19 dezembro 2013

o pedigree das vaidades











Algumas verdades
Já nascem mentirosas.

(Flora Conduta)






Até para canalhice é preciso ter pedigree, meu caro. Pedigree e elegância. Ela disse isto e levantou-se da cama. A tarde fervia entre carros, passos velozes de pessoas, e pássaros que se recolhiam a fim de encontrarem descanso nas copas das árvores. Era fim de tarde e o sol ainda se exaltava e mostrava seus raios calorosos. O que quer dizer com pedigree? Ele a interrogou mesmo sabendo ela iria deslizar entre palavras e explicações até que ele se cansasse e desistisse de fazer perguntas. Ela acendeu o último cigarro de cravo (presente de um amigo que a visitara pela manhã). Pedigree representa nossa raça. Nosso sangue. Nossa origem. A casta da qual herdamos nosso comportamento. Neste caso, o seu comportamento. Se você optou por ser o canalha que é, deveria agir de acordo. Seja como os cães de raça que se exibem em um torneio de adestramento. Seja fiel ao que tenta ser. Não seja somente isto. Não seja somente este homem limitado, de palavras poucas e cansativas. Seja maior. Já que escolheu a canalhice como padrão de vida, seja digno dela. Sou canalha? Mas é claro que você é canalha. Eu não estaria ao seu lado se você não fosse um canalha. E por que escolhe canalhas? Ela riu, fumando cravo e respirando o adocicado da fumaça. Eu não escolho. Eu engulo. Escolher é algo que satisfaz a mente dos duvidosos. Eu, como não tenho dúvida alguma dos homens com quem quero estar, percebo um canalha, me aproximo e faço o que tenho de fazer. Lembra-se de quando nos conhecemos? Ele ainda perguntava. Ela respirava, tentando deixar transparecer seu cansaço ao dizer algo que, para ela, era tão óbvio quanto os pés que ela observava. Veja meus pés. São tortos. Pequenos demais e tortos. Você está fugindo do assunto? Eu não estou fugindo do assunto. Estou apenas me desviando do caminho. Você sabe que me lembro do dia em que nos conhecemos. Você estava bonita. E disse que me amava em nossa primeira noite. Eu digo que amo todo mundo, meu senhor. Sorriram. Risos cúmplices. Criminosos da mesma arte. Mas foi diferente a forma como você disse me amar. Diferente? Ela ergueu uma das sobrancelhas e deitou-se ao lado do homem. Não sei explicar. Mas você foi meiga comigo. Me disse de seu amor com tanta força. Eu acreditei. Acreditou? Claro que acreditei. Embora eu não precise de seu amor para estar aqui. Você não precisa de meu amor? Não. Preciso de nada. Quero apenas o seu corpo. Você sabe que tenho outras mulheres. Por favor, guarde suas histórias para outros ouvidos. Fora deste quarto você pode estar com quem quiser. Mas aqui, deitado em minha cama, seja somente meu. Quer que eu minta? Não é mentir, senhor. É ser elegante. É a respeito deste comportamento que eu falo. Seja gentil comigo e terá uma mulher gentil com você. Uma mulher intacta. De seu amor só. Mas isto seria mentira e muita canalhice. Se eu mentisse... Ela o interrompeu. Todos nós mentimos. As ruas estão cheias de mentirosos. O tempo mente. Poemas mentem. Não busco verdades, senhor. Eu busco mentiras bem articuladas. Mentiras harmoniosas. Mentiras que me façam viver. Mas eu não minto o tempo todo. Ele disse isto, olhando nos olhos da mulher que o olhava. Ela sorriu novamente. Você mente. E tão mal que se convence. É sua canalhice falha que o faz igual a tantos. E como seria esta canalhice diferente? Eu ainda não sei. Mas é isto que estou tentando encontrar desde que nos conhecemos. Você também é canalha? Ele estava ansioso à espera da resposta. Um segundo após, ela o beijou e disse que o amava. E sorriu, fazendo com que o homem se sentisse único naquele quarto aberto para o mundo. Depois se beijaram de novo e o fim de tarde tornou-se, hora após hora, o excesso mais perfeito de suas vaidades. Corpos não mentem quando as bocas decidem calar as verdades.













12 dezembro 2013

há diversas quadras








dragões alados



O amor encosta-se em mim e me observa calado. Nada me interroga. Seu peso é como o peso de centenas de dragões alados, planetas insondáveis e naves que mergulham em outras gravidades. O senhor das tranquilidades me devora em mansidão. E não amola a palavra fazendo-se de rogado para que seja vulgar como aposta que se faz entre cavalos. Corre solto o amor que me perverte. Este amor que é meu jardim de frutos amadurecidos e, de tão vividos, já se formam construídos em ninhos. Se me questiono a respeito do que seria de meus dias sem este amor que nunca acontece na presença de olhares vivos, eu mesma respondo, senhora de uma única sabedoria, que de mim seria o mesmo que me acomete na presença de olhares críticos. Amor que sinto é segredo meu e nunca será dito. Em público, eu o silencio. Mas, em meu silêncio, eu o denuncio. Pois de nós somente nós nos sabemos. Entre este amor e eu somente nós acontecemos.







sapatos brancos



Sabe-se lá o motivo, mas o homem passou a vida inteira calculando o alarde que sua morte causaria. Fez planos de como seria o dia de partir e deixar para trás suas quinquilharias. Fez partilha de bens para seus familiares, esperando que somente de suas riquezas pessoas falassem. E imaginou, de forma risonha, a reação de cada indivíduo que estivesse presente em sua partida. O homem ensaiou ritos, calculou volumes líquidos das lágrimas choradas e até a roupa que vestiria seu corpo estava entre seus arranjos: terno preto e sapatos brancos. O homem imaginou sua morte como um grande evento de uma vida inteira. Mas se esqueceu de um pequeno detalhe: ele, embora se colocasse como o centro das atenções, seria o convidado ausente de sua festa derradeira (até que se prove o contrário). Porque morto não fala, não sorri e nem debocha das desgraças. Morto é pedra inerte. Silêncio inteiro. Memória que ao tempo esgarça.







álibi



Rita comprou um relógio que, segundo o vendedor, trazia em si um mecanismo de alarme. Rita testou o aparelho, ficou contente com o resultado e foi para casa viver seus dias de esperar que o alarme falhasse para que ela tivesse, enfim, um álibi. Que o alarme fosse o único culpado de suas faltas, renúncias e descasos. Porém, quando a consciência lhe pesou nas costas, Rita quebrou o relógio em mil pedaços e decidiu provar que sua vida era somente por ela mesma corrompida e desgraçada. Rita deu risada. A culpa pesa menos quando se dá as caras.












24 novembro 2013

vias de fato

















Ontem, enquanto a manicure me fazia as unhas (coisa típica de mulherzinha), percebi uma mulher que estava no salão de beleza. Uma mulher aparentemente jovem. Uma mulher bonita. No entanto, algo em sua beleza estava corrompido. Era seu olhar que estava muito triste. Olheiras cercavam seus olhos. Sua boca estava curvada como se uma tristeza lhe tirasse o prazer de todo instante. E a mulher ostentava um enorme aparelho celular. Gigantesco. Uma tela imensa. Colorida. Em minha ignorância, eu acredito que se tratava de um iPhone. O aparelho emitia sons semelhantes ao tilintar de sinos. A cada aviso sonoro, a mulher se mantinha cada vez mais presa ao aparelho. Ora sorria, ora encrespava o corpo, como se estivesse chateada com algo. A mulher estava vivendo sua vida através daquele objeto de alta tecnologia. O meu celular, que não chega a ser um iPhone, estava em minha bolsa. Eu havia decidido não me distrair. Que o mundo fosse apenas aquele momento: a manicure e o fazer de unhas. Porém, aquela mulher ao meu lado me chamou muita atenção porque, de certa forma, eu me enxerguei em sua atitude e na maneira como ela se detinha àqueles sons e avisos de seu celular. Meu Deus, como ela estava viva dentro daquele aparelho. E, por fora, a mulher estava morta. Sem vida. Para ela o mundo era apenas aquilo: o celular. Percebi que estava usando o WhatsApp (mas o que é isto?). Sim. Eu também uso este aplicativo e muito me custa responder todas as mensagens. Muitas vezes eu procuro não ler para não ter a obrigação de responder. Porque, às vezes, eu não estou pronta para responder. Mas a mulher estava pronta. Assim como tantas outras pessoas estão prontas. Mas para quê? Nunca estivemos tão solitários, eu penso. Nunca, em séculos, estivemos tão unidos por redes de comunicação e, ao mesmo tempo, tão apartados. E nunca tivemos tamanha liberdade de nos exibir (tanto em aparência, como em sentimentos). Isto é perceptível em certa rede social. Que é vício, admito. Até para aqueles que mal publicam palavras, ela está lá. Nós a construímos e fazemos de tudo para que o outro nos veja. O outro é aquele a quem queremos dizer algo ou mostrar que nossas vidas são maravilhosas (ou não). Eu leio o que as pessoas escrevem e tento ser cuidadosa com o que escrevo. No entanto, a armadilha é muito mais esperta que a presa. Quando percebo, eu já publiquei, eu já me mostrei, eu já estou nua diante de quem quiser ler. Nua e solitária, derramando queixas, falando mal do tempo e chamando atenção. Mas por quê? Faço perguntas tolas e conheço as respostas. Nós estamos condicionados a esta solidão quadrada como se fossemos imagens em um porta-retratos. Vejo pessoas escreverem algo que jamais teriam coragem de fazer em vias de fato. Leio ofensas, indiretas, má-criações elegantes, declarações de amor, correntes de ajuda para os famintos, poemas e vejo tantas fotos. Para quem estamos nos expondo? Teremos nos tornado cães engaiolados à espera de alguém que nos compre? Com quem estamos falando? Quem é o interlocutor de toda esta loucura? Quem estará velando nossa solidão? Muitos dizem que isto é liberdade — escrever o que se quer ou publicar o que se tem vontade. Outros dizem que é preciso que isto seja feito. É preciso que se viva cada momento de catarse. A única opinião que tenho é a de que estamos mais solitários que nunca. Em nossas casas, em nossas festas, em meio a nossos amigos, nós estamos isolados e muito ocupados em exibir fotos e cauterizar o tempo com nossos risos falsos. Penso que esta é a minha catarse. Não mandei ninguém às favas, não falei mal do vizinho. No entanto, estou me expondo apenas para dizer que de nada vale o voo de um pássaro cuja liberdade fora engolida por um simples tocar de dedos em uma tela que exibe a vida de forma que nunca será. E todo este novelo me veio à boca quando, ao término de seu tratamento de unhas, a bela mulher (aquela do olhar triste e iPhone em mãos), pediu à manicure que a fotografasse, de esmalte e batom, para publicação no Instagram. A mulher finalmente sorriu. Suas mãos seriam vistas por dezenas de pessoas que também querem ser vistas e curtidas e comentadas por outras dezenas de pessoas. E eu nada posso dizer contra isto. Pois, eu também faço parte do bando de pássaros cuja liberdade é escrava da memória ilustrada em filtros coloridos. Nunca nossa vida fora tão exposta. Nunca fomos tão vistos. E nunca estivemos tão solitários. É isto. 















