17 dezembro 2014

nunca estivemos tão loucos










Creio que isto não seja novidade. Na idade média, sem dúvida alguma, havia mais loucos que hoje em dia. Porém, a loucura era diferente. Não comparo. Sigo em frente. Tenho roupas para dobrar e ligações a fazer. Paro para escrever e falar do que me enlouquece. De tarja preta. De ficar besta. Hoje cedo fui ao centro. Fumantes se aglomeram e conversam como bandidos encurralados em uma cela. Na cena, uma senhora se aproxima e diz que fica puta com as coisas deste mundo. Concordo. Eu vivo puta. De ira. De ódio puro. Mas finjo sorrir para não agredir gregos, troianos e amigos mais diabólicos que o próprio diabo em carne e osso. Estamos todos loucos. Crianças se vestem como adultos. E beijam na boca. Talvez seja questão cultural. Por bem ou por mal. Senhor vendendo água para bancar natal em casa e mulheres calçam saltos altos para esbanjarem suas bundas de nenhum quilate. Perdoe meu machismo. Não era isso que eu queria dizer. De embargo, estou até o talo de minha paciência. Não fale para não incomodar. Aja de acordo. Proibido pensar. No carro, porque sou cria da classe dos idiotas que não gostam de ônibus, ouço música e observo pessoas que passam. Música bonita. Rima boa para o cenho franzido do guarda da esquina que não caça ladrão, pois o homem não corre em vão. Leio de tudo. Coleciono, em meus olhos, múltiplos outdoors que mentem. Roupas para o fim de ano. Fé para o fim do mundo. Depois das eleições, ninguém parece o mesmo. Todo mundo optou por um posicionamento. Eu não ouso. Tenho medo de absurdos e ouvidos moucos. Mas acredito que haja uma folga neste estouro de coisa ruim que nos acomete. Um sorriso verdadeiro, uma mão que afague sem engano e um beijo na boca que não seja por interesse i(mundano). Tudo irá melhorar. Com paz e ferro. Esperemos em pé para seguirmos a tropa com o nosso caminhar histérico. Não quero parecer apocalíptica. E nem sou. Sou apenas uma a mais na estatística. E pago muito caro para ser enganada pela mídia. Amém. 










26 novembro 2014

após chuvas











Aos poucos
Que são tantos






A buganvília morreu. De novo. E, desta vez, percebo que não há chance da coitada voltar. Chorei não. Disse a Aurélio que cortasse o que sobrou da raiz. Estava podre a pobre planta pasma. Travando a língua, Aurélio fez o que pedi, e ainda me encorajou a buscar muda de outra espécie. Porém, não me senti pronta. Vivo meu luto até o fim. O velório ocorreu sem que ninguém notasse. Formigas cercaram o jardim e borboletas, que sempre surgem após as chuvas, deram ar de suas graças ao redor da planta que não estava mais lá. Eu, vestida como sempre me visto, cantei uma oração para a falecida, enquanto o homem, suando que molhava o chão, arrebentava com as mãos a raiz restante. Observei, com pretensa atenção, a lenhosa ausência da sombra que tanto me protegia do sol. Lembrei-me das flores e do vulto de suas alegorias. Eram belas as rosadas faces que brotavam de tudo quanto era lado. Suspirei ao final da cerimônia que nada carregou de fúnebre. Sorri ao ver partirem as formigas e, das borboletas, o bater de asas comoveu Aurélio, que pouco lamentou o instante. Fiz café e chá e deles nos servimos. Aurélio e eu. E eu só pensava na beleza próspera que surge, de improviso, entre os imprevistos. 







21 outubro 2014

das memórias curtas













Dia claro. Gripe forte em plena primavera. O cachorro caminha pelo jardim. Sempre com a língua de fora. Parece até que sorri. Percebo que ele está com sede e lhe mostro a tigela de água. Ele bebe. Porém, continua com a língua de fora. Dou de ombros e leio. Mario Benedetti me caiu bem. Veja como sigo seu estilo, escrevendo a respeito de coisas minhas, que nem são tão minhas. São mais retratos de uma memória curta. E ouço esta canção: Mariachi. Autoria: Ani DiFranco. Quando vejo filmes ambientados em Nova Iorque, sempre surge alguém ouvindo Ani. Gosto tanto que sequer julgo o filme. Vasculho o mundo em busca da música que tocava. Sempre fui de música, mais do que da palavra escrita. Minha vida é marcada por canções. E por pessoas. Mas, por serem mais controláveis, prefiro as canções. E era assim que eu costumava voltar do trabalho: ouvindo música e cruzando calçadas com meus passos lentos. Eu morava perto de onde ensinava inglês e adorava caminhar. Fazia isto quase todo dia. Eu adorava ver pessoas. Observava traços, gestos, ouvia suas falas como um tipo de deus distraído. Era perfeito. Parei de caminhar no dia em que um maluco tentou me acertar com uma lata. Na cabeça. Mas não foi por medo. Foi apenas por precaução. O medo não me alcança tanto. Deveria. Porém, não sinto tanto medo assim. Após desistir de caminhar, passei para os ônibus. E sempre com meus headphones me ditando palavras. Tudo era sonoro e harmonioso. Ruas, casas, sinais de trânsito. Aprendi mais em ônibus do que em conversas perdidas em alguns bares de mesas lotadas de caras carentes. E logo veio o carro. Trancada em quatro portas, movida por música e meus olhares furtivos, me sinto bem em automóveis. Mas não dirijo. Alguém sempre guia o movimento que virá. Se esquerda, direita ou linha reta. Detesto tomar partido em direções. Mas faço. Não há fuga. Agora mesmo, passo por uma prova de alta valia social. Eleições causam isto em um país cuja democracia empurra o voto garganta abaixo. Não entendo de política. Já disse isto. Mas cumpro meu papel. E dialogo a respeito. E trato bem quem quer que seja. Não me afasto daqueles que não seguem meu ponto de vista e sequer idolatro aqueles com os quais compartilho igualdade de decisão. Sou bem compreensiva. E, já com alguns fios brancos de vivências múltiplas, teço meus dias a partir das músicas que ouço. E, se por segundos o silêncio me tomar de conta, será esta a canção que ouvirei. Mas nunca o grito do Ipiranga. Estarei em minha cama. Ou andando pela sala. Ou indo ao trabalho. Mas será de música e não de palavras bárbaras que servirei meus ouvidos. Veja. Estou calma e planando em vocábulos que me levarão a dizer isto: minha liberdade é o que mais me assombra. 

19 outubro 2014

carta para ninguém











Esta é uma carta que não será enviada a ninguém. Porém, o ato de escrevê-la faz com que se torne lida. Não pelo destinatário. Mas pelas memórias que trago de tudo que perdi o rastro. Acho que foi chá de sumiço. Ou não. Ao entrar no blog de um amigo e notar que há quatro semanas não publico nada no afeto, me senti descabelada e sem jeito. Pois não vivo sem escrever. Aliás, vivo. Mas não da forma como quero. Escrevo para me enfrentar. Sou malvada demais comigo mesma e, ao me entregar às palavras, me dou um bom puxão de orelhas. Ou me convido para o mais secreto de mim. Enfim. Estive lendo. Li muito. Fiz lista dos livros que li. Desde Virginia Woolf a Osman Lins, estive lendo e me encontrando. E, dentre as obras lidas, uma me tomou atenção especial. O livro é de autoria de Jorgeana Braga. A casa do sentido vermelho. Me joguei em cada página, pois é isto que a autora me convidou a fazer: mergulhe nos sentimentos que surgirão nas páginas a seguir. Trata-se de um livro de amor. É. Amor mesmo. Personagens que amam e se deixam levar fluidos, em uma linguagem ritmada, como pensamentos que não precisam de pontuação. Assim que terminei de ler, escrevi algo. Daí, depois de escrito, guardei. Percebi isto em meu tempo de ausência. Escrever é um ato tão completo de fazer com que algo aconteça que, após deitar cada palavra em uma página, após acolher tudo, dando forma e sentido ao que antes era só pensamento e construção, a vontade que se tem é de guardar tudo. Porque já aconteceu. Estarei sendo egoísta? Talvez. Somos todos egoístas (Graças a Deus). Imagine um mundo cheio de gente altruísta e bondosa. Imaginou? Estranho, não? Sou tão egoísta que me maltrato apenas para poder, eu mesma, reparar o estrago. Mas entenda: não sou tão má quanto digo. É apenas artifício que uso para inflar ainda mais meu próprio sentido. Estamos em horário de verão e é primavera. Ou seja: nada está exato. Uma coisa se une a outra e, logo, tudo é toda coisa. Já desisti de tentar dividir-me para me entender em partes. Decidi viver de forma larga. Vasta mesmo. Calma e transparente, levada pela mais próspera paciência, espero que tudo me console de vez ou que me acabe em uma dor triste de fazer escoar cada gota de sangue que há nas veias que se enroscam nesta essência física na qual me faz de forma a natureza. Mas estou enrolando. O que gostaria mesmo de dizer nesta carta para ninguém é que sonhei com você. E foi perfeito o sonho. Ao acordar, quase telefonei. Porém, me lembrei: não tenho seu número de telefone. Nunca anotei. E nunca pedi para que me desse livre acesso ao seu mundo particular de raridades tolas. Aliás, ninguém pede permissão para isto. Mas sonhei. E, em meu sonho, foi como ter você por escrito. Belo, por mim grafado, e nítido.












