30 setembro 2010

isolda deturpada





Quando o carteiro chegou...

Não. Esta porra de música aqui não.

Chuto em saltimbanco o aparelho de som. Quer ouvir esta porcaria vai ouvir na casa do raio que o pariu.

Ressaltada, Isolda fala atravessada. Será que a vida é só isso mesmo? Biscateiros, contas, responsabilidades e perdões?

Vamos a mim. Mulher. Caucasiana que é uma beleza. Já passei dos 40, casada, tenho amantes que me sugam, e dois filhos. Não moram mais comigo. Deus seja louvado. Dizem que mulher nasce para ser mãe. Quebro a lei. Nasci para ser. E, aos 40, eu já deveria saber qual o meu objetivo. Mas, inacreditavelmente, não sei o que vim fazer aqui. Planeta terra, esconderijo e inveja de minhas amigas mais jovens. Ficam falando nojentinhas de suas vidinhas e eu desejando que todas engulam suas línguas de víbora sem fome.

Nada acontece.

Abro a caixa de e-mail. Alguém me vende geladeira, outro diz que faz milagre em lipoaspiração, mais alguém fala de corrente de oração. Deleto tudo. Selecionar todos e fim. Desaparecem. No entanto, o mal já está plantado. Você que envia e-mail vendendo geladeira deveria saber que o mundo é mais que isso. Respiro fundo para não me espantar com minhas próprias palavras. Não desejo mal a ninguém.

Só agora percebo que não lavei direito a perna direita. Desde ontem há resíduos de geleia masculina em mim. O homem deixou sua marca registrada. Não cheira a nada. Mas está aqui a marca da polução. E daí? Deixo a marca. Parece cola. Parece indecente. Parece sujeira.

Vou fazer depilação.

Chego à clínica estética que nada tem de clínica. É uma casa com portas e janelas e muita mulher falando merda. Outro saltimbanco e já estou deitada na sala 2 com Dona Núbia Esteticista. Mulher de boca espremida e barriga grande. Ela pensa que me importo com seus problemas. Mas não me importo. Eu apenas finjo ouvir enquanto penso em outras coisas. Isolda pensa em tudo. Farei uma viagem dentro de alguns dias. A trabalho. Em vias de sacanagem. Em decreto de obrigatoriedade. Meu médico disse que preciso diminuir o ritmo, andar de bicicleta, comer frutas. Médicos são patéticos. Se diminuo o ritmo a casa cai. Se ando de bicicleta sou assaltada na esquina. E fruta nem se me jogarem em larva ardente. Não gosto. Mas médicos existem para criarem dentro de nós esses pequenos conflitos de pensar na saúde, longevidade, cuidados necessários para existir mais. Médico é obrigação.

Núbia arranca com força o segundo punhado de pêlos. Cera quente, Núbia? A mulher de boca espremida diz que sim. Sabe uma situação de desconforto? Esta. De pernas abertas para Núbia que arranca pêlos como se estivesse com raiva de alguém. Núbia, que você tem hoje? Por que perguntei? A mulher começa a falar e falar e falar. Mas é bom quando ela fala. Cada palavra embala meu pensamento pra fora desse círculo fechado que sou. Estou rindo por dentro. Ontem foi divino. Ele pensa que me controla. Aí vem falar de relação como se eu amasse. São trapaceados pela própria índole. Homens comem. Mulheres fazem acrobacias. Mas é bom. Deslizo aos pés do santo. Meu marido é santo até que provem o contrário. E, caso provem, a coisa ficará bem melhor. Imagina eu sofrendo de amor? Que novidade. Que calamidade pública. Que fora de série.

Núbia me arranca de meus pensamentos. Começa rir. Diz que andei aprontando. Digo que não. Mulher, esta marca não engana. É cola permanente. Não sai, Núbia. Olha que sai. Núbia esfrega óleo em minha perna. Que bonito. A marca sumiu. Era apenas sêmen ressecado. Um desperdício. E minhas costas ainda doem. Eu sofro sorrindo, Núbia. Aí a mulher diz que sabe como é. Mulheres se conhecem. Disso já não sei, Núbia. Mas deve haver algo mais que essa marcha na qual andamos. Carro, compras, merdas, putarias, compromissos, labaredas que não queimam e realidade. Deve haver algo.