19 novembro 2013

tiros de festim







Você sabe o que sente? Sei, Lívia respondeu, tão esperta quanto uma tartaruga perseguindo lesmas. O dia estava calmo. Calmaria de fim de inverno. Ou seria outono? Eu nunca sei, falou a mulher. Estou sempre sob o efeito de algum remédio. Talvez seja seu veneno, Augusto respondeu enquanto olhava pela janela. É preciso que alguém olhe para fora quando a atmosfera nos prende. Augusto fumava um charuto como se fosse um homem muito importante. Lívia o deixou sozinho, na sala, montando seus ataques. Homens estão sempre montando jogos de memória e, na maior parte das vezes, possuem artilharia fraca. Tiros de festim. E, muito embora o tivesse deixado sozinho, tão pensativo naquele fim de tarde, Lívia estava fixada nele e, por saber que ele a investigaria, querendo saber o que ela lia, largou no sofá o livro que estava marcado na página cujo conteúdo era atrevido demais para Augusto que se trancava em sua moderna mania de acreditar que dominava tudo. Lívia deixou a porta entreaberta e flagrou Augusto olhando pela fresta. Ele falou em voz alta: Iremos ao cinema? Não sei, disse Lívia. Você nunca responde de forma exata. Você nunca está certa a respeito de nada, Lívia? Estou. Quase sempre. Porém, Augusto, minha certeza prefere a dúvida e o silêncio que atormenta toda mente que acredita estar em total controle de consciência. Ele sorriu. Augusto se aproximou do sofá e apanhou o livro. Ainda está a ler isto, Lívia? Sim. Eu retomei a leitura. Para quê? Para retomar. Para entender mais. Para ler de verdade. Não basta uma leitura? Augusto, você se satisfaz com um beijo apenas? Silêncio. Ele agia como se ela soubesse de nada. Embora estivesse certo de que ela sabia de tudo. Quando estará livre para irmos ao museu? Você sabe o quanto me custa ir a lugares públicos. Iremos jantar. Não basta, Augusto? Se isto é o suficiente para você, minha querida, eu a deixo decidir. Então, eu decido pelo jantar. E não convide estranhos. Lívia, ao ordenar isto a Augusto, parou o que estava fazendo. Parou de maquiar-se e olhou-se bem no espelho. Não convide estranhos? Aquela sentença a atormentou de tal forma que sua mente não conseguia parar de processar a palavra “estranhos”. Por que a teria usado? Quem eram os tais estranhos que ela acabara de mencionar? Seus amigos? Os amigos de Augusto? Alguns poucos conhecidos do trabalho? A quem ela se referia? Augusto continuava a falar. Da sala, sua voz parecia um som submarino guardado dentro de uma concha há séculos de distância de Lívia. Ela não o ouvia. Nada era audível. Estranhos, Augusto. Estou pensando nos estranhos. A voz não lhe saía da boca. Estava presa entre os dentes e o pó de arroz que lhe contornava a face. Sempre tivera em si esta maldita vontade de se encolher e, quanto mais se encolhia, mais era vista. Por que é tão difícil desaparecer? A noite chegara finalmente e Lívia estava parada na frente do espelho que refletia sua dúvida. A resposta lhe veio como surgem os pássaros desordeiros da manhã. Pássaros abruptos. Tudo era estranho. Desde seu nascimento até aquele momento, todos eram estranhos. Lívia nunca fez questão de conhecer o conteúdo superficial dos eventos de sua vida. Passara anos recusando-se a ver o que estava a sua frente. Passara décadas maquiando o rosto para que até ela lhe parecesse comum, quando, na verdade, Lívia também era estranha. Assim como Augusto, que surgira em sua vida nos tempos da faculdade, um jovem cheio de energia e idealismo cego, o advogado que um dia lhe condenaria ao maior calabouço de todos: o casamento. Lívia soube que Augusto era um estranho. O que ela sabia de verdade a respeito do marido? Nada. Apenas seguia calendários e deixava que a vida ocorresse sem maiores expectativas. Lívia nada decidia porque era exatamente assim que fora impelida a viver. Por si mesma. Uma enguia que se curva diante das pedras e dos obstáculos. Uma mulher maquiada de mentiras. Uma face em um espelho que apenas, naquele momento, soubera que estanhas eram todas as camadas de sua vida. Desde as mais externas as mais profundas superfícies de tudo que já havia vivido. A vida era pele e Lívia nada sabia a respeito de si. Admirou-se por se ver no espelho e, por fim, aceitar que durante anos se negara a conhecer-se. Eu sou estranha. Ao deparar-se com sua nova realidade nítida, sua voz lhe escapara como um grito preso, no mesmo tempo submarino em que Augusto havia se perdido. Então ela disse: Iremos ao jantar, Augusto. E, por favor, convide nossos amigos.











18 novembro 2013

entre a agulha e os dedos












O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, ah, tão presa!
Esses mosquitos que não largam!
Minhas saudades ensurdecidas por cigarras!
O que faço aqui no campo declamando
aos metros versos longos e sentidos?
Ah, que estou sentida e portuguesa,
e agora não sou mais, veja, não sou mais severa e ríspida:
— agora sou profissional.


(Ana Cristina Cesar)








Estou com saudade. E não tenho para quem escrever isto. Ou dizer. Estou com saudade de você e não tenho a quem dizer. Isto sim é o fim da piada. Nem da picada seria. Eu poderia muito bem ligar para você e dizer que estou com saudade. Mas o que você iria pensar? Lá vem de novo aquela louca com aquelas manias. Eu também pensaria isto. Aliás, eu não sei o que eu pensaria. Eu não estou com vontade de me verificar. Não quero avaliar minhas atitudes. Eu só estou com saudade. Saudade do tipo que não desaparece. Já pensei em tentar conversar com alguém como converso com você. De início, caso eu o fizesse, já me ferraria porque eu começaria a conversa de forma torta, dizendo que me sinto maluca. E, obviamente, a pessoa (a tal que eu arrumaria para fazer o seu papel) iria dar alguma resposta óbvia. Ou tentaria me acalmar com aquele papo de que estamos todos passando por um momento difícil. E eu me arrependeria por ter tentado fingir que era com você que eu conversava e não com aquela pessoa qualquer e opaca que não conseguiria me dizer nada além do que eu já sei. Estou com saudade como se fosse coisa de criança que só dorme em casa e chora quando precisa dormir na casa de algum parente. Acho que você me entende. É saudade. Um verbete. Uma palavra no dicionário. Uma distância enorme que nós inventamos por sermos fortes demais ou estúpidos o bastante.











15 novembro 2013

cativa










Na verdade eu não buscava amor. Eu só queria sexo. E como doía dizer tais palavras em público. Porque meninas não foram talhadas para este tipo de exposição. Meninas eram compostas naquele tempo. Frutas tolhidas no caldo. Elas apenas fingiam ser bem comportadas e permaneciam silenciadas. Mas, por trás do palco, a sacanagem comia solta. Era velho, padre, amigo de pai, pai de amiga; todo mundo passando a mão. Meninas como eu não podiam dizer a verdade. E por que devo dizer que hoje em dia isto mudou? Mudou nada. É apenas camuflagem e esta merda de liberdade cativa de opiniões.