16 setembro 2014

da hipnose, o verso











Era silêncio. No quarto, ecos de movimentos. Tudo era morno ou quente em excesso. Ele mergulhava nos olhos dela. Sem cuidado algum. E lhe acariciava o pescoço e dizia baixinho uma coisa qualquer e muito bela. Ela se encolhia e depois arfava o peito. Repleta de ar, ela o queria por dentro. Ele sorria sem emitir som. Apenas lhe tocava: as mãos, o rosto, os cabelos. Ele a enlaçava em um transe que não hipnotiza. Apenas convence. Mordia os lábios e repetia o ato nos lábios dela. Os olhos se olhavam como adestrados círculos de líquido e reflexo. Sorriam. Mas era quase dor. Àquela altura, não se reprimiam nem se descolavam um do outro. Duas mãos unidas. Pernas nuas. Ela as erguia como serpente que não dá bote. Estava entregue. Ele se acendia como explosão de pavio imenso. E logo lhe tocava os lábios que não falam verbos. E os beijava. Ela se contraía em gesto de parto e amor ingênuo. Pedia que ele dissesse algo. Ele dizia algo. Não seja perfeito, ela dizia. Porém, ele não deixava de ser. E, de voz velada, dizia tudo que não era em decorada malícia. Ele a amava. Ela o recebia. E veio, então, o arpão. De veneno ácido, o rio adocicado corria entre as formas da mulher que ele olhava nos olhos sem temor ou receio.

— Quer conversar?

— Prefiro ir.

Desceram juntos. No elevador, ela se olhava no espelho, buscando dar jeito em seu rosto rubro. Ele estava quieto.

— Não vai acontecer de novo. Ele disse. — Coisas assim não se repetem. Preciso explicar?

Ela, bocejando de mentira, apenas disse não.

No dia seguinte, os dois se repetiam em gestos de fome na mesma cama de ontem. Sabiam que aconteceria de novo. Pois, torna-se vício o ato que entorpece lábios que devoram homens.












07 setembro 2014

fetiche











— Qual o seu fetiche?

— O quê?

Parem tudo. Abriu-se um buraco sob os pés. Um vão imenso de interrogações. A pergunta parecia se repetir mil vezes equalizadas por outras questões.

— Fetiche?

— É. Fetiche.

Saiu de fininho. Desconversou e saiu. Disse adeus, três beijos que é pra casar e tchau! Na porta, um táxi.

— Pra onde? Perguntou o homem.

Ela, pega de calça curta, ao taxista disparou.

— Pra casa, moço.

— Mas a senhora mora onde?

— Ah, tá.

Ela disse o endereço e o táxi seguiu. Encolhida ali, no banco traseiro, só pensava na pergunta. Qual o seu fetiche? Mas como nunca pensei nisso? Como pude passar tanto tempo vivendo sem saber o meu fetiche? E passavam ruas e carros. Pela janela do táxi, paisagem. E ela se sentia perdida, sem saber mais da vida. Fetiche tem a ver com sexualidade. Ok. Então, digamos que minha vida sexual tenha passado até agora sem que eu saiba qual meu fetiche. O carro avançava pelas avenidas. Ela se encolhia cada vez mais. E tentava imaginar: Homem de calça jeans. Só de jeans e sem camisa. Não. Não é fetiche. Leite condensado? Melequeira! Nunca! Homem de barba? Mulher? Não. Homem e mulher de barba? Quê? No que estou pensando? Louca. Espera. Música romântica e homem de calça jeans? Não, meu fetiche não é esse. Meia luz e olhos vendados? Meio masoquista? Sinto nada. Nem frio na espinha. Ela tentava imaginar todas as situações possíveis que revelassem algo. Pés? Mãos? Não. Também não. Ereção? Mas isso é tão comum! Não é fetiche. Beijo na boca? Parou. Sentiu frio na barriga. Mas beijo na boca tem que vir de uma pessoa específica. Não é fetiche. É amor. Ou quase amor. O taxista cantava música de igreja. Sinal fechado à frente. Fazer coisas com estranhos? Mas eu já fiz coisas com estranhos e não gostei. Senti nada. Fazer coisas com mais de uma pessoa? Não. Não gosto de confusão. É muita mão. Meu Deus, qual o meu fetiche? Falou em voz alta. O motorista ouviu. O homem pensou que a mulher talvez estivesse drogada. E soltou: 

— Gosto de fazer corrida pra gente drogada não, moça.

— Não estou tão assim, moço. 

O bom seria se estivesse. Ou bêbada. Talvez fosse mais fácil descobrir. Flores? Tentou imaginar uma cama cheia de flores. Ela e um homem. Ainda não sentia nada. Começou, então, a imaginar alguns homens que conhecia e que pensava sentir algo por eles. Aquele? Talvez tenha algo de especial no jeito de falar. Talvez eu tenha fetiche por voz. Não. Não tenho mesmo. E o tal? Pensou em um cara que havia conhecido no trabalho. Forte demais. Me dá vontade, mas não me revela nada. Pingo de vela? Iogurte nas partes? Eca. A céu aberto? Ela começa a rir. Mas nem a pau. Pau? Não gosto da sonoridade. Banho de vinho? Cabelo molhado? Sexo violento? Não, não e não! Mas como posso não saber do que gosto nas horas de gostar de fazer algo? Todo mundo tem fetiche. No entanto, eu, que achava que tinha tudo, não tenho. Carro para em frente ao portão.

— É aqui, senhora?

Ela não respondeu. Parecia inerte. Olhava pro nada. O taxista falou mais alto.

— Senhora, chegamos!

— Desculpe. Quanto deu?

Pegou o dinheiro que tinha na carteira. Dinheiro inteiro.

— Fique com o fetiche, senhor. Aliás, com o troco.

Cada louco nesse mundo, disse o taxista, que saiu arrancando e cantando pneu.

Ela ficou lá, parada. Pensando ainda. Não tinha resposta. Desistiu de pensar no tal assunto. Entrou em casa, bebeu uma caneca de leite, tomou banho de lavar cabelos, vestiu camiseta e calcinha, passou hidratante nas pernas e na cama se encolheu. Daí veio uma cócega esquisita, um frio que percorria o corpo e estalava na língua, uma umidade de se envergonhar e querer mais. Tão simples. Telefonou.

— Alô

— Que foi?

— Eu sei a resposta.

— Então, qual é?

— Meu fetiche sou eu.












01 setembro 2014

delivery








A vida de Edgar


Estava tudo por um fio. De linha, de querer morrer. O gato, Tertúlio, estava morto. A mulher, Dionísia, havia fugido. A geladeira, Brastemp, estava vazia. E, para arrematar, seu time estava na zona de rebaixamento. Era muito para Edgar aguentar. Porém, como todo bom homem, ele decidiu que seria forte. Em nome de Deus, catou um gato na rua, foi ao supermercado, enchendo, então, a geladeira de porcarias enlatadas e ligou para um serviço de acompanhantes. Mande-me uma que seja jovem, ordenou Edgar. E, neste piscar de olhos, sua vida estava novamente por um fio. A única dúvida que permanece é quem estará controlando tão precário exemplar de marionete?


