10 agosto 2017

doce travessura








O mal de Sônia era amar todo mundo de forma igual. Sentiu-se inquieta certa tarde e decidiu sair para caminhar. Nos pés, as sandálias costuradas pela artesã turca que trabalhava em um ateliê da Rua 49.

Pisava firme. Sempre constante, Sônia olhava ao redor e enxergava o mundo feito de coisas que existem, mas que não são vistas, tamanha a cegueira que insiste em nos rodear. Parou diante de um jardim, no qual um senhor idoso regava um arbusto murcho de papoulas. Sônia identificou-se. E foi tão bonita a identificação que tentou falar com o senhor do jardim. Desistiu. Deixou o homem quieto e continuou sua andança pela rua.

Sentiu fome.

O estômago lhe pareceu oco de súbito.

A chaminé da padaria lhe surgiu como um chamado. Alegre e saltitante, Sônia atravessou a rua e foi dar com os pães e doçuras daquela tarde de sol poente. Cumprimentou todos, sorria de dar câimbra em bochechas. Avistou a vitrine de doces e bolos e estava feita. Sônia queria comer tudo. Olhou bem a cara de cada guloseima exposta. Não se encantou pelos quindins. Tampouco quis provar os brigadeiros e sonhos. Sua fome era outra. Não era de comida. Ereta e de mãos sobre o balcão de bolos e doçuras, ela ouviu a voz que vibrava no ar como um cântico morno de amor. De ouvidos prontos, Sônia girou o corpo de forma a encontrar o dono de tal raridade. Parado diante da gôndola de pães menores, ele conversava com todos. Falava das notícias do dia e era de toda maneira gentil mesmo que não fosse, pois a voz era seu encanto. Sônia seguiu o cântico. Parou anteposta ao homem, atrás da gôndola e olhou dentro de seus olhos pretos que nem joaninhas. O cabelo era branco e preto. Grisalho e muito belo de aspecto. O rosto era retangular. A boca avermelhada que nem o vermelho doce dos batons. Sônia entregou-se ao atrevimento de olhar minuciosa o corpo inteiro do homem. Era esbelto. Esguio. Grotesco nas mãos que eram grandes e em outros detalhes imaginados por Sônia. Que poderia ser aquilo senão um anjo? Ela se indagava e já imaginava a mordiscada que daria em cada lábio da criatura que ainda não lhe devolvia olhares. Esperta, aproximou-se pela esquerda, encolhendo seu corpo para que não fosse percebida. Queria porque queria sentir o cheiro do dono da voz de cântico morno de amor. Sônia estremeceu. O homem cheirava a creme de barbear e menta. E as roupas, quase brancas de tão brancas, aparentavam estar limpas e bem lavadas. Que guloseima perfeita para o dia! Sônia quis sorrir. Ela quis dizer algo. Sônia quis provar o homem que olhava os pães pequenos na gôndola fria. No entanto, ao pensar em movimentar-se para ir de encontro ao homem de cabelos grisalhos, Sônia percebeu que já estava satisfeita. Sua fome fora saciada pela visão encantadora da criatura que falava morno de cântico de amor grotesco.

Respirou fundo e saiu da padaria muito contente. Caminhou de volta para casa certa das maravilhas do mundo feito de coisas que existem, mas que não são vistas, tamanha a cegueira que nos rodeia.

Naquele instante, e por um dia, Sônia estava plena.