(Flora Conduta)







Buscando diversão? Cuidado! Há gatos pardos que não valem o gasto. Quanto custa a dose de Martini? Não pergunte o preço. Engula rápido para não sentir o amargo. Na boca, o resquício. No corpo, mãos mentirosas cheias de experiência alguma. Equívocos são talentosos em causar estragos. Veloz passo o olhar pelo cardápio. Há cara de pau em morna brasa? Resposta negativa ressabiada que não entende. A preparação para o ato seguinte é sempre a esfíncter do suicídio. Contraindo músculos e mastigando orgulhos. Dois em um que não é chiclete antigo. Tire suas mãos de mim para não agradar de princípio. E, no princípio, o que realmente havia? Mesa com jarro florido, duas taças vazias e a aterrorizante memória de um beijo. Todo beijo é único, ele dizia. Mentia tão bem quanto comia suas mulas quadradas e bronzeadas do sol de todas as manhãs. Esperava que ele dissesse sim de forma breve. Como estúpidos que concordam de forma breve. Mas não. Demorava a concordar para ampliar o instante ou para se tornar importante. Pessoas buscam o silêncio para fugir de respostas óbvias. Nunca fiz perguntas óbvias. Eu preferia o silêncio das horas contadas em milímetros de gim. Tônica a palavra explodia à noite. Você não tem talento para mentir. Você tem todo talento para mim. Combinação sem ética ou estética. Está ficando cada vez mais complicado. E toda complicação pode ser erro de cálculo. Procurar verso em livro errado, tentar medir pulos dados, contar pedras minúsculas ao invés de enxergar o fluxo do asfalto. Depois do cansaço dos corpos falidos pelo orgasmo retardado e medido, a voz redigiu no vento: há dias em que o melhor a ser feito é se deixar reger pelo acaso ou deixar que a ânsia nos devore como a culpa devasta a vida do carrasco. 










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13 novembro 2013

manifestos










Qualquer semelhança
Com qualquer outra coisa
É pura indecência
Proposital
E lógica







Marialva decidiu fazer greve: nada de homem. Declarou. Tudo começou com uma brincadeira entre amigas. Elas falavam a respeito dos homens que são sacanas, na maioria das vezes. Na mesa de um café, na esquina de uma rua qualquer, se reuniam para contar coisas da vida de cada uma. Marialva contava seus casos, seus feitos, seus ganhos, suas brigas no trabalho, chatices do dia a dia. As outras, Ruth, Amélia, Dulce, Lígia, Vitória, Teresa e Vivi, também falavam de seus cotidianos eventos. Mas o assunto pungente, o dilacerante, a cereja no topo do bolo, era sempre HOMEM. Problemas com homens e relacionamentos. Foi daí que Marialva teve a brilhante ideia de evitar homens por algum tempo. E dizia as amigas: Vamos fazer isto e ver como eles reagem a nossa ausência. Vitória não gostou muito da ideia. Ela, que era tida como a mais tarada de todas, não passava sem homem. Precisava de homem. Vivia de homem. As outras concordaram sem reclamar. Decidiram fazer feito o jogo da pirâmide: cada uma delas iria persuadir três outras mulheres a fazerem o mesmo. E elas conseguiram. No início foi difícil. As casadas não queriam evitar seus maridos. As amancebadas não queriam largar seus mancebos. E as amantes não queriam largar seus homens. Porém, devido ao manifesto escrito pelo grupo de Marialva (Ruth, Amélia, Dulce, Lígia, Vitória, Teresa e Vivi), a coisa ficou mais fácil de ser entendida. No manifesto, que estava longe de ser um afeto feminista, elas execravam a atitude de alguns homens com relação às mulheres e concluíram que a culpa era delas. A culpa é nossa, dizia Marialva, com muita convicção. A culpa é nossa, pois nós os enchemos de vícios, de vontades, somos mães de meninos malcriados, alimentamos os monstros que agora nos engolem. As outras sempre concordavam com Marialva, embora a considerassem um tanto traumatizada e lunática. Mas eram amigas e amigas aguentam as loucuras umas das outras. Então, fora decidido, a partir daquele dia, evitar qualquer contato afetivo-físico-amoroso com qualquer homem que fosse. Maridos se enfezaram com suas mulheres e buscaram outras que, por sua vez, também haviam aderido ao movimento. Os homens, enfim, se viram em uma situação delicada: todas as mulheres da cidade e de outras cidades e de muitas outras cidades estavam fechadas para qualquer relacionamento com homens por tempo indeterminado. No manifesto estava claro: só abririam o cerco quando os homens começassem a agir da forma determinada pelos termos de número 10, 11 e 12. Tais termos determinavam como uma lei que cada homem deveria rever suas atitudes perante as mulheres. Nada de sacanagem, nada de futebol no fim de semana, nada de reunião de amigos, nada de fornicação fora de casa e(ou) fora do relacionamento. Os termos, após muito debate dos cidadãos da cidade e de outras cidades e do mundo inteiro, finalmente foram aceitos. Logo, todos os homens estavam agindo feito cordeirinhos. Eles passaram a andar na linha, não sacaneavam e não mentiam. Ou seja, era o mundo perfeito para a mulherada que andava tão decepcionada com a raça Homem. Mas toda ditadura (que era exatamente isto que o manifesto representava) tem suas rachaduras. Em uma reunião entre as mulheres, Marialva percebeu que suas amigas e fundadoras do movimento Evite Seu Homem (Ruth, Amélia, Dulce, Lígia, Vitória, Teresa e Vivi) estavam cabisbaixas e estranhas. Ao começar a reunião, Marialva questionou as amigas, que logo soltaram o verbo: Roberto parece um cachorro treinado. Ele faz tudo que eu peço. Leonardo está chato. Vive no meu pé e nunca mais saiu de casa. Eduardo parece uma lesma grudada em mim. Todas choramingavam e Marialva percebeu que todas apresentavam as mesmas reclamações. E, ela mesma, que andava as voltas com um tal senhor casado, não aguentava mais a ausência do homem que, por causa do manifesto, a largou. Acho que nós erramos, declarou Marialva. Conversa vai, conversa vem, decidiram afrouxar as rédeas e refazer o manifesto, declarando que os planos estavam falhos e precisavam de revisão. Logo, todas as mulheres da cidade e de outras cidades e de muitas cidades, se alegraram com o fim da ditadura contra homens e não perderam tempo para contar a seus companheiros que tudo havia acabado. As mulheres declararam a seus homens que eles estavam livres dos termos de comportamento. Porém, entretanto, minha nossa senhora, os homens não quiseram voltar a ser da forma como eram (antes do manifesto). Os homens se viram felizes agindo de acordo com os termos e, desta forma, trataram de criar um manifesto que proibisse a quebra do outro manifesto. Os termos e as leis seriam mantidos. E, graças a Marialva e suas amigas (Ruth, Amélia, Dulce, Lígia, Vitória, Teresa e Vivi), os homens do mundo inteiro continuaram agindo como ditavam as regras criadas por elas. E nada mais poderia ser feito. Como antes, as amigas voltaram a se encontrar no café, na mesma esquina de sempre, trazendo à tona suas reclamações diárias. Seus homens agora não passavam de marionetes sem graça. Marialva não concordou. Ela dizia as amigas: Nós criamos o manifesto. A culpa é nossa. Nós os deixamos como estão, obedientes, chatos, fieis e caseiros. Vamos reverter o quadro. Logo, as amigas criaram outro manifesto que fora rapidamente vetado pelos homens que estavam felizes, obedientes, risonhos e, sentiam-se, novamente, a cereja no topo do bolo. Outros manifestos vieram, mas tudo acabava em vão. As coisas estavam em seu devido lugar. No fim das contas, Marialva ficou sozinha, Ruth se matou, Amélia engravidou, Dulce sumiu do mapa, Lígia ficou noiva, Vitória aceitou ser monogâmica, Teresa renovou os votos de matrimônio e Vivi se conformou.












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04 novembro 2013

diário bordô








— Outro livro, Letícia?

— Não é outro livro.

— Então o que é isto?

— É continuidade, pensamento, palavra acumulada.

— Ou seja: é outro livro.

— Sim. Se esta resposta basta, então, é.

— O quê?

— Isto.



Não sei me propagar. Então deixo as palavras nas mãos do Eder Asa, amigo e cúmplice de crimes bárbaros e literários. Deixo que ele diga o que eu não me atrevo. Para saber mais a respeito, clique na imagem da capa.


Diário Bordô e outras pequenas vastidões é o terceiro livro que me arrisco a escrever. É um livro feito disto e daquilo e não o classifico. Prefiro deixar que ele seja lido.

Aos leitores do afeto literário, digo:

Obrigada por tudo.

Logo disponibilizarei formas de compra deste produto (sim, livro é produto). E escrever é uma das mais belas formas de vida na qual eu acredito.