Enquanto não encontro motivos para ser Isolda, Núbia arranca mais pêlos e eu não reclamo da dor. Nunca reclamo. Minha existência é minha própria queixa. Viver é repudiar tudo. Núbia não entenderia. Ninguém entenderia. E eu vou acabar comprando a porcaria da geladeira. Isso me faria continuar existindo. Isso seria digno. Rindo penso que sempre caio em tentações. Ainda encontro o motivo. Ainda encontro razão.







Image by Liam Munroe

26 setembro 2010

grão de flor





"A velha arte de amar amigo. É perigo. Desastre. Clamor. Se amas, fazes de teu amor um inimigo. Que amigo algum vai te causar na alma o bem maldoso que um inimigo te causou."






Eu era muito amiga de meu amigo. Ele era de sol e eu transitava lunar. Ele fazia compras e eu colhia flores, olhava céu, olhava mar. Espreitava a vida feito agulha escondida em arco de bordar. Eu era apenas o ar. O vento que sopra. A arte metrificada de Cecília, das Meireles, rubro feitiço de Medeia e destrambelhada máquina de calcular. Meu amigo era terno, gravata e magistério. Bonito de boina, de Paris à Polinésia, de rosto e mão na boca ao meu eterno contemplar. Belo de cair queixo e eu perdi teu amor porque saí do eixo. Eu era roda gigante de sangue fervendo por todo amor que me passava pelo olhar. E, no deitar múltiplo de cada dia, meu amigo fazia de mim sua menina, cavalgava imperador, tentava me adestrar fazendo de mim grão de flor. E eu fiz de meu amigo um alter ego de altar de santo cego. Benza-te Deus que tu és belo, amigo meu. E o sexo que antes era bacana, sacana, delírio, sujeira de querer mais, agora é motivo de missa e lição. Hoje somos tão amantes quanto irmãos.





Image by Karolina

24 setembro 2010

era dia




Observo ruas. Janela aberta ao mundo. Abro um maço de cigarros, olho a cidade de São Paulo e o mundaréu de gente é o mesmo do ano passado. A cidade não me comove mais. Posso compará-la a mulher que amei? Ainda amo. Não direi o nome. Não me atrevo a reproduzir aquilo nem sob efeito do mais forte conhaque. Cidades e mulheres não nos devem comover. Somos ou não amigos? Olha bem que tento esquecer aquela sacana covarde. Mas ando trêmulo. Fumo demais e ando bebendo e me entrevo nos botequins. Hoje, pela manhã, no grande esforço de tentar não pensar na coisa, troquei algumas palavras com uma senhora que dizia estar esperando o filho. E na porta de um bar. Acendi meu cigarro e ouvi a mulher falar. A velha de vestido azul e cara enrugada me parecia sofrida mesmo. Uma doente perdida. A cidade é cheia de demônios que escapam do inferno e vivem vagando. A velha me falou de seu finado, de seus filhos doentes e ainda disse que o marido era mulherengo. Senti dor pela mulher. Mas era uma dor prazerosa de vingança. Eu senti o poder de ser macho super dotado de todos os poderes. Porque, se Deus pode fazer chover, eu faço sofrer. A mulher me disse isso. Mulher tem que sofrer, pensei comigo mesmo. A velha foi embora com cara de quem havia chorado a vida inteira. Eu deixei o botequim a pouco e estou trancado em casa desde a hora que cheguei. Que horas eram mesmo? Meu sotaque paulistano babaca não me vale porra nenhuma. A cidade não vale. Ela não vale. Mas agora que o conhaque desce, eu a sinto. Coisa de espírito. Eu a vejo andando de um lado pra outro procurando cigarros, telefonando, me dando, me abraçando. Eu sofro. Quero encher a cara e sofrer. Que música devo ouvir? Djavan era coisa dela. Aquela louca atordoada. Ouço Chico Buarque e morro. Vou morrer mesmo. Se aquela vaca não sumir da minha cabeça eu morro de pensar. Eu posso sentir o perfume dela. Aquela coisa que o Chico canta de os seios ainda estarem nas mãos. É certo. Eu sinto. O formato dos seios em minhas mãos. Sinto as pernas me cercando, a voz daquela desgramada me persegue. Mal entro em casa e sinto. O perfume dela se agarrou a tudo que existe. A cidade tem o perfume dela. As praças, os detritos, o mormaço quando chove e a porra da poluição. Cretina que despencou na minha cara. Quantos anos? Me diga? Quantos anos? Eu comi dela. Vadiei dentro dela tudo o que eu queria. Não fiz cria, mas sujei a vadia de todas as formas que pude. Era meu terreno baldio de urinar e fazer merda. Mulher e merda. Ela me deturpou a alma. Lembro bem. Muitas noites ela chorava dizendo que sentia solidão e eu estava com ela, porra. O tempo todo. Como poderia se sentir sozinha? Eu catei aquela merda de mulher pra mim. Alimentei mesmo. Feito pássaro. Mas eu nunca engaiolei aquela puta. Lembro da última noite. Parece que sentia que era a última. Eu fiz de propósito. Abri as pernas dela e me afoguei de amar a mulher que me amava. Ela dizia que me amava. Suava as ancas e gemia dizendo meu nome. Sabe o que é sentir uma mulher falando teu nome no ouvido? Assim, de perto? De boca? Ela me embriagava, ela me enojava quando falava em amigos, ela me entupia de raiva quando vestia aquelas merdas de roupas e se pintava e dizia que a cidade era nossa e a gente tinha mais era que viver. E, na última noite, ficamos na cama por eras, e eu comi. Me fartei. Sei que pareço sujo ao falar dela. Mas que se suje o papel, a máquina, as paredes, a porra toda com o que digo. Eu sofro. E sofrer nesta merda de cidade que fede a gente triste é degradante. Ninguém é feliz aqui. Inferno é este, pastores faladores de Deus. Odeio toda gente. E eu amei a mulher na última noite. Entrava e permanecia dentro dela como se fosse minha morada. A mulher era minha casa. Ela era minha alma. E acham que homem é tudo ruim e eu nunca fui ruim pra ela. Eu era dela. Por quê? Me diga você. Por que ela? Tantas no mundo e por que logo aquela vaca? A desgraçada cantava pra mim. Com seu sotaque paulistano babaca, ela cantava Beatles. Cantava Elvis. Cantava suspirando no meu ouvido enquanto eu me enchia dela. Penetrava no mundo dela. Meu templo. Eu era aquela mulher. Chora. Chora. Chora alto o conhaque fazendo efeito, falando sozinho, olhando pro espelho da sala, a casa virada de bagunça e o terno amassado. Enterro você hoje, infeliz. Voou da janela depois que saí pro trabalho. Voou de desespero depois que não a ouvi. Voou feito peso morto depois que bati a porta. Dizia ser sozinha. Ela se jogou ao infinito desta cidade suja e agora eu enterro a mulher que amo. A cidade nada manifesta. É tudo a cena de ontem. Ninguém me vê sofrer. Ninguém sabe o que se passa dentro de mim. Eu não sabia dela. Ela voou da janela e se espalhou lá entre a gente. Era cedo. Nove da manhã. Era apenas o começo do expediente.