(antes, ficção)








Um mês sem escrever (no blog). Daqui a pouco, irão dizer que estou desaparecida. Então, dou as caras. Talvez eu tenha medo de sumir. Admito. Mas vivo sumindo. Percebo que pratico tudo que me causa medo. Um exemplo: tenho medo da verdade. Porém, ando com a minha sempre exposta, pensando o que acho que não devo esconder de mim mesma e acreditando que estou agindo certo. E isto é um diário. Só me falta dizer o que fiz durante o dia. Já percebeu que todo mundo tem necessidade de dizer o que está fazendo da vida? Todo mundo enfatiza o que faz e deixa de fazer como prova de que não está vivendo em pleno ócio. Talvez seja pecado. O ócio. E eu, que evito religião, falo em pecado. E digo mais: não confio em gente que diz amém a cada enunciado que transmite. Há (quase) sempre muita sujeira na cabeça e na língua de quem faz isto. Ou que fala demais em Deus. É como repetir algo para si mesmo até que se possa acreditar no que se diz. Entende? No mais, percebi que a sola de um de meus sapatos favoritos está se soltando. Pensei em colar. Mas, se eu colar a sola, não será mais o mesmo sapato. Será outro. Será um sapato colado. Não gosto de enchimento, de tingimento e duvido de muita maquiagem ao meio dia. É sinal de ruga imprópria. Das leituras, li muito mês passado. Autores que conheço e autores que já morreram. Gostei de quase todos os livros. Não citarei o título. Não vejo necessidade. Um deles me tirou a paciência. Quanto mais eu lia, mais o livro se alongava. As páginas brotavam. Eu cheguei a calcular quantas páginas eu conseguia ler por dia. Decidi deixá-lo de lado. Tenho uma pilha de livros que caracterizei como "livros que desafiam minha paciência". Eu os organizo por ordem alfabética e, se o tempo permitir, irei ler todos eles quando eu estiver com maturidade suficiente para dizer que estou serena. Há desafios que suporto. Porém, há outros que eu pulo. Como se fosse um tabuleiro de jogo, eu pulo casas, escondo dados e roubo, se for preciso. Nunca fui muito honesta. Será honestidade ou santidade isto que digo não possuir? Em meio às dúvidas, parou de chover. E esqueci pessoas. Esqueci tanto que sequer as menciono. Como diria uma amiga, veja só como ela está mocinha. Estou mocinha e encabulada. Sinto mais vergonha do que vontade. E amor mais do que necessidade. E estou escrevendo para dizer que parei de apostar em cavalos. Agora só aposto em tartarugas. Pois estas sempre chegam ao destino. Cavalos, muitas vezes, se desviam no meio do caminho.









31 julho 2014

formigas









Tive um dia normal. No trabalho, muitas vozes falando coisas que sempre falam. Pessoas gostam de se repetir ou falam alto para que sejam ouvidas. Trabalhei, fiz minha parte e larguei às 5 horas. Fiquei preso no elevador com duas mulheres. Uma, de cabelos louros, não parava de dizer que era claustrofóbica. E a outra, de vestido de bolinhas, apenas olhava as unhas de forma despreocupada. Eu, não tendo muito o que fazer, me sentei no chão e esperei que o problema fosse resolvido. Quinze minutos depois, o elevador voltou a funcionar. Dessa forma, estávamos livres, as mulheres e eu, para voltarmos a nossas vidas. Caminhei por 20 minutos. Eu não conseguia pensar em nada importante. Pensava apenas em beber algo e terminar de ler um livro. Atropelei uma fila de formigas que carregavam folhas caídas de uma árvore. Tentei evitar, mas já era tarde. Meus pés estavam apressados. E, se eu evitasse o atropelo, provavelmente teria caído. Matei as formigas e isso me incomodou por algum tempo. Até que cheguei ao bar. Não havia combinado com ninguém de me encontrar em um bar após o trabalho. Não gosto de combinações. Não gosto de muitas companhias. Sentei e pedi uma cerveja. Bebi muito rápido. A cerveja me abriu o apetite, embora eu não esteja sentindo muita fome nos últimos dias. Senti vontade de comer algo. Mas algo que fosse diferente. Senti vontade de comer o assado de carneiro que minha mãe costumava preparar nas festas de família. Li o cardápio e vi que no bar só serviam petiscos. Posso até ser comum, mas não sou pessoa de comer petiscos. Não suporto coisas em pequenas poções. Pedi outra cerveja. Bebi em dois goles. E me voltaram ao pensamento as tais formigas. Fui ao banheiro, lavei o rosto e tirei os sapatos. Eu queria verificar se as formigas ainda estavam lá, esmagadas. Não vi rastro. Havia apenas um tipo de poeira negra e algumas pedrinhas grudadas na sola de meus sapatos. Seria triste ver as criaturinhas mortas. Senti alívio ao perceber que não estavam lá. Voltei para a mesa onde estava e pedi outra cerveja. Não bebo muito. Tenho alguns problemas de descontrole etílico. Evito beber. Três cervejas são suficientes para que eu dê o dia por encerrado e volte para casa. Paguei pelas cervejas, peguei o ônibus e ouvi um pastor tentando vender Deus por duas pastilhas e uma caixa de chicletes. Comprei. Masquei o chiclete para disfarçar o hálito de cerveja. Cheguei ao bairro onde moro. Pedi parada ao motorista, que me olhou como se estivesse pensando em algo totalmente distante dali. Talvez o cara estivesse pensando em ganhar na loteria. Me ocorreu que algumas pessoas ainda sonham. E fazem de tudo para que seus sonhos se realizem. Talvez o motorista seja o tipo de pessoa que aposta na loteria, pensei. Talvez ele ainda tenha fé. Desci do ônibus, caminhei alguns metros, abri o portão de casa e fui recebido por Brutus, meu pastor alemão vira-latas. O cachorro latia para mim como se sorrisse. Fiquei feliz ao vê-lo. Falei com Brutus como se falasse com alguém. Abri a porta da frente, deixei as chaves sobre a mesa, me dirigi ao quarto, tomei um banho, vesti minha roupa de dormir (calção e camisa qualquer), catei algo na geladeira para comer. Mas eu realmente não estava com fome. De barriga vazia, me sentei na sala e liguei a TV. Deixei que passasse o noticiário. Tentei me importar mais do que já me importo. Procurei uma posição confortável na poltrona e fiquei apenas observando as cores cintilantes das imagens da TV refletirem na parede. Eram várias cores. E, antes de cair no sono, pensei nas mulheres do elevador. E pensei nas formigas que só carregavam folhas. Pensei em tudo e adormeci. Creio que ronquei a noite inteira. Mas não sei dizer. Ao acordar, não sei como explicar isto, mas, ao me vestir para outro dia de trabalho, dei de cara com uma fila de formigas carregando folhas no piso da cozinha. A vida se refaz, concluí. Despedi-me de Brutus e voltei ao meu dia de acontecimentos banais.










27 julho 2014

fútil beauvoir










A aranha tece puxando o fio da teia
A ciência da abeia, da aranha e a minha
Muita gente desconhece.

(João do Vale)






Abro o e-mail. Caixa de entrada lotada. Espaço para mais nada. Excluo alguns, leio outros. Limpo os spams. Exclusão. Há filtros também. Marquei algumas mensagens com um filtro para que caiam logo na lixeira. Já chega de demonstração de genialidade. Quando quero um gênio, abro um livro. Ou ouço música. Agora estou ouvindo Caetano. Álbum completo. É simples. Você vai ao YouTube e cata uma seleção qualquer e ouve as músicas. Nada mais está complicado. Aliás, está. Eu. Olá. Sou complicada do início ao fim. Mas onde é o fim? Pergunto mais não. Calo de novo. Assisto a programas que falam em alienígenas. Mas será que já não basta o que temos? Será que precisamos nos preocupar com o que há no planeta vizinho? Dormi no ato. Acavalada e coberta. Tão delicada quanto um soco na cara. Acordei. Inverso enunciado. Romântica marionete. Fútil Beauvoir. Estive pensando em pessoas. Não muitas. Conclui que cometo uma gafe imensa. Ao conversar com um amigo, ele bocejou. Diversas vezes. Daí eu lembrei que também bocejo. E no meio do verbo. Má educação da porra. Desculpe o palavrão. Não há coisa pior que demonstração de falta de interesse. O melhor seria fingir. Quer um conselho? Finja. Orgasmo, riso, vontade de abraço e até o escarro. Nós adoramos fingimento. Só não aguentamos a verdade. Vi a verdade. Igual Vovô viu a uva. Verdade egoísta, de calça jeans e barba. Mas é claro que esta é a minha verdade. Todo mundo tem uma verdade. A sua não é a minha. E, se for, um de nós tem problemas. Não gosto de quem concorda muito. É indício de falsidade. Que não é fingimento. É roupa tingida por cor nenhuma. Então, afaste sua falsidade de mim porque dela não preciso não. Preciso de amor. Preciso de grana. Preciso pagar dívidas. E preciso ler alguns livros. Mas não preciso de gente abrindo a boca de sono enquanto verbalizo. Nem ao melhor canalha eu me escandalizo. Mas ergo uma taça e convido ao brinde. Seja um bom canalha comigo que eu serei sempre a mulher que sou. E, depois disto, versam as línguas que a Maria nunca mais bocejou.