Lançamento previsto para 29 de novembro de 2013.
João Pessoa.
Brasil.







Livro publicado pela Editora Multifoco.
Novembro de 2013.




02 novembro 2013

roupeiro de memórias












Amo-te tanto que poderia te matar. Mas evito a vontade. Ainda não estou pronta para o hospício. E meu amor passa. Assim como a febre em fim de tarde. Ele surge, assume o risco, caminha na beira do abismo e foge sorrindo. Meu amor não tem coragem.





Observo você, soldado íntimo. O último gerânio da estação de espinhos. O claustro que esqueceu a ordem das missas, o brinquedo quebrado nas mãos das meninas, o homem que jamais teria sido menino. Observo você à distância para que meu salto não lhe cause medo ou qualquer inútil esperança, pois meu amor não é para vingar. Ele ruge dentro de mim como o susto na hora última antes da noite apagar-se em sol e claridade. Observo você, aquele que não posso tocar porque eu não me permito. Há tempos retenho amor inteiro para neste momento dizê-lo verdadeiro. Porém, minha língua é rude, de flâmula lírica, mentirosa e cínica, meu amor não quer se dar. Por hora guardo o sentimento que é estrangeiro em meu antigo roupeiro de memórias e ao lado dele está o que de nós jamais acontecerá. Todo amor ocorrido vive o risco humano de se tornar vulgar. Meu amor está silenciado e omisso, de covardia tingido, e nada prometo a respeito disto: meu amor é feito de egoísmo. Por isto observo o soldado íntimo que, nas mãos das meninas, jamais teria se tornado o que por mim agora é visto.











26 outubro 2013

belas garotas em calcinhas de renda















A liberdade está de óculos escuros para não tomar susto ao perceber que tudo está despido. A laranja sem casca, o homem sem casa e o tempo entregue ao deus dará. Há dias sinto dores no peito. Penso que devo estar infartando. Morrendo para viver de novo. Mas será que alguém infarta por dias? Será que a coisa não pode acontecer veloz, assim, num piscar dos olhos que exibem a retina? Boa tarde, então. Ou boa noite. Ele diz boa noite ao telefone e sai para comer garotas rotas e burras que vestem calcinhas de renda. Bukowski que não me ouça. E não há por onde começar. Porque não há muito a se dizer. Ou haverá? O mal da gente é achar que outra gente está sempre falando da gente quando, na verdade, tudo é nada com nada. Ouço conversas direcionadas a mim e percebo que, embora algo esteja sendo dito, o interlocutor não está falando comigo. Ele sempre fala para si mesmo. O interlocutor conversa comigo, mas não conversa para mim. Eu escuto porque sou boa ouvinte. Aprendi, aos tempos de silêncio, que ficar de boca fechada é proteção maior do que andar armada. Mãos ao alto e permanecerá intacta a veste do orgulho maior. Orgulho besta de mula rastejar. Ontem, no salão de beleza, que exibe a feiura terna das mulheres burras, percebi que os aparelhos de celular mudaram. E isto já faz séculos. Mas apenas ontem percebi. No início eles eram enormes, depois se tornaram minúsculos, agora cresceram e logo tudo mais explodirá. Será que alguém pode pressionar o botão Stop? Porque esta evolução atrasada me irrita mais do que ouvir vibrato de cantor que tenta se americanizar. Evoluímos no Brasil. Mas onde? Um italiano com quem trabalho me disse perceber que o Brasil o faz lembrar algum país comunista. Ele disse perceber isto ao ver um homem vendendo gelo em uma padaria. Na Europa, há tempos, (50 anos atrás) já havia máquinas de gelo em estabelecimentos comerciais. Aqui, nas terras do pau que nos pariu, gelo em cubos é coisa para ricos que compram geladeiras imensas que passam dias vazias. Veja nossa evolução raquítica. E logo você se arruma, sai, perambula, toma uma ou duas doses de álcool e esquece que terá de voltar para o seu lar doce lar, retumbante e triunfante, o quadrúpede que vive atrasado em séculos de um tempo que nada nos traz de singular. 













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25 outubro 2013

de formigas e elefantes









Mas onde estarão os elefantes?
Estou certa de que talvez tenham perdido a memória
E caminham em filas
Refazendo histórias

(fábulas)






Desastre do dia: unha quebrada. E as formigas são muito democráticas. Elas carregam comida, dia após dia, e se enfurnam quando chove. Isto não nos ocorre. É exatamente quando chove que saímos em batalhões para cumprir o dever. Dever que não é de casa. Acabou a idade de brincar de ser menino e menina. Agora somos todos grandes. Embora alguns não tenham se tornado grandes em maturidade e caráter, não há mais crianças aqui. Não engulo a história de ser criança em espírito. Muitos dizem isto: tenho alma de criança. E eu digo: procure um médico. Ou esqueça sua crença. Busque outra. Adore outros deuses ou demônios. Se reconheça crescido e talvez estúpido ou talvez cupido. O salário cai na conta. O salário desaparece. E isto nada tem a ver com mágica. É capitalismo que não rima com igualdade ou poesia ou fim de tarde. Estamos capitalistas até em nossas vontades. Compramos o amor ao nos submeter as vontades que são alheias. Compramos amizades com pequenos afagos contrários de sinceridade. E calamos a boca quando é preciso falar que a culpa é nossa e que deus nos ajude em nossos julgamentos. É assim que vivemos. Jogo de olho por olho, um grande tabuleiro e peças que se movem justapostas ao vento. 












20 outubro 2013

o cara da Lucélia
















Ela se ergueu. Era a estátua da liberdade. Só que sem liberdade alguma. Vestia jeans. E calçava salto alto agulha que perfura olho. Bateu com as mãos na mesa. Bem assim, sem elegância. Batom borrado de beijo nenhum e cara maltratada de pé na bunda. Gritou com o garçom. Gritou com todo mundo. Pare esta merda de música! Toda gente se encolheu na mesa. Vergonha é carregar bêbada, pensei. E lá se foi a mulher ao palco. Uma palhaça encharcada de vodca. Bateu no microfone. Tum. Tum. Tum. O incrível foi ter visto que ninguém a deteve. Ela se instalou no palco, sentou em um banquinho e berrou: Cale a boca todo mundo porque eu vou falar de homem. E o pior é que todo mundo calou a boca (mesmo). O silêncio só fora preenchido pelo tilintar de copos e alguns sussurros vindos do balcão. Lucélia estava louca. Daí começou. Homem é tudo igual? Que vocês acham? É tudo artigo da mesma loja? Papo cansativo, Lucélia, pensei. Cale a boca, ela gritava. A echarpe cor de rosa mulherzinha pendia torto em seu corpo. Eu vou falar do meu homem. Ele é um traste. E ria a Lucélia. Filho da mãe que o pariu. Não digo palavrão com mãe porque não gosto. Mas vou usar palavrão pra falar daquele porra. Homem fresco. Sabe qual foi a última dele? Tá doentinho dos nervos, estressado, precisando de tempo para pensar. Pensar em quê, seu merda? Eu vivo estressada e não paro pra pensar. Eu não tenho tempo pra pensar, seu idiota. O ar ficou pesado, embora alguns ainda se atrevessem a rir da performance de Lucélia. Daí que ele me liga às duas da tarde: só liguei para saber se você está bem. Como assim só ligou pra saber se estou bem? Que merda é esta? Não preciso de ninguém me ligando pra saber se estou bem. Eu preciso é de você, seu louco. Homem é tudo merda. O que faz com que um cara pense que mulher precisa de ligação que traga conforto? Conforto eu tenho é do meu travesseiro. E mais. Você é dramático. Todo homem é. Será que é culpa das mãezinhas que mal cuidaram deles? Espera. Espera. Não posso falar das mães porque sou mulher. Eu sou mulher. E bato no peito. O cara vem de conversa durante um mês. Aí marca encontro. Aí me convida pra um café. E lá vou eu, a tonta. Do café, a gente passou ao beijo na boca e, do beijo na boca, preciso dizer? O cara se enfurnou em minha casa. Até escova de dente levou. E eu lá, aguentando merda. Digo uma coisa: homem que leva escova de dente não presta. O melhor homem é aquele que usa a escova da gente, entende? Sem frescura. Odeio frescura. A gente se vicia nessa coisa de ficar junto. Eu me viciei. Mas poxa, tinha de ser por uma porra de homem tão complicado? No começo ele era tudo. Todo certo. A gente não parava de se amar. Daí começou a complicar quando ele passou a receber telefonema da família. Todo dia era um problema. E ainda me pedia: posso atender ao telefone lá fora? Comecei a ficar puta. Olhe aqui, homem que não compartilha da vida, não merece cama, filha. Tá ouvindo? Ele passou a dar uma de complicado. Com aquele blablablá típico: porque eu já fui casado (nunca te disse?) e a minha ex é um tanto vingativa, me distancia das crianças (mas você tem filhos?) e eu ando meio confuso. Foi aí que eu disse: pare o mundo. Como fui me envolver com esta coisa atrofiada por um casamento e ainda com papo de estar confuso? O cara tem 40 anos, gente. O cara passou dos trinta e se sente confuso? Alguém me explique, faz favor. E não é porque estou de pileque, não. É revolta suffragette. Eu quero meu direito de volta. Não sei do que estou falando, mas estou. Depois de dizer que estava confuso, ele veio dizer que esperava minha compreensão. Ô, seu filho da mãe, não sou psiquiatra. Quer compreensão, procure uma freira, um monge, um terapeuta. Procure alguém que minta. Eu não sei compreender confusão porque comigo é tudo simples. Preto no branco. Ou é ou não é. E o cara saiu de casa. Ontem. Saiu ontem. Me pediu pra ouvir a nossa música. Dire Straits (tunnel of love). Vou ouvir porra nenhuma. Vou quebrar aquela porra de pen drive. Vou apagar tudo. Silêncio. Alguém se aproxima da Lucélia. Este alguém sou eu. Lucélia, desça já daí. Você está se passando. Me passando?, ela gritou. Você não sabe de nada. Eu me passei hoje. O dia inteiro ligando e ligando e pedindo perdão por algo que nem fiz. Eu me passei hoje. Fiz papel de idiota. Por isso vou encher a cara e quem quiser que me aguente. Lucélia, o segurança vai te botar pra fora. Segurança? Pois que ele venha. Me bote pra fora, segurança. Quero só ver se este segurança tem atitude. Não conheço nenhum homem que tenha atitude. E ela falava assim, tudo muito alto, estridente. Muito bêbada. Não aguentei a cena e liguei para o tal cara-motivo. Vasculhei a bolsa da Lucélia e peguei o celular dela. Procurei algum rastro do cara. Nem o nome eu sabia. Mas achei. Muitas mensagens enviadas a um tal de Amor. Amor, Lucélia? Que clichê! A Lucélia surtou. Liguei. Oi. Você pode vir aqui? Tá, você não me conhece. Sou amiga da Lucélia. Estamos no pub 22. Te agradeço. Lucélia continuava a berrar e eu pedi um tempo ao segurança, dizendo que a ajuda já estava a caminho. E havia gente aplaudindo, gente rindo, mulher concordando, homem bancando a bravata. O bar era o caos. Tudo por causa do cara da Lucélia. E o celular toca. Onde você está? Estou ao lado do palco. Não vê a Lucélia? E daí que vejo uma sombra se aproximando, se formando no meio das vozes e cores, e dando as caras. Ivan? Marília? Não sabia que vocês eram amigas. Entrei em choque. Então você é o cara da Lucélia? Deixa eu te explicar, Marília. Fiquei tonta, roxa, sem ar. Tudo me faltava. Olhei bem na cara do Ivan e não me detive: Subi no palco. E logo éramos eu e a Lucélia falando mal do cara da gente. E bebendo e recebendo aplauso. Não me lembro de como terminei a noite. Mas de dia, de ressaca, me deparei com as malas do Ivan na porta de casa. Deitada estava, deitada permaneci. Amor é palhaçada. Entendi. 