Image by hishy

20 setembro 2010

ocidentais





A voz dele é rouca. Rouca como se fosse som de rasgando roupa. Rasgando mortalhas a voz do homem. A voz dela é louca. Semi-sonora, equalizada, aguda. Como se fosse tom de mulher. E os dois se encontram na hora errada, em lugar modesto e beijam todas as bocas que podem beijar. Não há erro. É exato. Tempo errado, mas os dois são igualitários a meio passo do inferno de queimar. E nada é de amar. É romper o hímen do sóbrio limite de tentar equilíbrio sendo contido. Encontro às 9 da noite. Encruzilhadas. E ela veste jeans e mais nada. Louca arrebatada por deus. Sem destino é o homem de voz rouca que espera. Um poste, luz amarelada, esconde timidez, esconde nada e seguem a pé ao lugar suposto. Beijo no rosto. Abre a porta pra ela o homem e ela despeja olhar sobre o homem e contorcem taças de vinho tinto e que suje o carpete que a vida é curta. Meio jazz, meio Rio, meio suborno e ela é entidade. Deusa em jeans e ele é rouco e, louco, ameaça falar. Conversam embutidos querendo outro caminho, um agrado, um sorriso e não era bem isso que eu queria dizer e não digo. Mais risos. Vida é paraíso e você é tudo de mulher. Ela se avacalha. Elogio de colher cheia faz milagre, baby. E nada mais se guarda. Mulher cofre arrombado de beijo molhado ou seco ou que venha só desejo pra extrair medo que a gente sente de ser visto rastejar por santo falso. Vinho no corpo e na garganta. Ele faz pergunta em voz rouca e a mulher é realidade e quanto fingimento ao dizer que arde desde o dia que te vi na rua, parecia nua, eu fiquei covarde, verde, árabe de ciúmes quando te vi com outro cara. Ainda arde. Não suporto a verdade. E rompe a noite o estalido da pele em contralto, o plácido, o límpido, o pecado, paraíso, Joana d'Arc, eu, você, rouca, louca, trem a vapor, cavalos alados, maestro e teatro e amo você até dizer que me basto. Os dois agora são dois sóis queimando trêmulos, adorados e avessos, devoram mais que se podem suportar.