05 agosto 2017

pequena ficção








Leonora limpou com lenço de cetim seu rosto de boneca de porcelana pura seda. Tão bonita. Natural feito flor que nasce bonita sem maquiagem, Leonora quase não suava. E, quando suava, secava. Ela nunca se deixava deselegante. Nunca feia. Nunca saiu da simetria de ser bela a donzela que com quem Augusto cansou de saciar a fome. Estranho foi vê-los ao tempo entregues e apartados. Aquilo não combinava. Estava fora do roteiro. Todo mundo se perguntava, perdido e sem entender, que estapafúrdia ideia veio lhes dar à cabeça de separar o que Deus, com tanto zelo, uniu. Era um casal admirado e cobiçado. Louça e pano de prato à mão pintados. Aconteceu de um dia, Augusto, ao regar planta, ver vizinha bonita querendo companhia. Ele se indagou e o mal do homem é se indagar. Faça não. Aceite o que a vida lhe dá e não desfaça do favor de ser feliz com o que se tem. Mas a vontade não se assopra feito vela. E não apaga. Embora Augusto tenha rezado muito na missa de certo domingo, Deus fez que não ouviu, e o homem escapuliu pela culatra do amor descansado e caiu, de papo e língua, no colo da vizinha. Ninguém viu. Porém, muito se ouviu. Disseram que até uivo Augusto expelia. Leonora não aguentou a traição e tratou de expulsar Augusto de casa. E nem precisava. Ele estava caído pela vizinha, que bruxa talvez fosse, pois conquistou Augusto, e de tal jeito, que nem para trás ele se deteve a olhar. Adeus, Augusto. Do paraíso da esposa se despediu e não havia alma viva que não o criticasse. Eram muitas as perguntas que o homem nem se importava em responder. Estava feliz. Leonora chorosa saiu em busca de doutor que prepara divórcio. O esposo foi chamado para dar par de suas ações. Volto não, anunciou. E o padre fez parte da audiência, pois é assim que a coisa é feita em cidade de pequena ficção. O padre alardeava os feitos do satanás e enfatizava que Augusto estava perdido. Não há salvação, dizia o sacerdote. Dona Leonora fica com a casa e todo o resto, dizia o doutor. Casa, renda e herança de família. Augusto aceitou. Pois, como foi dito, estava feliz. E gente feliz precisa de nada. O homem tinha, ao seu lado, a vizinha apaixonada e, cansado do falatório, despediu-se de todos. Mas Leonora não queria casa, renda e herança de família. Humilhação daquela é desgraça na vida de qualquer mulher, seja bonita, pobre, rica ou feia. Tirou da bolsinha arma pequena e o tiroteio decidiu o caso. Audiência resolvida, Leonora foi presa, Augusto enterrado, a cidade inteira leu jornal e, depois de um tempo, se esqueceu. Mas há quem diga que ainda se ouve o uivar de Augusto ou se enxerga o caminhar de seu espectro pelas ruas da prisão na qual Leonora envelhece, feia e sabotada, sem lenço de cetim algum.









31 julho 2017

o porta-retrato











Decidi escrever contos. Após publicar romance e tentar me enveredar por novelas, fui tomada pela necessidade de conhecer um pouco mais do gênero literário que mais me envolve. Eu adoro contos. E meu apego pelo gênero começou quando li O Bilhete Premiado, de Anton Tchekhov. Lembro ainda do frenesi que senti depois de ler aquela narrativa tão concisa e irônica. Me apaixonei. Nunca me passou pela cabeça que me tornaria escritora e que, um dia, iria me sentar para desafiar palavras e construir contos.

O primeiro a ser escrito foi O Porta-Retrato, conto que dá título ao livro. Passei dias com a história rondando minha mente. Criei personagens, dei nomes a eles e inventei conflitos que, geralmente, não invento. O Porta-Retrato é diferente por isso. E também difere por ser o primeiro livro no qual me propus a escrever contos que apresentam características que apenas ensaiei escrever. Deixei que a loucura, a perversão, o horror e o amor dos personagens tomassem corpo no livro. O prefácio foi escrito por Mônica Ferraz, professora do Departamento de Letras da Universidade Federal da Paraíba. A publicação é da Editora Penalux, que é paciente com meu temperamento de autora que está sempre querendo publicar algo. E não creio que seja por vaidade. Não escrevo mais por vaidade. Como eu disse um dia, agora escrevo por considerar que seja este meu desafio. Meu trabalho. Meu princípio.




Aos leitores, o livro está disponível no site da Editora.




E no dia 06 de agosto de 2017, no Café da Usina Energisa, às 19h, João Pessoa – Paraíba – Brasil, terá o lançamento. É isso. O Porta-Retrato é livro.