13 julho 2014

mutilada e otimista










Acordo. Abro a janela. Chuva e céu nublado. Estou meteorológica e cínica. Meu rosto está ressecado. Creme para as mãos e para os olhos. É preciso ser otimista. Por isto, passo creme na cara e me deixo vestida de pijama pela casa, enfrentando a limpeza da qual sou íntima. E do silêncio. Minha geração está doente. Não somos como nossos pais. Nossos pais vivem bem (aos trancos e solavancos). Mas nós, não. Sofremos de doenças que sequer existem. Males psicológicos. Paranoias imensas. Insatisfação que de nada se alimenta. A não ser de nós mesmos. Esqueço. Agora voltei aos óculos. Comprei. Óculos enormes. Esverdeados e lilás. Ou será outra cor? Estou daltônica. Óculos que preenchem além dos olhos que leem notícias de guerra, de sabotagem, de ódio. O mundo deveria acabar, dizem os mais revoltados. Eu não digo nada. Apenas leio. Bombas que não trazem alegria. Palestina mutilada. E ainda dizem que futebol é importante. Qual o peso disto na vida de um humano mutante e cheio de dramas espetaculares? Zero. Não me importo com futebol. Só em tempos de Copa. E logo teremos teorias que provem que tudo não fora comprado. Tudo fora vendido. A copa foi vendida para nós que a compramos por um preço muito alto. Bebida, infartos, brigas, terrores mínimos. Nada me surpreende tanto quanto a reação humana que é tão singular na derrota. Dizem que não sabemos perder. Mas como perder se nunca ganhamos? Não diga isto. Ganhamos vida a cada hora. Eu ganho. Aliás, eu recebo: amor, beijos e elogios. Mas ainda estou vazia como um cômodo de uma casa na qual não mora ninguém. Estou preenchida de oxigênio e várias outras substâncias nocivas. Dizem que ioga cai bem. Tudo cai bem para esta indigestão de consciência. Como pude me deixar levar por conversas tão tolas? Como pude, desde minha infância, acreditar em tamanhas mentiras? Fácil. A gente sempre escolhe o alimento que a mandíbula irá mastigar sem que haja muito esforço. A gente sempre escolhe o caminho mais aberto. Ou mais próximo. Ou mais risonho. Meu rosto está ressecado. Passo creme e olho no espelho. Minha geração sorri de graça e sofre por uma caça que ainda não se mostrou. Volto ao cinismo que é próspero. E à hipocrisia que é otimista, dizendo que tudo ficará bem no fim de cada dia. E só me resta dizer amém. 











06 julho 2014

sexo, amor e beijo na boca









Domingo é dia de churrasco, passeios e cerveja. Ou talvez seja um dia propício para ir à igreja. Ou, quem sabe, seja um bom dia para se esticar na cama e dormir sem as barreiras e obstáculos da semana.

Não irei citar o número imenso de outras coisas que pessoas passam em dias quaisquer. Há quem esteja sofrendo enquanto outros estão sorrindo. Eu quero apenas falar deste domingo.

Dia claro, de sol frio e chuva que vai e vem. Acordei e arrumei a cama. Li, certa vez, que arrumar a cama ao acordar faz bem. Não sei por que acredito em tanta idiotice. Tenho um forte senso para ser idiota. E sou. Com toda pompa e glória. E no superlativo.

Decidi que meu domingo seria de leitura e música (como coisa que a gente decide algo — porque, amigo, vem a vida e muda tudo — de repente). Mas consegui. Voltei a um livro que parei de ler há tempos.

25 MULHERES QUE ESTÃO FAZENDO A NOVA LITERATURA (Do Brasil, viu? País da copa das copas).

O livro é bom. É uma forma de encontrar o que se escreve por aí, que não seja clássico, pedante ou (enfim).

Começo a leitura. Primeira narrativa: homem, sexo e beijo na boca. Segunda narrativa: sexo, amor e beijo na boca. Terceira narrativa: Bebida, sexo e beijo na boca. Talvez não nesta ordem. Mas eram estes os temas das três narrativas que li. Decidi ir ao prefácio e saber se havia alguma explicação acerca daquilo.

O autor do prefácio deixou claro que mulheres ainda são levadas a escrever a respeito de um universo de romantismo movido por sentimentos. Explica ainda que na literatura são os homens que tomam o ofício de escrever a respeito de outras coisas. Mulheres, por questão de adquirem leitores, são levadas a falar de forma passional, narrando suas vidas ou experiências de amores.

Cruzes.

Concordei com a voz do prefácio. O mundo é macho mesmo. A gente, mulher, fica meio torta quando assume um papel menos "feminino" dentro da arte de escrever. A mulher que assume este risco precisa ter sangue frio para receber conselhos, tais como:

— Por que você não escreve contos eróticos?

Ou,

— Por que você não faz poesia?

Como se fosse coisa de mulher escrever conto erótico ou escrever poesia que ressalte um FALO ou o típico amor romântico. Sempre digo, quando ouço certos conselhos, que escrevo o que consigo. Eu não me arrebento toda para escrever algo que irá agradar. Se isto acontecer, que seja. Caso não aconteça, fazer o quê? Nem todo circo tem bons palhaços.

Era domingo, então. E eu estava lendo este livro que mencionei e que me fez pensar na literatura que é feita. Literatura feminina, com capa bonitinha e beijo na boca no fim da cena. Não sei se tenho jeito para isto. Sei apenas que leio autoras que vão além. Eu leio mulheres que falam da vida de um cachorro, de um homem bêbado, de uma barata e de ondas que trazem o vento. E leio homens que escrevem a respeito de sexo, amor e beijo na boca.

Essa coisa de literatura de calcinha ou cueca não deveria existir.

Não mais.

Deveria ser arte. Escrever pela arte. Por um amor que não é passional, mas sim, cúmplice. Por uma necessidade venosa de escrever e escrever sempre. De criar e contar histórias.

É isto. Nem sei se cheguei a concluir o que pensei antes de começar a escrever. Lembrei. Eu pensava a respeito da busca por assuntos que agradem o leitor. E concluo dizendo que isto é coisa de revista, que faz o editorial de acordo com as tendências da semana. Ou do mês. Autores apenas criam. Escrevem. Talvez busquem, vez ou outra, falar de assuntos que sejam pertinentes ao tempo em que vivem.

Sim. Isto é certo.

Mas, catar leitor falando de sexo, amor e beijo na boca, como se isto fosse prova de ser feminina, admito: sou assexuada. Nem homem, nem mulher. Escrevo o que digo. Se pareço passional (e sou), não peço desculpas. Apenas sigo escrevendo e carregando este rótulo de blogueira, autora e algo que ainda não sei denominar.

E domingo é dia de qualquer coisa. Dia de vida. De pura liberdade de escolha. Já chega deste caminhar por um trilho só.









29 junho 2014

epitáfio de um só











Mas, e se eu morrer de repente? Quem irá lavar minhas roupas sujas? Isto me preocupa mais que a política. Isto me faz não dormir mais que o amor que eu sinto. Minha preocupação de morte é muito viva. Mais viva que as flores de todo jardim. Epitáfios. Penso neles. Às vezes, até os celebro por ter escrito algo que talvez venha a fazer sentido. Não é medo da morte. Entenda. É medo de não estar presente ao morrer. Sei que isto acontece a todos nós. Todos os dias. A cada segundo, alguém morre. Terá esta pessoa deixado algo importante? Algum legado? Meu legado também me preocupa. Não quero deixar despesas. Não quero deixar lamúrias. Quero que todos sintam que parti, mas tão feliz quanto um pássaro em pleno voo aberto. Não quero que pensem que estive sofrendo ou chorando dramas. Não quero que me considerem vil. Quero morrer de forma intacta como um vidro nunca trincado. Morrer com uma simplicidade aguda de não mais respirar e apenas adormecer em tranquilidade. Mesmo que a morte física que me ocorra seja algo fatal e avassalador, quero estar sorridente em mim como uma estátua nua que jamais esconde seus defeitos de acabamento e retoques. E não me maquiem em minha plena morte. Não pintem as falhas de meu rosto que tanto fez de sorriso quanto de vasto sofrimento o choro. Não me escondam em esquife fechado porque a morte deve ser vista como ponto de partida para outro estágio. Menos trágico e mais denso. Morrer deve ser denso como tocar lençóis de algodão de tantos milhares de fios. Ou deve ser como sentar-se na grama e respirar fundo o ar que agita as plantações. Morrer não é fúnebre como o homem fez o traje deste verbo. Morrer é ir. É andar. Continuar a partir do fim. E, mesmo que não o seja, eu escolho este o enredo de minha partida. Irei de forma inteira, mesmo que eu deixe para trás amores e muitas dívidas.