19 outubro 2013

o ser da casa










Tenho dores ancestrais e meus ardores migram de um extremo a outro de meu corpo que é vasto. Doente de minhas ausências, eu causo incoerência aos conhecidos e, aos desconhecidos, desinibido se expande meu mistério. O segredo de meus demônios somente aos estranhos eu os entrego.


(castidade)







Mesa de jantar. Cesto que enfeita a madeira rústica. Porcelana e palha cobrem a mesa que oferta nada. Sentadas no sofá, almofadas. Talvez conversem. Mas a respeito de quê elas falam? A luminária apagada indica que a luz do dia existe para que nada de artifício a sacrifique. No varal, toalhas e lençóis recebem o vento de bom grado. O pão fatiado, não mordido, ainda quente, recebe olhares de fastio. A geladeira aguenta o vinho aberto, envelhecido, vinagre de ninguém beber. Armários escondem talheres e floridos copos descartáveis acaso haja festa, embora celebrar nunca seja preciso. Há tantos motivos. Papéis de presente guardados para embrulhar lembranças aos que aniversariam, sobre a escrivaninha há cartas escritas endereçadas aos que não usam palavras, nem caras, nem servem de visita. O amor dorme no sepulcro interior da morada. Janelas cortam o cenário. Muro pela metade, flores enquadradas, brisa entrecortada. A porta arregala os olhos para expiar o que há fora deste santuário de silêncios plenos e uterinos. Casa e mãe se formam e o ser caminha em antiga cerâmica, busca afazeres, canta em voz alta, dança o corpo em movimentos etéreos de tão celestiais. A cama, ornada por bela colcha, atrai o ser para o sono de esquecer tempos. Mas há relógios que lembram. Há planos que falham. Há vozes que exigem. Há obrigações que rugem. Há tudo na casa que montamos. Com nossas próprias mãos nos aprisionamos. E sorrimos ao rever as fotos. O álbum, amarelado e antigo, está sempre aberto no sorriso mais desbotado, embora colorido. Toda casa protege o ser mais perigoso que existe: a embrionária fome de alimentar resquícios. 










14 outubro 2013

o telefonema









Alô! É Deus? Ele pode atender? Não, não é urgente. Só quero mesmo fazer uma pergunta. Se você pode resolver? Olha, mas é só com Ele mesmo. Pode ser? Não me incomodo não. Fico na espera. Cadê a lista? Onde coloquei a lista? O rapaz procura no bolso a lista enorme de perguntas. Onde coloquei a lista? Alô! Deus? Pois não? Você é Deus? Sou eu. Pode falar. Poxa, que alívio! Pensei que Você não iria atender. Aliás, desculpe. Pensei que o Senhor não iria atender. Mas por que pensou isso? Porque você é Deus e já ouvi dizer que Você vive ocupado. Perdão, o Senhor. Não precisa pedir perdão. Mas é porque o Senhor é o Senhor. Não posso chamar o Senhor de você. Ou posso? E por que não? Porque está em todos os lugares que o Senhor é o Senhor e não um simples você. Mas eu sou eu, deus disse. Eu sei que você é você. Aliás, o Senhor é você. Posso tirar uma dúvida, então? Claro que sim. Eu posso parar de usar letra maiúscula quando me refiro ao Senhor, aliás, você? Porque até no meu pensamento eu sempre me refiro a você em letra maiúscula. Isto complica tudo pra mim, entende? Mas por que usar maiúscula? Quem falou pra você essa coisa de letra maiúscula? Bem, acho que está na Bíblia, que também se escreve com maiúscula. Na bíblia? É. E os padres também dizem. E os pastores. Minha mãe, que é muito devota do senhor, sempre me corrige quando escrevo deus em minúsculas. Bem, meu filho, isto é questão de escolha. Se você quiser usar maiúscula, pode usar. Se quiser usar minúscula, fique a vontade. Isto tem a ver com o livre arbítrio? Não. Nada tem a ver com o livre arbítrio. É só questão linguística mesmo, disse deus, explicando ao rapaz que não fazia diferença a 'minusculização' ou 'maiusculização' dos nomes. É tudo questão da vontade de quem fala, meu rapaz. Ótimo. Então posso chamar você de você? Pode sim. Faça como quiser. Mas e o pecado? Esta questão de eu fazer o que eu quiser tem a ver com algum pecado? Pecado? Claro que não. Isto tem a ver com liberdade de escolha que, inclusive, não é pecado. Então é livre arbítrio, deus? Menino, por que você fala tanto em livre arbítrio? Porque me disseram que ele existe, deus. Toda hora dizem isso. Livre arbítrio isto, livre arbítrio aquilo. Entende? Deus apenas balbuciou um sim como se já estivesse cansado do assunto. Estou incomodando, deus? Ainda não, meu filho. Pode falar. Aliás, por que me telefonou mesmo? Porque tanta gente diz que consegue falar com o senhor (você) que peguei o telefone e decidi ligar. Não. Estou mentindo. Há tempos penso em ligar. E fiz até uma lista de perguntas, mas eu perdi a lista. Eu pensei que tivesse colocado no bolso, mas não está. E não me lembro de todas as perguntas. Não consegue se lembrar de nenhuma pergunta?, deus indagou. Lembro vagamente. Mas a principal era a respeito dos pecados. Que há com os pecados? Não sei. Todos falam que tudo é pecado. Ou quase tudo. Me diga, rapaz (falou deus de forma muito paciente), o que é pecado para você? Eu não sei. Por isso eu liguei. Bobagem, né? Pecado é tão óbvio, disse o rapaz, magricela e de cara rosada. Pecado é tudo que é errado. Eu não diria isto, falou deus. E o que você diria? Bem, eu diria que aumentaram um pouco a história. A bíblia está errada, deus? Não, não está errada. Mas não está completamente certa. Como assim? É uma parábola? Não, rapaz, nada de parábola. E por falar em parábola, eu nunca mais usei esta palavra. As pessoas ainda usam muito? Você não sabe, deus? Claro que não. Mas dizem que o senhor sabe de tudo. Menino, eu até poderia saber de tudo, mas já passei desta fase. Hoje peço apenas um boletim diário ou semanal. Quer dizer que o senhor não fica perto das pessoas o tempo todo? Bem, se eu ficasse ao lado das pessoas o tempo todo, como elas iriam viver? Isto seria invasão de privacidade, não acha? E deus continuou. Eu não posso interferir. Então é livre arbítrio. Homem, largue dessa história de livre arbítrio. É só a vida mesmo. É liberdade. Eu, embora seja dito como o criador de tudo e onipotente e tudo mais, também tenho minha vida. O senhor tem vida? Mas é claro. Tenho minhas coisas a fazer. Um exemplo disso é que agora tenho uma reunião com alguns amigos e estou aqui com você ao telefone. O senhor tem amigos? Eu tenho sim. Por quê? Você não tem amigos, rapaz? Bem, eu tenho. Mas eu sou normal. Sou apenas um cara qualquer. Você não. Você é deus. E ser deus faz de mim um ser solitário e sem amigos? Não acha que isto seria ruim para mim, viver isolado, sem ninguém pra conversar? Mas Jesus não está ao seu lado? Jesus aparece de vez em quando. Mas ele tem coisas a fazer também. Eu não me intrometo na vida dele. Cada qual, cada qual. Entende, rapaz? Mas me disseram que ele estava sempre ao seu lado. Quem disse isto? Todo mundo, oras. Me diga uma coisa, rapaz, você aguentaria alguém ao seu lado o dia inteiro? E você seguiria alguém o tempo todo? Isto é perseguição. Que estranho, deus. Sinto como se tudo que sei ao seu respeito estivesse errado. Eu não diria que está errado. Diria apenas que me distanciaram da realidade. Que realidade? Humana, oras. Se muitos insistem em dizer que fiz todo mundo minha imagem e semelhança, por que me colocam como se eu fosse um senhor em letra maiúscula, vingativo e severo? Nesta você me pegou, deus. Vou precisar pensar a respeito pra responder esta. Então pense, rapaz. Pense e, quando me ligar de novo, me diga. Fiquei curioso. Mas o senhor não pode ler a mente das pessoas e descobrir o motivo? Ler a mente? Que acha que sou? Um mágico? Um telepata vidente? E mais, eu não gosto de invadir a privacidade de ninguém. Eu já disse e repito. Eu nem penso em ler mentes. Poxa, pensei que o senhor lesse. Não leio não. Olha só, agora preciso ir. Estão me chamando. Conseguiu se lembrar de alguma pergunta da lista que fez? Não, senhor. Não me lembrei de nada. A conversa fluiu tão bem. Ótimo. Fico feliz. Então você pesquise para mim essa questão de todo mundo me considerar severo, ok? Isto me chateia muito. É falso testemunho, deus? Pare de usar linguagem sacra, rapaz. Bem, tenho mesmo que ir. Diga a todos que não sou nada disso. Vou tentar dizer, deus, mas acho que não irão acreditar. É este o problema, meu filho, o acreditar. Pessoas acreditam no que precisam acreditar. Daí elas criam histórias e passam de geração a geração. Este erro eu não posso reparar mesmo. Já cansei de tentar mostrar o caminho. E você sabe como são os homens e as mulheres. Eles, quando querem algo, vão até o fim querendo. Bonito isso, deus. Vou anotar. Anote, rapaz. Agora preciso desligar. Ligue novamente semana que vem. E ligue a cobrar, okay? Okay, deus. Você é muito gente boa. Mas é claro que sou. Disto muito me orgulho. Mas orgulho não é pecado, deus? Pecado, rapaz, é achar que tudo está errado. E só. Agora vou. Muito obrigado, deus. Agradeço mesmo. Foi um prazer. O magricela desligou o telefone e sentindo-se feliz. Afinal de contas, percebeu que, para falar com deus, não havia mistério. Porém, decidiu ficar calado a respeito da conversa. Do contrário, todos o chamariam de louco. O rapaz estava mais que satisfeito com o que ouvira. Esperaria, então, a próxima semana para ligar de novo e, após pensar, decidiu que, em sua próxima ligação, não usaria lista de pergunta. Percebeu que deus, embora digam o contrário, é um cara bom de conversa, muito aberto e mais que bacana.