27 julho 2017

princípio solitário








Muitos querem escrever. E querem se tornar escritores. Mas quantos estão dispostos a pagar o preço? Pois ser escritor não é glória alguma. E também não é ruína. É o intermédio. Eu carrego sempre uma agenda comigo porque não consigo deixar que o mundo passe por mim sem que me sinta tocada por ele. Cada gesto, cada palavra, cada acontecimento, por mais comum que seja, tudo me toca. E de tal forma que não tenho forças para me afastar do que vejo. Então, eu escrevo. Outro dia estive em um hospital acompanhando uma criança que sentiu-se mal na creche na qual estou trabalhando.

Paro.

Na sentença que acabei de escrever, há partículas de outras sentenças que não passam despercebidas pelos olhos de quem se propõe a ser escritor. Uso o termo escritor como aquele que habita o mundo e dele faz questionamentos. Há pequenos temas em tudo que vivemos. Quando digo que estive em um hospital, a mente vagueia por outros cubículos que me fazem parar e querem escrever a respeito deles. Mas não posso. O foco é outro. Escritor preciso estar no meio da tormenta e capturar exatamente o assunto ao qual se dispôs a escrever. Do que eu estava falando mesmo? Ah, sobre não ter forças de me afastar dos acontecimentos. Não tenho. Assumo que sou fraca e cada coisa que vejo me parece um livro que preciso escrever. Ou um conto. Ou texto. Escritor tem essa mania de ser um tipo de deus. Mania de salvar todos, de tocar o céu e mover montanhas. Mania de ser maior. E como toda entidade que acredita ser grande perante o mundo, todo escritor é muito solitário. Sim. Muito solitário. Contudo, não posso afirmar isso com certeza. Posso apenas falar por mim. Eu sou solitária. Porque é preciso ser. É meu ofício de escrever que me transforma em uma criatura distante, que observa e pondera sobre todos os instantes que ocorrem. Vivo assim desde minha infância quando, ao ver minha mãe preparar almoço e cantar músicas que ouvia em um rádio que ficava sobre a geladeira vermelha, e ao longe sorriam meus irmãos e suas brincadeiras, eu não conseguia sair daquele instante de observar o gigante vermelho que se quase tocava o teto da cozinha. Eu observava a geladeira como se fosse algo feito de fenômenos. Mas será que isso é coisa de escritor ou apenas característica de uma menina tímida que vivia dentro de sua voz calada enquanto o mundo girava em sua geografia? Não sei dizer. Digo somente o que tenho capacidade. E tudo dentro de minhas limitações. Escritor tem limitações. Eu, por exemplo, não sou poeta. Nem seria. Não sei escrever poesia. Mas leio poesia e aplaudo versos com minhas mãos de tocar homens que de meu amor não sabem a metade do que desejo. Estará disposto a tamanha solidão e egoísmo todo aquele que se propõe a ser escritor? Estará disposto a viver a vida como se cada momento fosse recorte de outra vida que precisa ser narrada? E com relação a ser escritor em nossos dias, e ter que vender livros e mostrar o rosto em revistas e sorrir feito um tolo em sarau e sentir dor de cabeça após dois goles de bebida e muita palavra maldita. Estará disposto? Na verdade, não sei descrever o que é se propor a ser escritor. Não é dom. Não é coisa de elite. Não é bobagem. É trabalho constante. E mesmo não sendo paga por isso, eu insisto. Como centenas de outras pessoas que escreveram e estão mortas e caladas em suas lápides e memórias, eu insisto. Escrever é um princípio.