27 junho 2014

reflexivo









Dia desses (acho que foi ontem) li um artigo de opinião que falava a respeito de mulheres que se dizem independentes e que, por tal razão, assustam homens que não gostam de sua independência. O artigo falava de mulheres modernas e muito competitivas, que saem com suas amigas e trabalham muito e reclamam dos homens que fogem delas porque elas são fortes demais para serem levadas em um relacionamento. Ao terminar de ler, não pude deixar de pensar: Onde está esta mulher horrível? Onde vivem tais mulheres tão poderosas que mal conseguem dar um jeito em suas vidas amorosas? Mas daí outra coisa me incomodou: Vida Amorosa. Será que isto é tão relevante assim? Já saindo do tema abordado no artigo, fico a pensar em vida amorosa, que é um mito que seguimos desde que começamos a ler conto de fadas. As meninas, claro. Meninos costumavam jogar futebol de botão, em meu tempo. O termo Vida Amorosa parece clichê e é. Pessoas, não importam se homens ou mulheres, estão sempre em busca de alguém que complete suas vidas. Alguém que dê sentido aos dias. Alguém que, de alguma forma, os faça saber que existem. Pessoas querem ser amadas e não se importam muito em dar amor. Outro clichê, né? Muito. Eu sempre tive receio de falar de amor em público porque talvez eu seja uma mulher que cresceu lendo livros mais existencialistas que românticos à la Sabrina. E não sou feminista. Sou conservadora, segundo me disse um amigo. Mas isto é outro assunto.

Vida amorosa ganhou, nos últimos tempos, este tom de importância como se fosse algo sem o qual não se pode viver. Vida é vida. Tendo ou não alguém ao seu lado, você terá que viver. Você terá que trabalhar e cumprir suas obrigações e continuar. E ser quem você é (com ou sem chapinha — com ou sem barba). Amar vai além da busca por alguém que "caiba nos seus sonhos" de se preencher porque se sente como uma fronha de um travesseiro esquecido. Mas quem sou eu para falar de amor? Eu me pergunto isto. E nem sei por que estou falando neste assunto. Há tantas coisas mais importantes. Mas amor é importante. Afeto é importante. Porém, não está no topo da cadeia alimentar. A gente deixa de se cuidar, de estar bem consigo, de se preencher com mais conhecimento e experiências, para se preocupar apenas se fulano ou fulana irá telefonar após uma noite de beijo na boca.

Estar só não é o fim do mundo. É apenas o começo. Ou uma fase. Mirem-se no exemplo das crianças que começam a andar sozinhas para, somente depois, aprenderem a andar de mãos dadas.

Eu creio que é isto. Não adianta estar com alguém apenas por estar e ainda sentir-se capenga por não conseguir amor suficiente para preencher um sonho. Vida amorosa deveria ser mais uma partilha e não uma guerra de fazer feliz alguém que talvez esteja ali apenas por ter medo de morrer sozinho. Sim, isto pode soar frio. Mas nem tudo queima, baby. O amor é lindo. Apaixonar-se é perfeito. Mas não ocorre com tanta frequência como se mostra em filmes porque talvez estejamos muito preocupados em encontrar alguém que caia de amores por nós. E quase nunca o contrário. Então, antes ou depois da independência das mulheres ou dos homens, há sim uma solidão imensa dentro de todos. Estando ou não em boa companhia. E isto vai além de uma vida a dois. O homem (generalizo) precisa antes estar só. E, somente após isto, após engolir poeira de solidão, possa, talvez, aprender a amar outra pessoa por completo. Sem esperas ou muletas. Amar é verbo que se conjuga no plural. Reflexivo. E se o amor não der certo, como diz o poema, outro amor virá. Ou talvez não. Mas algo virá. E sua vida ainda será vida, mesmo que você passe tempos solitários. Vida amorosa, acima de tudo, é estar bem consigo mesmo nesta bagunça imensa na qual vivemos.










20 junho 2014

os dois









Nunca se deram bem. Talvez no início, um dia ou outro, tenham sentido alguma afinidade, que é a tal coisa que faz com que pessoas queiram estar juntas. Porém, digo que com eles isto não aconteceu. Foi o contrário que os levou a criar uma história que sequer desenvolveu enredo. Tudo aquilo que repele. Por solidão, talvez. Saíram para jantar, certa noite. Ela sorria enquanto ele falava de sua ex-mulher. Ela sorria e se perguntava (lá com os pensamentos dela) se ele não iria parar de falar a respeito de algo que ela não queria saber. Ele continuava a falar e a repetir. Ele se referia à ex-mulher como a falecida. Ela, quieta e aparentemente prestativa às vivências do homem, apenas pensava que falecidos não deveriam causar tantas dores. O jantar decorreu tranquilo. Ambos falavam de seus relacionamentos. E foi assim: alguma conversa, alguns segundos de silêncio e uma bebida para acompanhar o tédio que havia entre os dois. Nada de extraordinário aconteceu. Depois fumaram um cigarro, ele a levou para casa e não se encontraram mais (por um bom tempo). Houve um beijo. Um beijo que talvez tenha deixado algo que fez com que se encontrassem outra vez, meses depois. Seria o primeiro encontro, como dizem por aí. Mas deixe-me explicar: uso o termo Primeiro Encontro porque talvez houvesse algum desejo ainda escondido. Algum mistério envolto. Ou nada. A noite fora semelhante à outra noite do jantar. Ele falou a respeito da ex-mulher e ela ouviu. E com respeito. Pois talvez ele estivesse sofrendo. Ora ela ouvia, ora se deixava levar pelas vozes de outras pessoas presentes no bar. Ou pela música. Ela decidiu que iria beber. Somente alta em dose etílica conseguiria manter-se ali, paciente e receptiva. Ele falava. Ele se queixava. Ela acendia cigarros. No ir e vir daquela noite, os dois terminaram fazendo o que se deve evitar. Mas o sangue arde. Ela o queria. Ele não aparentava estar ali. Mas ela estava. E talvez o tenha feito sentir-se menos desgraçado. Ela o engoliu como havia engolido a bebida das horas anteriores. O que ocorreu após é sempre o óbvio. Dois em um. Mas nem sempre dois em um representa unidade. Eram orgulhosos e solitários demais para se deixarem dividir. Talvez eles não se desejassem o bastante. Ele não a suportava. Criticava mais que sorria. No entanto, enfrentando a revelia, se encontraram outras vezes e cometeram abusos, um contra o outro. Ele a usava. Ela o usou. Mas para quê? Nunca disseram. Talvez gostassem de ler os mesmos livros. Talvez gostassem das mesmas músicas. Talvez, por estarem famintos demais, tenham deixado seguir o que nunca havia existido. É de nota dizer que o homem nunca estava só em companhia. Ele tinha mulheres. Muitas, talvez. E falava a respeito de algumas delas. Ele mostrava a ela fotos de algumas mulheres. Ela olhava as fotos e tentava se distrair ao observar a luz da luminária que invadia a sala. Ele se apaixonava por mulheres e pedia a ela conselhos para seus amores. Até na cama ele pedia que ela o aconselhasse. Ela, nua e despida de seus pudores, ouvia o homem dizer que amava outra mulher e sempre mais mulheres. Até que ponto aquilo não a machucava? Outra questão que nada se sabe a respeito. Até que ponto aquilo não fez com que ela se sentisse ainda mais solitária? E ainda se encontraram uma vez. Mas para quê? Conversavam, discutiam, falavam. Ela ouvia insultos. Talvez tenha engolido o choro certa vez. Ele talvez não tenha percebido. Talvez ela o tenha ofendido também. Porém, não há como dizer. Pois o enredo não fora suficiente para que se diga algo mais a respeito dos dois. Deveriam ter se mantido em amizade. Mas havia amizade? Ele sempre dizia que eram amigos. Ela sorria e concordava. Por fim, é este o único registro que me cabe: o relato de uma história que, por não ter sido, nunca houve de verdade.









18 junho 2014

minuto de acesso











biblioteca



Não quero muito. Não quero as mesmas coisas que quer o mundo. Quero apenas uma modesta biblioteca e alguns livros. Alguns que sejam antigos. E outros novos em contemporaneidade. Quero livros de vários tipos e autores diversos. Quero, em tarde qualquer, olhar a estante e saber que há possibilidade de ser mais que um. Ser um não é o bastante. Por isto busco a leitura como forma de me multiplicar. Ontem, e já era noite, me tornei personagem mulher. Esguia e cautelosa, eu andei pelas ruas de Paris. Tão em mim eu estava. Não recordo a página, nem o romance. Mas era eu quem tomava um café e observava aves sortidas que voavam raso em praça vazia. Não tenho mais o costume de dizer que ler é a única forma de vida. Digo apenas que o ato de leitura torna a vida menos esquisita.





a louca



Em consulta médica, fui interrogada. Qual é a sua idade? Sorri. Mas não por me sentir mais velha. Sorri por ter perdido o antigo medo de ter na pele o rastro do tempo. E nos olhos. Usarei óculos de graus aumentados. Isto não é nada, pensei. Ao sair do consultório, ao caminhar por calçadas, me deparei com ela: uma mulher de minha idade, talvez. Muito maquiada para o horário. Muito viva para os riscos da cidade. Ela sorria e falava. Dizia, em voz alta: Eu sempre falo com os vizinhos. Aquilo não me assustou. Era uma mulher falando em voz alta. Que mal há nisto? Não há loucura em falar consigo mesmo. Loucura de verdade eu vi alguns passos à frente. Homens e mulheres, carregados de trabalho e cansaço, esperavam condução para retornar a suas casas. Isto sim é loucura. Trabalhar até exaurir nossas forças. Reclamar e não ter a chance de sorrir. Morrer sem ter tido a chance de viver. Não era louca a mulher. Louco é o mundo. Louco é o relógio que não se cansa de correr.





dos gatos



— Para que o gato?
— Para perseguir o rato?
— E se o rato escapar ileso?