Image by Ren

19 setembro 2010

prosa de falecimento





O vizinho extrapola quando testa o motor do carro. O menino fala que sabe. Mas saber da verdade é mais quinhentos. Melhor não saber. Porque a verdade é feia. Lembra as casinhas à beira da maré? As janelinhas enfeitadas de copinhos de plástico e, dentro dos copinhos, flor forte de cor? Lembro até o cheiro que tinha a flor. Mas não lembro de você. Estranho esse sabor de esquecer. Tanta sinfonia de escova de dente, de calçar sapatos e amarrar laços com pressa pra ver quem seria mais ágil. Água dividida em quatro mãos e um único espelho para ver os dentes brancos. De volta à cama, deitados os corpos, tantas bobagens só para dizer que não. Casamento é desunião. Esta foi a primeira lição. Desde o nascimento ao crescimento a este momento de falência. Quando ainda era primeiro beijo, mundo perfeito de mão em mão, era tudo perito em experimentos de vencer o outro. Mas parece que agora a lida dita a formosa realidade do tempo. Não basta extrair o veneno. É preciso sabê-lo. Sê-lo. Obtê-lo. Empregar regra antiga na modernidade. E, caso saia de casa, não volta tarde. Se for à lua, traz lembrança. Se ouvir música, diz que lembra. Que lembrou. Que pensou. Mas não desdenha que é prova de vontade oculta. Quando acaba é mesmo como o sino que silenciou. E a fome que era tão bruta falece de repente sem saber quem a matou.





Image by lena

14 setembro 2010

crônico tempo moderno



Voilà televisão e estamos com sorte. Hoje celebramos desastre de aviões em quedas e prédios tombados e a luxúria mora ao lado. Marilyn não era suicida. Apenas encurtou o caminho ao estrelato. E mulheres compram fogões blindados e assistem Leda Nagle Voz de Cigarro Hepático inteligentemente falar em Clarice Lispector, filme Cult, artistas e objetos voadores. Chá de cura é a televisão. Para toda criatura há uma saída. Vide Aldous Huxley. Mas adiantemos aos finalmentes. Geração que adoece mais cedo. Nossos pais, Belchior, não ficavam doentes antes dos trinta e as mulheres, elegantemente hippies, tinham filhos só de sentir o vento entre as pernas. Mulher hoje não engravida. É grave não deixar semente tua pela vida. Mas filho não é soma de se dividir como era antes. Todo mundo sendo criado aos trancos e espalhafatos. Filho é lei, ordem e progresso. Muito dinheiro para escola, gastos, pares de sapatos e paciência, consultas e terapeutas para não cair em loucura. Já diz o escritor de livro que ajuda: Pais e Mestres sabem guiar a manada. Feliz daquele que consegue acreditar em livro de auto-ajuda. Porque Estupidez é liberdade, Ventura. E falam da Elis Regina. Dizem que ela soube conciliar carreira, vida afetiva e moral. Dizem os livros biográficos que vendem feito banana. Só quem sabe da vida da Elis era Elis e ela já é Inês Morta e ainda corre a matriz do motor humano sancionando tablaturas para alcançar o futuro. No entanto, não dormimos. Andamos sonâmbulos. Agregados aos ritos do passado e tenha certeza que tempo algum vai repetir o passado. Não haverá hieroglifo dessa era escrito em parede alguma. Nem gente protegendo patrimônio histórico. Homem bicho escatológico chega ao fim do dia cansado acreditando que amanhã será outro dia e com fé a burra anda. Política demais faz perder a visão. Veja o que aconteceu ao presidente sindicalista que hoje se converte emergente. O fim está próximo. Claro que está. Basta que fechemos os olhos, tratemos de pensar bobagem, leia somente livro sagrado, peça a Deus, peque, mas somente no escuro quando ninguém esteja olhando e siga conselhos dos mais velhos: Trabalhe feito escravo, seja sensato, conte dinheiro, não traia, não caia, não pense por si mesmo. A ciência agora anula a sexualidade e gametas são depositados em laboratórios bem ao lado dos ratos. Descobriram o mundo ontem e hoje não há mais novidade. Deus está cansado. E o homem deixou de acreditar em milagres. Literatura não é lida, gente rica é quem dita, e ainda ontem no céu um imenso clarão. Testaram bomba para ver funcionamento. O que virá depois? Talvez Woody Allen, talvez o mundo inteiro unido através dos cabos interativos e estaremos juntos. Viveremos baseados em monóxido de carbono e hidrogenados. Nunca alienados. A vida se expande em seu grosso calibre, sirenes atravessam dias e seja otimista. Porque você é feliz mesmo que digam o contrário. E, para mais explicações acerca do mundo e seus mistérios, deposite imensos trocados e direi tudo sobre a História do Brasil, Cultura de Massa e Dietas Revolucionárias. Isso tudo virá a sua vida através de pensamentos positivos, cantigas de mantras e espantosas receitas milagrosas que nos deixaram de herança.