06 outubro 2013

cena de teatro







Engraçado é notar que a gente nunca imagina aonde vai dar nossa loucura que pode ser literatura ou arte e que anda pelo mundo. Eu já participei de peças de teatro. E faz tempo. Aos 16 anos. Nunca fui boa atriz. Lembro que escrevi uma ou duas peças em parceria com Fábio Cardoso (amigo de escola). E o tempo passou e eu parei de fazer teatro e comecei a escrever algumas coisas. Aí comecei a estudar Letras e vi: sim, literatura é o meu campo. No entanto, eu nem sabia o que eu iria plantar. Mas daí eu passei a escrever mais e mais, publiquei livros (metida a besta?). E é isto. Sigo escrevendo.







Um dia, um amigo que adoro e admiro e rasgo seda, o Eder Asa, me disse que havia escrito algo para um espetáculo de teatro (ou cena de teatro) e que havia usado alguns textos meus. Fiquei pasma. Como assim? Teatro? Eder é ator e escritor (embora insista em dizer que não). Ele e uma amiga, Maria Luz, criaram o espetáculo A Vida é tão Outra Coisa. Fiquei feliz e super ‘não sei nem o que dizer’ porque a surpresa foi enorme. Hoje, 6 de outubro de 2013, Eder me escreveu (lindamente) e me enviou a sinopse do espetáculo (que participou do 6º Festival de Cenas Curtas de Uberlândia que ocorreu no mês de setembro) e ele também me enviou fotos e uma entrevista a respeito do espetáculo. Infelizmente não pude estar lá para ver o Eder e a Maria fazer vida do que escrevo. Mas li a sinopse, vi as fotos e decidi compartilhar com os leitores do afeto literário. Porque escrevo para todos e com todos. E há carinho em tudo que mostro. E fé na arte que ferve as plateias que a aplaudem.


Segue a sinopse.
Salve Eder. Salve Maria.
Vocês me deram vida.
Eu agradeço e aplaudo.







A Vida é tão Outra Coisa

SINOPSE

Permeados por uma densa atmosfera de tédio e conflito, um relacionamento desgastado, um casal que não se comunica e um ambiente de difícil convivência. Assim, inicia A Vida é tão Outra Coisa, que já na primeira cena traz o existencialismo de Sartre e a existência da mulher que não quer saber de livros. Silêncio. A cena trata de questões humanas e sensórias, vai de encontro ao mais cruel realismo e, em sua pouca duração de cena-espetáculo, soma-se às doses necessárias de lirismo cotidiano. Traz a estética da web-literatura, seus diálogos rápidos e sua verdade crua. Ainda há amor? Falar em amor não é exagero? Você já reparou que todo mundo anda exagerado? Qual é o teu exagero?


A partir de textos e do universo lírico de Letícia Palmeira.

(Sinopse: Eder Asa e Maria Luz)















Enfim.
A vida segue.
E, em tudo, há espetáculo.  








(Todas as imagens foram cedidas por Eder Asa)

29 setembro 2013

conteúdo adulto










— Já reparou? Amor é brega. Tacky tão pra mim. Estale a língua nos dentes e diga: tacky love is. Tudo ao contrário. Assim como passar noite em claro, sofrendo de amor. Tão brega. E chorar de amor? Nem se fala. Chorar e esperar que o amor seja motivo e explicação de tudo é muito brega. Todo mundo que sofre por causa de amor deveria saber o quanto é brega se deixar passar por isso. É repetir Roberto Carlos, em vinil, até causar o primeiro risco. Imagine a cena: o sujeito ouvindo Nando Reis (que por sinal é muito bom, mas se torna brega de tanto que repete a história do all star azul), e chorando de amor. Que brega. So tacky, meu bem. É fora de moda. Escrever bilhete, pedindo esmola de amor é o cúmulo do brega. Falar mal do amor também é brega. Exagerar no gim ou na vodca, tudo por causa de amor, é extremamente brega. E rir porque o amor chegou ao fim é ultra brega. E, mais que brega, é sentir ciúme do amor que foi e que acabou. Amor é brega. Fardo que nem o diabo carrega. Sabe de uma coisa, Amor? Já era.