18 julho 2017

cativos de acesso







Com o texto na ponta dos dedos, o computador inventa de reiniciar o Windows. E ainda afirma, em notificações na tela, que está trabalhando nas atualizações. Eu, com cara de interrogação, recorro ao caderno e escrevo. Um tanto enganada, admito. Pois sempre acreditei que eu tivesse algum controle sobre as máquinas. Mas não! São elas que me controlam. E enquanto tento escrever, o telefone vibra e cintila. WhatsApp, Messenger, e-mails, atualizações de aplicativos. Tudo. Desligo a conexão de Wi-Fi. Para que eu escreva preciso estar desconectada. E não é que o celular ainda brilha e envia recados mesmo desconectado da internet? Há dias venho recebendo a informação de que não há espaço de armazenamento na memória do aparelho. Desde a primeira mensagem, tratei de baixar um aplicativo para limpar a memória. E o tal aplicativo também envia lembretes afirmando que precisa ser limpo. É um ciclo maluco de limpar o que sequer está sujo e apagar memória que não existe. Eu me calo irônica e recorro ao aplicativo de música. Munida de fones de ouvido, sento em meu jardim, observo o vento que faz dançar as folhas da árvore e deixo escapar meu riso tímido. São muitos os aplicativos e imenso é o controle que as máquinas exercem. Contudo, há algo que Wi-Fi ou máquina alguma irá decifrar. Só eu sei as senhas de acesso ao meu universo. E este é o meu trunfo. Minha fórmula secreta de governar o mundo.





15 julho 2017

belas anaydes








Limpo as lentes dos óculos, mantenho o foco e me aguento. 
Para estar no mundo preciso, antes, estar comigo por inteiro.





Penso em Clarice Lispector. Ela sozinha com seus livros e seus personagens. Quantos obstáculos deve ter enfrentado Clarice para que ela conseguisse escrever? Não é a questão de gênero que tento abordar. É a questão do ser. Há tantas coisas pelo caminho, tantas distrações na vida, que escrever é sempre uma batalha. Penso também em Anayde Beiriz, que se perdeu no tempo por causa de um amor doido. Um amigo baiano foi o primeiro a me falar de Anayde. Lembro que ele mencionou umas cartas e até me comparou a ela. Tenho nada de Anayde. Ou talvez tenha. Sou mulher, professora, amo e tento me encaixar. Se bem que não posso afirmar que Anayde Beiriz tenha feito isso. Digo apenas o que li aqui e ali. Comprei um livro que traz a correspondência amorosa da autora, considerada poeta. Li quase todas as cartas. Parei em algum ponto que me incomodou. Eu sempre paro quando algo me incomoda. Voltando a Anayde Beiriz, me incomodou ler da autora somente seu amor por alguns homens. Me incomodou mesmo. E não pelo fator feminista. Algo mais forte me fez estancar a leitura. Em todas as cartas vi uma mulher que amava, mas que gritava, em seu lirismo romântico, para que alguém a entendesse. Ou talvez não gritasse. Me senti triste ao ler uma autora castrada por seu amor que culminou em crime político e perseguição. Procuro por Anayde no Google. Vasculho tudo. E só o que encontro, pedindo perdão por minha limitação em pesquisa, é a alcunha que lhe deram: a pantera de olhos dormentes. Não é possível que uma mulher seja somente isso. Aquela que ofende por seu comportamento, aquela que escreve o que sente, aquela que chora seus amores. Não aceito esta Anayde. Assim como não aceito que Clarice seja apenas a solitária que escrevia. E não aceito que me digam que Virginia Woolf era maluca e se matou por isso. Não aceito a ficção que se torna realidade. Eram todas mulheres. E escreveram. Fizeram algo mais que seus rótulos. Fizeram mais que seus livros e conflitos. Elas viveram. E sempre que uma mulher se assume escritora, mesmo que o mundo caia sobre sua cabeça, algo brilhante acontece. Todas as panteras de olhos dormentes se libertam.










12 julho 2017

o gato branco









Há um gato branco que passeia pelo muro de minha casa e das casas vizinhas. Ele está sempre caminhando. Ao menos, quando o vejo, o gato caminha. Eu tenho muita vontade de ter um gato. Porém, já tenho um cachorro. Então, já que é preciso escolher, pois não se pode dar conta de todas as coisas, fico com o cachorro. O gato é livre. E branco. E ao que percebo, ele não precisa de cuidados. Está sempre limpo, à vontade e me olha de forma tranquila. O gato eu temos uma bela conexão. Nos olhamos e nos entendemos. Já tentei tocá-lo. Ele já tentou pular para o meu jardim. Mas desistiu. Eu não insisto para que ele fique. Tentei, um dia, fotografá-lo. Tudo em vão. O gato saiu leve por entre as folhas e sumiu. Voltou no outro dia. Dessa vez, eu não quis fotografar. Tampouco tentei fisgá-lo. O gato branco, como uma imensa escultura envolta em mistério, é um viajante. Percebo que precisamos um do outro. E da forma como estamos. O gato no muro e eu no chão. 