A gente nunca pondera opções. Apenas atira. De olhos fechados. Fazer plano é prazer imediato. Quase falho. Canastrão que pensa ter nascido para o palco. Poste aceso em rua distante. Rua que ninguém trafega. Rua que nem o vento invade. Tudo nos é parte.










01 junho 2014

os meninos da minha rua








Eram tão bonitos. Tão contentes. Corriam e gritavam de alegria. Alguns calçavam tênis. Outros, que calçavam chinelos, vestiam short azul e camisa de time. Eram meninos que estudavam de manhã, brincavam à tarde e, quando era de noite, sentavam no chão, na calçada da casa de alguma senhora que contava histórias de terror. Os meninos morriam de medo das histórias, mas eram corajosos na hora de enfrentar a bola durante o jogo de futebol. Eram meninos parecidos com os meninos de histórias em quadrinhos. E eles seguiam fases. Durante o dia, eles brincavam. À noite, namoravam. Pegavam a mão das meninas e se sentiam o máximo. A vaidade, que acomete todo mundo, também acometeu os meninos da minha rua. E eles não ligavam para as meninas que eram menos bonitas. Eles queriam as meninas mais lindas. Eles faziam festa, eles se exibiam, e passavam velozes em suas bicicletas e depois em motocicletas e, mais tarde, dirigiam carros. Os meninos faziam corrida. Alguns até se machucavam. Eram meninos muito lindos, da rua de baixo, da rua de cima, da rua de lado. Eles surgiam, com seus olhares curiosos, e formavam grupos ou bandos que sempre andavam juntos. Com o passar do tempo, eles cresceram mais, pois é esta a ordem das coisas. E ficaram sérios. Alguns queriam estudar mais. Outros queriam apenas diversão. Outros se trancavam em suas casas porque não agradavam os bandos. Ninguém falava em bullying nesta época. Era apenas coisa de menino que não gostava da cara do outro menino. E isto também ocorria entre as meninas que, a esta altura, já haviam escolhido namorado e faziam planos para o futuro. Alguns meninos se casaram. Outros se mudaram. Alguns partiram (cedo demais). Mas eram meninos de um tempo que se apresentava mais calmo e perfeito. Havia brigas, competição, maldade e todas as coisas que cercam a humanidade desde que o mundo existe. Eu penso nos meninos da minha rua com carinho e um pouco de saudade. Porque eram meninos de um tempo ingênuo, de um relógio menos atarantado. E, ao lembrar-me dos meninos, lembro-me de mim, a menina de olhos tímidos e colecionadora de papel de carta. Lembro-me também das meninas com quem eu brincava. Coisa mais engraçada. Nós tínhamos a nítida impressão de que a vida era nossa e que os dias nunca passavam por nossas portas. E talvez o tempo não passasse. Há sempre algum mistério que nos faz transcender a lógica.









31 maio 2014

bonus track











Há extrema beleza em relações que são mais curtas do que o pavio que não alcança a pólvora. Melhor desertar. Melhor não recriar a história. 

(Flora Conduta)







Perigo. Mulher em cúmulo de TPM, portando cartão de crédito, vasculha sites de roupas e calçados. Minha mãe costuma dizer que TPM não existe. Ela diz que é frescura. E eu concordo. Não existe TPM, nem alienígenas. E também não existe isto que eu escrevo. É invenção besta. Genocídio particular. Matar ideias que não valem muito. Elas apenas valem o momento, que já não é lá essas coisas. De novo, enchimento para o travesseiro. Fula da vida com nada, a mulher liga a tevê. Pesquisas Revelam. Pesquisas estão sempre revelando algo. Deveriam, só por novidade, dizer que ocultam. Pesquisas ocultam. Assim como pessoas que ocultam. Assim como orações que ocultam o sujeito. Eu admito ter uma queda por orações deste porte. Por esta razão, eu nunca indico o sujeito. Posso até anunciar endereço, mas não aponto o dedo. Sou discreta. Igual cisco no olho. Eu incomodo, mas não me mostro. É preciso, para que eu seja vista, uma boa revirada em gavetas, rever álbuns antigos ou reler alguma anotação escrita por razão estúpida. Assim, talvez eu surja: a intrusa radiante. O cisco aparente. Salto agulha oculto por vestido longo. Liquidação virtual engana. Nada vale o preço que se cobra. É sempre mais ou menos. Não sei subtrair. Logo, sou levada a adicionar. E daí eu me ferro: adiciono até coisa que não sinto. Isto é absurdo. Exercito a indiferença. Mas, até com aqueles que jogam sujo, minha atitude é educada. Nunca desejo o mal. Desejo felicidade, passe bem, boa tarde e um punhado de culpa em dias de solidão. E a casa está vazia, Bruce Springsteen canta Thunder Road. Roy Orbison singing for the lonely. Trecho perfeito da trama. Mas ninguém é tão solitário assim. Todo mundo é múltiplo de um baita inventário de gente que vai e vem. E de gente que não volta. Gente que escapa pelos vãos. Gente que a gente inventa de enfiar em nossa história. Gente que nem estava no script. Somos palco estreito. Melhor poucos personagens a multidão que apenas enfeita a paisagem. Por fim, a mulher desiste da compra, pensa na importância de outros assuntos e se enfia nas cobertas de sua cama. E ela diz que sente muito por tudo que disse sentir. Ela nunca soube ficar calada. Do dicionário, a mulher sempre quis usar todas as palavras.













21 maio 2014

um amor de vício









Era vício aquilo. Coisa que se cria na cabeça, da noite para o dia. Foi em uma segunda-feira que ele percebeu. No trabalho, mal havia começado o expediente, e ele já roía as unhas e sentia seus joelhos tremerem. Inventou, então, uma desculpa qualquer — é azia — algo que não me fez bem. Dispensado da obrigação, foi para casa. Dirigiu o carro feito doido. Ao chegar, tirou a gravata, sentou-se no sofá e colocou no colo o treco: seu aparelho telefônico. Há meses havia notado o quanto aquilo o fazia bem. Sentia-se o máximo. Era homem, enfim.

E o telefone tocava.

— Alô. Eu gostaria de falar com o Sr. Alves de Arruda.

Ele respondia com toda a felicidade. O corpo arrepiado. Era a operadora de telemarketing. Ele adiava compromissos, faltava ao trabalho, fazia de tudo, só para ouvir aquela voz, gerundiando verbos, e alegrando seu dia. E não era uma voz somente. Eram quase todas que o faziam sentir-se assim. Mulheres representadas por vozes que falavam por bancos, financeiras, instituições de caridade, o escambau. Ele as amava. Conversava feito cliente, de início. Mas depois, conseguia levar a conversa até o ponto em que a mulher já o chamava pelo primeiro nome. E ela ria. E ele também. Imaginava como ela estaria vestida. E perguntava: — O que você faz quando não está trabalhando? Estuda? Elogiava a voz da mulher. Elogiava o que não via. Estava louco. Colecionava vozes como quem coleciona gibis. Gostava muito das vozes mais suaves — porque era sinal de pouca idade. Gostava das novinhas. Era gentil com as mulheres para ganhar uma resposta satisfatória: uma foto por e-mail, um número de celular, algo mais. E ganhava. Tinha fotos de muitas. Eram geralmente fotos de mulheres na praia, sorridentes, de óculos escuros e cabelos longos. Gostava dos cabelos longos. Decorava o nome daquelas que tinham cabelos longos. Das outras, ele sempre desistia. Fazia listas: Esta tem filho (não quero). Esta é tagarela (não quero). Esta é muito velha (não quero). E isto continuou até o dia em que surgiu a voz de Viviane. Que maravilha de voz. Viviane não foi difícil. Em menos de um mês, ele conseguiu dela foto, número de telefone, endereço e tudo mais: um encontro para almoço. Ao vê-la, sentiu-se completo. Viviane era linda. Bronzeada, bem torneada, pernas lindas e falava feito anjo. Toda suave. Alves de Arruda sentiu, a partir daquele dia, que seu vício fora domado por aquela criatura mulher de voz. Passaram a se encontrar muito. Quase todo dia. Começaram a namorar. Alves de Arruda era o tipo de homem que gostava de namorar bastante. Beijava de língua e comprava presentes. Viviane o levou para conhecer sua família. Viviane o fez sentir prazer. Viviane ganhou o prêmio nobre de ter Alves de Arruda para si. O homem passou a trabalhar o dia inteiro, não queria mais saber das outras mulheres; ele queria apenas Viviane. Estavam juntos há quatro semanas e decidiram dar o passo maior: — More comigo, Viviane. Ela aceitou. Foi num domingo. Mudou-se. De mala e cuia. Viviam felizes e satisfeitos na casa de Alves de Arruda que agora era homem casado. Ele dizia isto aos amigos. Estou casado. Tão alegre. E esta situação se prolongou até o décimo dia de convivência com Viviane. Algo não estava funcionando. Alves de Arruda sentia-se levemente desconfortável e infeliz. Conversou com Viviane para que, juntos, encontrassem o problema no relacionamento. Ela chateou-se. Afinal de contas, não estavam juntos há tanto tempo assim. Começaram a brigar. Quase todo dia. Ele mal ficava em casa. Alves de Arruda estava sofrendo. No trabalho, seus joelhos voltaram a tremer. Ele voltou a roer as unhas. Inventava desculpas para não voltar para casa. Ficava vagando pelas ruas como mosca que não encontra luz para circular. Sentado em um banco de praça, sozinho e doído (Pois gostava de verdade de Viviane. O fim do relacionamento, que já estava por se dar, o fazia sofrer). Ele pensava no que seria dele daqui pra frente. Sozinho e desabrigado de amor. Foi quando o telefone tocou.