(Imersos)




Cansei. Ela estufou o peito e lançou as pernas sobre a mesa de centro. Pude ver o que eu não desejo. Ou desejo? Eu não quero mais falar de futilidades, ela diz. Amor é fútil? Sempre foi. Desde a idade da pedra. Você me lembra alguém quando fala assim. Assim como? Assim, tão coitadinha. Eu não sou coitadinha. Nem estou coitadinha. Chore, carpideira. Eu sei que você quer chorar. E sei que você quer que eu faça tudo por você. Você é vidente ou telepata? Eu sempre soube que você era bom com as palavras. Mas juro que nunca imaginei que pudesse ler minha mente. Sacana. Eu leio. Porque, senhorita, a sua mente é tão maluca quanto a minha. E se eu disser que não há maluquice alguma nisto? E se eu disser que somos sensatos? Ela me interroga. Eu piro. Eu calo. Odeio ser sensato. Eu já me dei a isto, ela afirma. Sou sensata. Parece até frase de comercial de banco. Parece nada porque esta não é você. E quem sou eu? Desta vez, ela me lança um olhar tórrido, escorregadio, um amor de louca e vadia. Uma fome súbita me enche os olhos. Eu a observo (da vitrine?). Frágil? Toque no produto sob sua responsabilidade. Imparcial. Nós somos, ela diz. Eu percebo que a desejo. Há tempos. Tão em mim. Ela é feminina e tem garras e dentes fortes. Eu a devoraria. "Sente-se ao meu lado. Quero companhia". Eu não preciso estar ao seu lado para ser sua companhia. Podemos estar distantes, um em Tóquio, outro em Paris, mas seremos sempre companhia um do outro. Um brinde, então. Ela ergue a taça vazia do vinho que havia. Não me contenho. A razão deixa a sala. Estou farto de me prender. Beijo de boca cerrada, com força, como se quisesse calar a mulher. Ela sorri. Irônica afetada. Odeio. Eu a adoro. O cheiro da pele, os pelos — tudo se exaspera. Tudo é a sala (e o corpo dela que se abre). Quando não há mais nada a se dizer, eu toco os lábios. São úmidos. Ela não sorri. Ela é outra mulher. Despida. Eu a descubro. Eu a conheço. Tão plena e voraz. Ela ergue o corpo e me deixa sob seus pés. Ela sorri baixinho. Deveríamos ter bebido mais vinho. Ela me despe. Estamos unidos. Abraçados. Loucos? Seios nas mãos. Inclinados a serem tocados. Eu busco o lado direito. Eu engulo o seio sem respeito algum. Sua língua encontra minha pele, pescoço e ombros. Ela se contorce. Eu a toco e me encanto. Não falo. Nós nos olhamos. Eu a ordenho. Ela me inflama. Por trás. Somos acrobatas. Ela não vence a batalha. Mas também não foge. Eu estou imerso. Dentro. Estou íntimo de tudo que tanto venero. Ela se transforma, como se dançasse, como se morresse. Ela me fere com as unhas. E não há gemidos mais doces. Eu a ouço. Frenéticos estamos ao som do vento que entra pela janela. Só há nós. Só há ela. O corpo vence o que a mente tentava controlar. Esperma. Deito no chão. Eu me deixo abater, embora não me sinta cansado. Ela se deita ao meu lado. Ela sorri. Você é a minha companhia. E você é líquida, eu assumo. E você é bruto. Quem diria. E deus repousa absoluto sob sua obra ao término do dia.










22 setembro 2013

dark blue jeans








Você já catou seu feriado hoje? E o motivo? O motivo mito para faltar ao trabalho? Já varreu seu lixo para debaixo do tapete? Já engoliu aquele sapo? Já tentou quebrar alguma coisa? Já consertou algo que não precisava de reparo? Encontrou seu amor? Mandou o mundo se danar e se arrependeu no minuto seguinte? Você já pensou em partir e deixar carta culposa? Já rastejou? Já disse sim quando a única coisa certa a fazer seria dizer não? Já deixou de se camuflar? Você já se olhou no espelho hoje? Você já reparou que se perder é o caminho para se achar? Me diga uma coisa: Você já?



(flora conduta)










Mas engraçado mesmo foi o dia em que fugi de casa. Fiz todo o plano de sumir sem deixar traço de passo algum. Rasguei documentos que pudessem servir de pista. E fotos também. Destruí, em mil pedaços, a agenda telefônica para que nada me estragasse a fuga sendo pega na casa de alguém quando estivesse no caminho de meu novo rumo. Fiz mala. Não muito pesada. Peguei somente o necessário para não morrer de frio ou de calor. E escondi dinheiro no fundo falso para não perder um tostão de minhas economias de dias para o plano não falir. Tomei banho de corpo todo, lavei bem os cabelos e me senti linda e extravagante em meu dark blue jeans. Deixei um bilhete sem muito comprometimento, ressaltando apenas algum sentimento, fechei a porta e parti. E a insanidade fez desgaste na memória de minha fêmea. Na ânsia de existir, acabei esquecendo que eu morava sozinha, a casa ainda era minha e a fuga só me levaria ao ponto do qual parti: eu não tenho do que fugir. Sou a única habitante de mim.












13 setembro 2013

substituindo ulisses








amor é Dostoiévski na
roleta

(bukowski)







Ulisses foi embora. E pela porta da frente. Ele ainda sugeriu um aperto de mãos. Eu concordei. Apertamos as mãos e selamos o fim. Agora eu preciso de um plano extra. Mas como? Ruim é acostumar-se. Ruim é amar. Eu sempre soube disto. Mas sou louca e amo sempre de novo. Ulisses me marcou. Sabe aquele ferro que queima a pele dos bois? É isto. Ulisses me marcou profundo. Além disto, me ensinou a ser o que detesto: racional. Por isto estou contando a história. Se fosse em outra época, no tempo em que eu pagava para alguém me ferir só para fazer meus dramas, eu estaria ouvindo a mesma música, várias vezes, e chorando até desidratar. Mas não estou chorando. E isto me preocupa. Terei me tornado a cópia fiel de Ulisses? Terei me tornado racional, tola, imbecil, sacana e, ainda assim, consigo me sentir feliz? Agora eu vou em busca de outra peça. Já que ele, Ulisses, sempre dizia que amor é xadrez, preciso de outra peça. Estou substituindo Ulisses. E não é preciso que seja por outro homem. Farei, como me aconselhou um amigo, um curso de crochê. Eu sempre quis fazer curso de crochê. Por que adiei tanto? E farei também ioga. Dizem que ajuda a melhorar a postura. Cansei de meu andar corcunda. Cansei de dor nas costas. E irei visitar velhinhos em asilos. Farei isto. Bem melhor do que esperar que alguém venha e preencha a vaga deixada por Ulisses. Eu preciso dizer que senti que o fim estava perto. Todos os relacionamentos que tive (com exceção, é claro) a coisa sempre atolou após a escolha da música. Sabe aquela coisa de escolher música do casal? Pois é. Ulisses e eu havíamos escolhido a música. Sempre que nos beijávamos, ouvíamos a música. Sempre que a gente fazia aquilo (sexo, mas ele preferia dizer amor) a gente ouvia a música. O ruim é que adoro a banda que toca a música. Mas, como manda o figurino, vou ter que parar de ouvir a tal canção de nós dois. Porque eu não gosto de remoer coisas. Aliás, não mais. Acho que isto faz parte de uma questão muito minúscula de nossas vidas: amar até que chegue ao fim. A gente ama esperando que um dia tudo acabe. A gente ama esperando a alma em troca. A gente ama se protegendo contra o corte. Ninguém sangra e ninguém explode. Agora me tornarei macrobiótica, budista e chega de amor em minha vida. Substituo Ulisses por mim mesma. E que bela escolha! Volto para minha bolha de viver reclusa e absoluta em meu estado sólido de caracol soldado. Até que a vontade me corrompa novamente e eu saia à caça, substituindo Ulisses por um belo animal da mesma raça. Acho que me tornei racional. Ou terei me tornado mulher finalmente?














08 setembro 2013

corredeiras










O que você tem em mente? Uma corda, beijos e seus pés presos por correntes? Liberdade é coisa de revolucionário. Eu sou antiquada. E trato Ulisses como herói. Embora, no fim do dia, eu entregue seu corpo aos leões.


(epílogo)






Água por entre as pernas, por entre as mãos e falas. E não me cala mais o medo vulgar que antes eu sentia das antipatias amenas. Já estou a ultrapassá-las. Vejo claro o líquido que escorre das pedras, dos rochedos, das ondas que de mim se dispersam como amores que nunca vivi por não desejá-los. Eu apenas os queria para derrotá-los. Amar para devorá-los. Enfrento sentidos em minhas quatro patas equinas. A mulher domesticada por constantes quedas na lavanderia. Máquina de lavar tempos. Gira a máquina por dentro. Penetram meus cabelos densos as mãos as quais eu me atrevo. Por hora eu as recebo, muito embora eu saiba que no dia seguinte estarei alheia aos meus sentimentos. É maravilhosa esta consciência brusca de estar ao lado de um e ainda querer saborear tantos. É viver como o pássaro indeciso que faz ninhos ao longo dos arvoredos que nascem, crescem e vivem à sombra, todos mortos de medo.