09 julho 2017

curta in definitiva










De volta.
Saltando de alegria?
Não. Humana.






Afeto literário para mim é como uma espécie de correspondência a qual recorro quando preciso me comunicar. Poderia sim viver sem escrever. Eu poderia muitas coisas. Mas a literatura é como o amante possessivo que persegue, que sufoca e questiona. Não posso dar costas à literatura. Então, eu a enfrento. Escrevo livros, bilhetes, diários. Escrevo todo o tempo. E quando não escrevo, sofro. Sinto dores de abstinência. Sinto-me enclausurada. Ah, o paradoxo que me traduz... Literatura me aprisiona e, ao mesmo tempo, me liberta. Não saberei explicar esse fenômeno, que é tão natural quanto o despertar dos pombos ou quanto o voar do vento. E como não sei explicar, escrevo. Me correspondo. Me alimento. Até que se cumpra o tempo.







27 janeiro 2017

horas pálidas








Homem, eu te escrevo. E não espero retorno do que direi. Me largo em folha de véspera tempestade que devasta a casa, o piso e a margem de meus rios de prosa. Em ti eu teria feito o poema perfeito, exato como o tempo, e seu declarar de vivências. Amei em um único fôlego, nunca amiúde, pois de tal forma não me daria ao prazer do sentimento que afago, tão somente meu e de meus agrados. Não posso te escrever, homem. Não ostento o desejo de invadir tua vida e causar danos ao teu lar de mãe e filho que vivem sorridentes ao teu redor. Não é minha intenção penetrar em cômodos que não habito. Não é minha intenção alardear o que sinto. Contudo, homem, o que devo fazer de mim agora que o sentimento invade minhas horas pálidas de espera e agonia? Ouso emancipar-me. Preciso te esquecer, sentimento náufrago, antes que de ti me construa a própria face. De renovada esperança, em passo firme e sem constrangimento, de ti me aparto. E te desejo o remorso indecente dos que desistem de meus laços.









16 janeiro 2017

invólucro








Mudei. Vejo tudo como é. Nada invento. Roupas coloridas separadas das roupas pretas e brancas que, de fato, também são coloridas. Nada tem ausência de cor. Amor é amor. Não transborda um centímetro. Filho é filho. Minha paz, perdição e equilíbrio.





Bonito o que vi. Ao dar banho no cachorro, ele ouvia música clássica. Perguntei o que era. Ele, sem pensar duas vezes, sentiu-se envaidecido. Pela primeira vez em meus silêncios, demonstrei que me importava. Venci. Sempre que saímos da zona de conforto da indiferença e do egoísmo, vencemos. Calculei isso ao assistir filme reprisado de falas que já havia decorado. Quanto menos me importo comigo, mais me importo comigo. 

É no altruísmo que se esconde o ego fingido. 

Abri a porta e descobri, em pleno dia, um casulo no alto da varanda. Não me feriu ver o casulo na parede. Mas o que pensariam as visitas se chegassem a minha casa e vissem que crio casulos? Por ordem dos outros, tive que destruir a casa de marimbondos. Havia apenas um inseto. Encolhido e embrionado. Com todo cuidado, e com a pá, deitei a pequena criatura no canteiro. Ainda encolhida e curvada, arrastou-se para um canto escuro sob as folhas e escondeu-se. Limpei o que restou do casulo, senti revolta por tê-lo destruído, sentei sob a grande árvore, peguei meus fones de ouvido e pensei em meus pequenos crimes ambientais e em minhas histórias mal criadas. Enquanto isso, ainda ouvia música clássica o homem vaidoso que abre janelas com o mesmo vigor com o qual me esquivo. Como disse, vejo tudo como é. Minha realidade é alvo do eterno fictício.