— Onde você está?

Uma luz se acendeu em Alves de Arruda. Era Viviane. Ela não costumava ligar para ele. Os dois, após se unirem feito casal, nunca mais haviam falado ao telefone. Ele sentiu frio na barriga, seu coração inflamou de paixão, seu "aquilo" voltou a reagir. Como não havia pensado nisto? Ali estava a solução para tudo. O amor havia retornado e estava tão belo quanto antes. Voltou para casa, feliz e traiçoeiro, e beijou Viviane. De língua. Contou à companheira o que havia ocorrido. É isto, Vivi. Bastou que você me ligasse. Tudo voltou. Viviane sorriu de tanta felicidade. Sua vida com Alves de Arruda estava salva. Deste dia em diante, ela passou a telefonar para ele, sempre no mesmo horário, e operava seu telemarketing, vendendo seu gerúndio, para que seu homem ficasse de novo feliz. Viviane era boa e entendia. Pois era vício aquilo. Coisa que se cria na cabeça, da noite para o dia.










19 maio 2014

caetano entorpecente










Eu não queria muita coisa. Eu me contentava com pouco. Queria só aquele tempo de ficar a tarde inteira olhando o mar e fumar cigarros que enchiam as vistas e traziam a lua em plena tarde. Eu só queria aquilo. Uma pausa entre as faixas. Mas eu cresci, você morreu (sentido figurado filho da puta) e eu decidi que seria cada vez mais canalha. Cansada da guerra, de ser boa e levar na cara, me tornei isto. Agora aguente. Da rebordosa, sou a ressaca. Fantoche de fêmea inconveniente.





Homenzinhos lindos malham seus corpinhos pela praia. Cada um mais parecido com o outro. Camisas suadas e braços de fora. Eu gostaria de conversar com um deles. E saber o que pensa. Mas será que pensa? Isto é raiva. E preconceito. Meu ato de pura violência. Não nego minhas falhas grosseiras. De novo, consulta. Como você está hoje? Explico, passo a passo, como me sinto. Nauseada? Triste? Cansada? Nenhuma das alternativas. Eu me sinto bem. E a culpa sumiu. Eu me exorcizei. Falei um pouco mais, contei mentira e vantagem e parti, controlada como uma tempestade enlatada. Primeira esquina, um bar. Eu não bebo, não gosto do gosto que enche a boca, mas, naquele dia, eu iria beber. Pedi vodca. E Fanta — sabor Laranja. Uma merda. Acendi um cigarro e fitei as ruas. Muito calma. Sincera e quase febril, percebi que um cara me olhava. Não era bonito. Mas eu não buscava beleza. Eu só queria conversar. Ele veio e sentou. Sorriu. Fuma? Aceito. O melhor de tudo é quando dizem ACEITO. É sinal aberto. Já chega de frescura neste mundo cão. Conversamos muito até que começou a sessão de tortura: muitos elogios para acelerar a fúria. Ainda era de tarde. Eu moro perto daqui. Palavras mágicas. Caminhamos juntos e a vodca fez o favor de me favorecer. Não lembro o andar. Mas era alto. O cara, de uns 38 anos, professor de filosofia. Pura sorte minha. Vou dar com um intelectual sensacional comedor de quentinhas. O apartamento não era lá essas coisas. Se bem que nem reparei. A cama era boa. Desde quando isto é importante, não sei. Me esbaldei de cara e música. Ele era mais um do tipo que ainda ouve música bacana. Caetano entorpecente. Subo e desço. Saio da ordem. Enlouqueço. Repudio bipolar. E o cara foi ficando bonito e perfeito. Um não sei o quê. Adorei, mas só analisei com mais cuidado depois da segunda cena. Vodca perde efeito e eu me vejo como você me vê. Mais conversa surge e eu digo coisas de mim. Meio segredo. Nunca se diga por inteiro. Colidem no ar as palavras malvadas que penso. Ele sorri ao se despedir. Digo que preciso ir. Ele entende. Melhor coisa é homem que entende, que compreende, que se arrebenta. Da segunda vez que nos vimos, avisei: eu sou assim e descuidada. Causo espanto. Ele deu uma risada que parecia mais uma explosão de alívio. Disse que gostava de seres ruins. Após percebemos o quanto somos afiados para a maldade, tudo fica melhor, ele disse. E o cara entende quase todas as minhas histórias. Eu finjo que me importo com o que ele mente e a gente já está nessa há tempo suficiente para dizer amor, inventar desculpas e planejar nossas horas inconsequentes.










15 maio 2014

os pés pelas botas








Que horas são? Pergunto. A resposta está no carro que passa e atropela sapo que saltava em poça d’água. O céu está azul e, certamente, há pessoas aproveitando o sol que se deixa estampar em alguma praia. A campainha toca. É o carteiro. Ele arremessa um envelope imenso que não abro. Apenas verifico se estão corretos endereço e destinatário. Enquanto isto, há um pequeno aparelho ao meu lado. O aparelho não para de vibrar; ele insiste, ele coexiste. É o celular. Lembro ainda o tempo em que telefone só servia para telefonar. Era bom. A gente dizia alô, ouvia alô, falava alguma coisa e dizia até mais ou tchau. Hoje não. Ter um telefone é como estar ao lado do mundo inteiro de gente falando e contando histórias ou praguejando ou chamando atenção. Não me lembro disto no passado. Era tão difícil ver alguém irado ou fulo da vida ou pelado. A vida era mais discreta. Hoje em dia dizem que ganhamos liberdade de expressão. Acho que não. O que ganhamos, por nosso excesso de liberdade, é o avesso dela: estamos aprisionados. Envidraçados. Agimos de acordo com as normas: Não diga o que você está pensando. Diga o que você deveria estar pensando. É isto. A verdade se traduziu no ato de fingir. Ou mentir mesmo. E, quando o fingimento transborda, a corda arrebenta e alguém acaba metendo os pés pelas botas. Entende? Repare bem que eu estou dizendo o que eu penso, mas de forma que pareça que estou pensando em algo que não seja isto. Inventei de criar uma conta em um aplicativo de fotos. Um horror. Sempre que vejo as tais fotos (que são minhas), digo: Mas eu estou tão diferente aqui, nesta imagem. E o aplicativo ainda informa o tempo. 16 semanas atrás. Socorro! Estou mudando muito rápido. Estou envelhecendo. Estou engordando. Estou acontecendo. Estou morrendo. Estou tão tempo. E as notícias surgem instantâneas. Arrastão ocorre agora, multidão grita por seus direitos, tente não enfrentar o tráfego na Avenida Dom Pedro II — tudo está engarrafado. Só agora perceberam? Este engarrafamento vem se formando há décadas. Tudo começou pelo começo, quando a gente se esqueceu de ser de verdade e passou a agir feito ponteiro despencado que desrespeita a lógica dos números inteiros. Eu tenho medo de abrir meu e-mail. Eu evito telefonemas. Eu ligo a tevê e não consigo mais ver tanta barbaridade que ocorre enquanto a gente sorri em fotos que sequer são de verdade. Se estou fugindo? Não creio. Estou apenas observando o céu que está azul. E não sei bem no que estou pensando. Talvez eu esteja apenas elaborando. Sem pressa. E, com todo respeito ao tempo, estou apenas vivendo uma fase silenciosa que não berra ao fervor da chaleira. Penso que somente quando pararmos é que saberemos o que o tempo está nos fornecendo: se morte, vida, alegria ou fartos instantes de arrependimento.