05 setembro 2013

democrática espalhafatosa









Como você está? O espelho parece gritar: “Você está ótima, mosca morta. Pare de se lamentar”. Ponto final? Nunca! Porque a gente adora dramatizar. A gente adora um probleminha para escoar junto com o pó de café no começo do dia. Problema é preciso para dar corda a este nó que é vida. Eu busco conflitos como a criança que caça borboletas no jardim. Uma porcaria esta comparação. Prefiro esquecer que a fiz senão somo tudo e acabo louca. E eu deveria estar preocupada com tudo que é real: contas, lucros e dividendos. Eu deveria jogar mais Banco Imobiliário. Mas estou preguiçosa e acompanho somente o tempo: chuva e sol sobre terrenos que entopem vias de acesso aos carros que passam. Decidi largar o vício de observar tudo de perto. Não uso mais lupas de elefantes e neste meu estado quase cego, me sinto melhor assim. Não me arrisco a tatear por cômodos que não pretendo habitar. Por um tempo me dei folga dos labirintos que crio porque minha casa (que é alma) é ampla o bastante para que eu me perca. Eu não dou conta de mim. Papo brabo? Muito. Mas juro que estou tentando não dificultar palavras. Já era o tempo de enfeitar meus campos. Hoje sou o soldado tácito que não se camufla para qualquer luta. Eu estou praticando escolher meus caminhos. Se foi minha terapeuta quem me aconselhou a fazer isso? Não mesmo. Abandonei a terapeuta desde o dia em que ela me chamou de mulher formidável. Nada contra. Mas formidável, em minha opinião, é diploma de filho que segue rastro de família. Eu não sou formidável. E também não sou fórmica. Prefiro Frida que enfrenta o batente a Dorothy espalhafatosa que acredita em mágico decadente.  Então é muito claro: não sou formidável (isto é fardo), depressão ainda está na moda e amor é química e pura política. (Visto que) eu amo de forma democrática tudo que ladra, tudo que cora, e adoro o homem que me dilui em afetos e muita conversa jogada fora.

Parafraseando:

Fale merda
Mas fale de mim, meu amor.

E a respeito de minha terapeuta, creio que ela esteja bem, ganhando dinheiro e tratando de outras mulheres que, como eu, buscam cisco nos olhos que não têm. E ainda penso na Estátua da Liberdade. Sempre lá, parada, coitada, fincada. Estátuas não chegam a lugar algum. 












25 agosto 2013

jogo de astecas








Ou eu a cortava ou a incendiava. Era este meu dilema de ontem. Hoje, sequer me lembro. Apenas rememoro para saber que o fiz. Eu definitivamente exterminei a buganvília.





convite para o cinema

(advertência: moral pornográfico)



Táxi. Aroma de bêbados. Pessoas vão e vêm nestes bancos. Por isto me sento com cuidado. Beija-me muito. Achei brega, mas aceitei a migalha. Beijei. Nos pés, sapatos cor de caramelo. Nos meus, vermelhos. Igual a pele que se esconde retraída (de medo). O filme é singular. Você verá. Claro que sim. Tudo o que vem de sua boca é singular. Até suas imbecilidades. Sempre tão amáveis. Duas entradas, please (get up off your knees). Os dois andam de mãos dadas. Quase enganam pela aparência ingênua da coisa. Na verdade, querem do outro o que deus tanto condena. Mas para quê falar em deus agora? Esqueça. Vamos sentar aqui? Que tal? Claro que sim. Tudo escuro. E o filme começa. Beijo na boca de línguas que se enroscam. Mãos nos mamilos. Tão rápidas. Seriam répteis as mãos que deslizam pela curva dos seios da mulher de boca muda? Te quero tanto... Murmurando. Não deixe que nos ouçam. Saia jeans para encurtar caminho. Sem calcinha, sem fricote, porque é assim que age a mulher que por ordem provoca. É? Detesto filme legendado. Ó. Quase nos ouvem. Não faça barulho. Não urre mais que o necessário. Ok. Você é o freguês. Jogo de astecas, tocando marcha com a ponta dos dedos. Abra as pernas. Tão deliciosa. Você é má. Sorri. Os dedos escorregam para dentro. Muito fundo. Profundos os peixes não temem o escuro dos mares. Tão denso o líquido que escorre. Dedos fora, dedos dentro (da boca). Tudo escorre pela garganta. Eu amo você. Espere o fim da cena e, só então, me diga o que sente. Frenéticos os dedos voltam. São muitos. São tantos. As pernas se escancaram. Com força as mãos desenvolvem movimentos harmônicos. Beijos calam o clichê básico. Ninguém precisa ouvir. É proibido me proibir. E eram lentos, mas agora estão loucos os dedos. Penetram mais e defloram o que já estava deflorado (há tempos?). O líquido está mais denso. É hora do conflito final. Orgasmo comum de igual casal. Mas diferente é a cena porque fora feita com a decadência típica dos que manifestam cio em vias públicas. Voltam ao táxi com as faces rosadas como se fossem pecadores pueris. E o final do filme? Singular. Como eu sempre quis.










12 agosto 2013

imã de geladeira









Você precisa saber da piscina
Da margarina, da Carolina, da gasolina
Você precisa saber de mim.

(Caetano)







Dizem que agosto é mês de desgosto, mês do cachorro louco, mês do azar. Mas de qual azar estaremos falando especificamente? Porque, de azar, estamos cheios até o talo. Vivemos em um país chamado Brasil — mulata e funk em noticiário. Para mim, isto já é o necessário. Porém, há mais. Mensalões que deram em nada; político, de cara lavada, ganhando sempre às nossas custas, partido trabalhista que se torna elite (da noite para o dia?), e houve também manifestação que, repare não, mas é fato, deu em nada, além de algumas vidraças quebradas. O gigante enfartou. Mas isto é apenas assunto comum. O que realmente nos incomoda é a ressaca de um sábado em que a gente encheu a cara e perdeu a dignidade, servindo nosso sexo em bandeja de metal falso. Isto nos incomoda. Todo o resto é cisco. O cego prefere o óbvio a enxergar o real obstáculo. O mal verdadeiro é o marido que trai, a mulher que, de moderna, só tem a casca ou o namoro gay liberado que a gente defende, mas, ainda assim, não respeita. Nós adoramos nossos preconceitos. São nossos deuses. Eles nos sustentam. E, desta forma, vamos nos perdendo em nossa crendice de achar que azar é morrer. Eu não sei o que é azar. Sou imatura para tais assuntos. Mas sei o que é uma tendinite no braço esquerdo e uma tipoia que afirma, com muita segurança, que estou começando a chegar ao fim. A gente nasce pavio de queimar e, um dia, chama que cessa. Que triste! Que nada! Levante a face e sorria: você está sendo filmado. O tempo passa e logo será fim de ano e as lojas estarão vendendo, a preço de pele humana, roupa costurada por asiática, embalada em enormes caixas e etiquetada por grandes nomes da moda. É de rir. É de viver a vida. Deixe o azar de lado. Não nos queixemos. Esqueçamos. E hoje ouvi a voz de deus que é a voz do povo. Às seis da manhã, cheirando a aguardente, deus me dizia que anda injuriado com sua família que não o deixa beber até raiar o dia. Deus é quem sabe de tudo. A gente só imagina que sabe. A gente apenas segue o fluxo.













27 junho 2013

verbo fêmea









Olhos de Lacan


Prédio baixo. Cinco andares apenas. Elevador cubículo. Segundo andar. Você sabe qual o andar de? Não, não sei. Escapo. Mas, apenas por um minuto. Segundo seguinte me vejo em uma sala muito aconchegante. Poltrona e divã. Lacan em livro descansa sobre uma mesa de madeira muito bem polida. Onde paramos?, pergunto. Eu começo a sorrir porque realmente não sei o que eu estou fazendo ali. Ele franze o cenho. Já era. Preciso falar. Abro a boca como quem anuncia um segredo. Ele cerra os olhos como quem inspeciona um objeto. Eu falo e falo e falo. Por cinco minutos eu me recrio. Descubro que sou outra nesta sala requintada. Eu nunca imaginei que eu fosse assim. Tenho valores, horrores, pavores e um amor. Eu tenho tudo. Mas por que será que sinto sempre este aperto de vazio? Encerramos a sessão e volto às ruas, levando em mãos a minha mulher. Esta que muda ao subir e descer do elevador.





Cronológica


Não suporto quando dizem: nossa, mas como você está nova pra idade! Não suporto isto porque não sigo aspecto cronológico. Se nada tem a dizer, invente. Mas não me diga que estou nova para o número que minha identidade exibe. Não diga que estou enxuta para a lágrima que meu olhar deixa a mostra. Não diga misérias quando o silêncio muito mais me alegra do que a voz inadequada da incoerência. Peço: deixa-me em paz.





Explícita


Homem tem mania de achar que mulher tem botões a serem pressionados como se fossem adereços de máquina. Eu bem sei. Já fui testada. O homem apertava e pressionava todas as partes (que são explícitas), enganando-se. Pois o que me excita está sempre na ponta da língua. Todo o resto é reflexo de insisto. Porque eu sou rio inteiro. Em você, peixe carnudo, camufla-se o dragão. Não aperte botões. Traga-me os remos. Nadaremos juntos. Um dentro do outro, conhecendo-se. Mudos, fluidos e mútuos de amor. Até que a correnteza nos separe. 









Enquanto isto,
Em outro perímetro,
Alguém escreve verdades.



"eu escrevo escavando as lâmpadas soterradas na dúvida. escrevo mirando os olhos de Deus. ele foge em cavalos a galope, mas as minhas raízes estão fincadas em seu corpo. não posso mover as minhas flautas, em todo lugar vejo papai suspirar, ele debruça em minha boca com a sua enxada, apara as ervas crescidas sobre a linguagem. devo aprender a estender o meu corpo por dentro do silêncio".


(Sandrio Candido)