07 janeiro 2017

fios da história







Leitora


Gosto tanto de livros que não me atrevo a explicá-los. Sequer conto os livros que tenho pela casa. Eu os deixo na estante, na mesa ao lado da cama, no quarto de passar o dia. Sim, eu tenho um quarto de passar o dia. Nele me debruço sobre coisas que existem, sobre coisas que não existem e sobre minha preguiça. Tenho muita preguiça. E dela tento me livrar. Para isso, recorro aos livros. Eu os leio para manter em funcionamento o que penso e, por consequência, não dormir demais. Dormir é fuga, disse a terapeuta. Mas também pode ser cansaço. Tento não dificultar coisas com nomenclaturas físicas, filosóficas e tolas. As coisas são o que as coisas são. Aceito. E meus livros não precisam de minha explicação. Eles só precisam que eu os leia.




Escritora


Não entendo escritores que fazem questão de dizer que não são escritores. Do que estarão fugindo? Da culpa? Da plateia? Do peso que é escrever e sustentar o que se diz? Não entendo. Como pode um homem que constrói casas não querer ser visto como o homem que constrói casas? E se acaso a casa vir abaixo, quem irá se responsabilizar pelos danos? E se a casa se tornar bem vista por todos em bela construção, virá o homem dizer que é sua a engenhosidade que está ali? Como poderá dizer da casa se ele mesmo não gosta de dizer que é o responsável por ela? Por que fugir? Por que esconder-se em falsa modéstia? Eu sou escritora. Meu ofício é lidar com palavras. Se o faço ou não com maestria, já é outra história.




Mulher


O que mais me atrai em um homem é sua forma de lidar comigo. Só isso. O resto é criação do mundo.









03 janeiro 2017

já é manhã na indonésia










Carlos não escreveu. Ou talvez as cartas tenham sido extraviadas. Melhor assim. E se acaso Carlos tenha escrito, não faz diferença alguma. Não queria mesmo ler palavra que fosse. Carlos não entende minha liberdade. Nem eu. Mas eu tenho o direito de não entender minhas coisas. Carlos, não. Pessoa nenhuma deste mundo tem o direito de meter o corpo no que é meu.

O que é meu é meu.
Já calei demais para agora ter que ficar acuada.

Carlos comprou-me uma bicicleta e disse: Pedale por este caminho. Apontou, com o dedo vingativo, a trilha estreita do jardim de nossa casa. Eu não sabia andar de bicicleta. Porém, aprendi. Caí muitas vezes. Meus joelhos sabem das marcas. Carlos queria que eu pedalasse, mas somente no caminho no qual ele me havia apontado. Quando debandei da trilha, e pedalei pelo pasto, Carlos tomou-me a bicicleta. Chorei por dois dias. Enfiada sob as cobertas floridas da cama do quarto de visitas, deixei lágrima ensopar a fronha do travesseiro. Dolores ainda tentou me fazer sorrir ao contar história de sua família Etíope. Dolores me faz rir porque mente muito bem. Gosto de mentiras bem contadas. Posso até imaginá-las.

Mas não consegui rir da história dos Etíopes.
Dolores calou-se e me deixou só.
E estar só é como estar nu.

Percebi minhas imperfeições. Minhas imundícies. E percebi, claramente, como sou bonita. Toda livre. Depois de chorar muito e tentar curar meus arranhões causados pelas quedas, deixei o quarto e peguei briga com Carlos. Eu queria de volta a bicicleta. Ele, convicto, mandou que eu me aquietasse e fechasse o bico. A bicicleta já era, dizia Carlos. Repetiu a sentença por dias. Aceitei a ausência de minha companheira de pasto. Da bicicleta. O que Carlos não percebeu foi que, ao me permitir pedalar, permitiu-me muito mais. Ao apontar com seu dedo vingativo o caminho, permitiu que eu ultrapassasse meu limite. O pasto era imenso. Eu estava pronta para conhecê-lo. Uma vez que se toma a liberdade pelo corpo, Carlos, nunca mais se aceita a prisão.

E talvez ele tenha escrito as cartas.
E por Deus, peço ajoelhada: que tenham sido extraviadas. 
Eu não aceito mais suas palavras vãs.












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