dizia o sacerdote. Dona Leonora fica com a casa e todo o resto, dizia o doutor. Casa, renda e herança de família. Augusto aceitou. Pois, como foi dito, estava feliz. E gente feliz precisa de nada. O homem tinha, ao seu lado, a vizinha apaixonada e, cansado do falatório, despediu-se de todos. Mas Leonora não queria casa, renda e herança de família. Humilhação daquela é desgraça na vida de qualquer mulher, seja bonita, pobre, rica ou feia. Tirou da bolsinha arma pequena e o tiroteio decidiu o caso. Audiência resolvida, Leonora foi presa, Augusto enterrado, a cidade inteira leu jornal e, depois de um tempo, se esqueceu. Mas há quem diga que ainda se ouve o uivar de Augusto ou se enxerga o caminhar de seu espectro pelas ruas da prisão na qual Leonora envelhece, feia e sabotada, sem lenço de cetim algum.









2 comentários:

Luis Eme disse...

Gostei de te ler, Letícia, até por teres dado uma pistola à Leonora, para ela vingar a sua honra "à homem". :)

Letícia Palmeira disse...

Leonora surpreende, Luís.