03 maio 2014

a moça










A moça, coitada, se esgarça toda para cantar. No palco, dois homens fazem papel de segurança. Mas contra o quê? A menina continua cantando. Sua voz não me diz nada além do fato de estar desesperada querendo encontrar sucesso. Pessoas querem ser vistas e elogiadas ao extremo. Pobre menina. O garçom se aproxima.

— Já fez seu pedido, senhor?

— Me traga um conhaque.

Curto e grosso. O garçom é um moleque. Deve ter no máximo 25 anos. E me chamou de senhor. Em casa, quando estou sozinho, sou o homem mais jovem do mundo. A não ser quando tomo aqueles comprimidos para dor nas costas. Quando estou na rua, em ônibus, principalmente, sou um velho. E agora este moleque me chama de senhor. Que se dane. Sou senhor. Aceito o tratamento por pura educação. Sou educado demais. Duas mesas ocupadas. Em uma delas, um casal e, na outra, mulheres bebem enlouquecidas. Conheço o tipo. Saem juntas para que possam falar de suas vidas que são tristes, porém, maquiadas de felicidade. Todas juntas, as mulheres bebem e riem alto. Falam de homens. Ouço nomes. Tais homens que, provavelmente as abandonaram para que possam estar com outras que logo estarão com suas amigas, bebendo e falando mal destes homens. É um ciclo sem fim.

— Seu conhaque, senhor.

Agradeço. O garçom me serve e me indaga se irei pedir algo mais. Por hora, digo que não. Minha vontade, de verdade, seria pedir que a loura bonitinha do palco calasse a boca. Ela irrita. Canta tudo. Agora esta fazendo cover de (não consigo reconhecer a música). Norte-americanos? Talvez. Estamos sempre imitando norte-americanos ou algo que parece melhor que nós. Nunca seremos originais. Eu mesmo imito alguém. Não sei dizer quem, mas, obviamente, deve ter existido ou talvez ainda exista alguém igual a mim. Que seja. Eu aguento.

O conhaque me esquenta. Vou ao balcão.

— Você é o dono? Me dirijo a um cara, mais ou menos de minha idade, com cara de latino e algo de amarelo demais nos olhos.

— Sou. Pois não?

— Quanto a moça cobra para cantar?

— Ela ganha por cliente.

Quase soltei uma gargalhada. Mas me contive. O bar estava vazio. Somente eu, o casal e as mulheres solitárias.

— Posso pagar para ela parar de cantar?

— Isto não está no contrato, senhor.

— Convenhamos, amigo (digo ao cara do balcão). Esta moça não irá lucrar nada aqui. Diga o preço. Pagarei o dobro pelo silêncio.

— Bem, é o trabalho de uma artista.

— Conheço essa história. Não me venha com esta de trabalho de artista. Quantos anos ela tem? Trinta? Ninguém sai do lugar nesta cidade. Deixe que eu pague pelo trabalho da moça. Daí você joga uma música qualquer no som. Qualquer música será melhor que isto.

Tiro do bolso um pequeno envelope com algumas notas, as quais o cara do balcão observa e grita, no instante: o show acabou. Já passa das dez.

A moça joga o violão nas mãos de um dos caras do palco, desce furiosa e enfrenta o dono do bar. Disse algo. Eu não quis saber sobre o que falava. Voltei para minha mesa a fim de terminar meu conhaque. Percebi que a moça me olhava. E ela se aproximou.

— Por que pagou pelo show?

— Estou poupando suas cordas vocais.

— Seu filho da puta!

— Moça, escute, se contenha. Não diga palavrões a um homem que talvez tenha lhe salvado a vida.

— Eu sou artista. Não preciso de seu dinheiro.

— Veja como um ato de doação. Não quer sentar?

— Doação?

Ela estava quase fora de si. Na luz, pude reparar nas rugas que se formavam ao redor de seus lábios, na pintura exagerada em seu rosto e nas roupas; por um segundo, senti pena. Por um segundo quis realmente salvá-la.

— Como se chama?

— Não viu no cartaz? Está tão velho assim, que não consegue ler?

— Menina, eu não perco mais tempo lendo cartazes. Vou direto à informação. Mas tudo bem se não quer dizer seu nome.

Ela suavizou seu tom de raiva. Enquanto os homens guardavam o equipamento de som, ela, desarmada, sentou-se ao meu lado.

— O que está bebendo?

Acenei para o garçom e pedi que trouxesse uma dose de conhaque para a moça ao qual ela bebeu de um só gole e exigiu do garçom uma segunda dose.

— Rita.

— Mas no cartaz diz Dizzy.

— Você disse que não lia cartazes.

— E você disse se chamar Rita.

— É o meu nome.

Logo, Rita e eu estávamos íntimos. Ela me contou toda sua história. Família pobre, vida difícil, homens complicados e dois filhos.

— E quando começou a cantar, Rita?

— Canto desde criança.

Rita me falou de seu trabalho. Ouvi sua história com muita atenção, até que o conhaque, que das doses já havia perdido as contas, começou a fazer sentido em tudo.

— Quer ser ouvida, Rita? Cante em igrejas.

— Igrejas? Mas não sou religiosa.

— E quem disse que precisa ser?

Eu disse a ela, pacientemente, tudo a respeito de igrejas e dogmas e fieis. Eu disse a Rita o que ela teria de fazer para ser ouvida. Artistas são bichos tão devoradores que, ao fim de minha explicação, Rita perguntou:

— Gravarei minhas músicas?

— Mas é claro que sim.

— E serei ouvida?

— Não tenha dúvida.

Expliquei a Rita todas as artimanhas para se tornar uma cantora de igreja. Cante o que eles querem ouvir. Fale de sua vida de esbórnia e, depois, narre em suas músicas o caminho para sua salvação.

— Vou ganhar dinheiro?

— Sim. Irá.

Rita sorria. E eu admito nunca ter visto sorriso mais encantador.

Rita me visitou muitas noites após aquela noite. Sempre pintada e com o corpo leve de seus pileques santos. O tempo passou e as visitas diminuíram. Rita estava famosa. E narrava sua história em programas de tevê. Ela até me citou em uma entrevista, dizendo que, embora eu tenha agido feito satanás que devora rebanhos, ela sabia que O Senhor havia me usado para levá-la ao caminho de Jesus. Dela, guardo rancor algum. Consegui, através de meus conhecimentos no alto clero, continuar celebrando missas em uma cidade do interior. E, de vez em quando, ainda salvo moças da completa danação. Talvez eu seja santo. Ou apenas eu seja um homem bom.

01 maio 2014

danificada














Eu não sei o que quero dizer. Ou talvez eu saiba. Isto é meio abracadabra. Sem coração partido, aqui está o que não digo. Sem forma, sem preço. Mas com afeto. Talvez haja um pouco de paciência também. Sentada, equilibro pernas — uma de cada vez, para não sentir formigamentos. Eu uso desculpas como entrada. Sinto muito por não estar interessada, digo, em tom de recato, à moça que me ouve ao telefone. Cansada de pedir desculpas, ligo o som. Canto alto para espantar corujas. Já é tarde e meu sangue pulsa. Cansada de amar a mais. Penso que nem todo amor termina em alguma coisa. Alguns nem começam. E outros amores esperam na fila, loucos pela próxima sessão. Catei duas cartas antigas e as li solenemente. A pieguice grafada me fez rir. E eu me senti bem. Depois rasguei as cartas como quem se despede das cinzas de um parente. A deus, o pó. Acenei e tudo. Pedacinhos de papel voando pelos ares. Cena bonita de novela que só eu vi. Andei pela casa e contei quadrados no piso. Quarenta, de uma quina a outra. E contei azulejos na cozinha. Ao invés de ler, decidi rezar. Minha prece foi direcionada. E, após rezar, fiz o que não se deve fazer sozinha. Esta é a parte mais egoísta da vida. Prazer de única sílaba. Descobri que não tenho receita para dar certo. Porque, em meu inventário, quase sempre é o contrário. Um amigo me disse que só há uma coisa exata nesta vida: Matemática. Preciso de uma tabuada (urgente). Daí ele fez contas para exemplificar. Enquanto ele contava, eu olhava estrelas e pensava em escrever. Mas é claro que eu não escreveria isto. Eu escreveria qualquer coisa. Talvez eu inventasse rimas tolas. Mas isto é qualquer coisa. Estou apenas jogando uma palavra contra a outra. Numa batalha doida. Da vida, quero o prazer de estar encantada. Como as fadas. Mas espere: eu nasci danificada. Tudo o que vejo é matemática em minhas contas tão ingênuas e enigmáticas.