Em meus ouvidos,
Ani DiFranco.




Image by Slawek Gruca

12 setembro 2010

senhora viva




Quem é ela? O que faz? Ela é apenas uma senhora que vende flores na Rua da Areia. É apenas uma mulher que vende flores na rua. Mora em que lugar? Ela é uma senhora que vende algo. Ela é apenas uma velha. Aonde vai? Muitas questões acerca de um único objeto. A mulher que vagava pela Rua da Areia, de esquina a esquina, vendendo flores feitas de celofane de várias cores. Eram flores de amor, ela dizia. São flores para você, menina. Não vai querer comprar? E os passantes olhavam sem importância porque o que poderia haver de belo em uma flor de papel e uma velha perambulando pela Rua da Areia? Todos ocupados, mirabolando planos, e a senhora queria apenas estar, de um canto a outro, fazendo ziguezagues pela rua e vender uma flor ou outra. E caminhava imprecisa como se passeasse pelo tempo e sempre surpreendia os vendedores de lustres, os homens do cartório, os jornaleiros. Ela sempre os pedia para comprar suas flores. Sou eu que faço, moço. Pego papel, arame e faço as flores. É meu único sustento. Marido? Tenho não. Filho? Tenho não. E caminhava mais pelas calçadas e alcançava o Teatro Santa Rosa, sempre tão vazio e silencioso. Era o seu refúgio de hora de descanso. Largava seu cesto de flores perto de um banco e descansava suas pernas por alguns minutos. Era hora de pensar, de ver o passar das pessoas ocupadas cerzidas de preocupações e ninguém mais arrumava tempo para se distrair. A senhora sentada no banco olhava o mundo através de seus olhos velhos e esbranquiçados e havia beleza nas flores que fazia, mas ninguém as via e nem por isso perderia seus motivos de sorrir, pensava. Voltava ao trabalho ao sol da tarde queimando asfalto e era tanto ônibus que passava e gostava de ver as pessoas olhando pela janela. Olhava e sorria abobalhada a mulher porque era grande o tempo e tanto mundo em uma única rua que costumava frequentar desde que havia chegado à cidade. A senhora dizia para si mesma que, para se conhecer um lugar, não era preciso ir do poço ao céu inteiro. Basta uma rua e pessoas. Elas esboçam o que vem do resto da cidade. Não conhecia praia, nem grandes avenidas ou finas casas enfileiradas nas ruas de gente rica. Mas imaginava e já sabia como seria o mundo fora de seu cercado entre a antiga prefeitura, alguns bares, relojoeiros, um antigo cinema e o teatro. Ouvia gente sussurrando pelos cotovelos, sabia da vida de tantos só de acompanhar o modo de andar e ofertava flores. Vendia uma ou duas quando tinha sorte. Ela mesma fazia as flores. Chegava cedo, sentava no banco do Teatro Santa Rosa e enrolava arame em papel celofane de várias cores e vendia flores. Eram bonitas de aparência artificial. Eram pobres de aspecto vulgar. Eram sujas da imundície das mãos da velha que não tinha onde morar. Eram feias e ninguém as queria comprar. Mas ela continuava todo dia a frequentar a Rua da Areia. Sozinha a mulher, de vestido antigo, de cara velha e cabelo branco desgrenhado, ela estava sempre na rua andando de um canto a outro a tentar vender suas flores. E hoje a fatídica condição do destino batiza novamente a vida com sua enorme força e alguém procura pela senhora que vende flores e todos perguntam vocês viram a velha das flores e muitos traduzem em olhares a interrogação de se saber aonde anda a mulher que vende flores de papel e ninguém sabe. Ninguém a viu. Terá sido a morte que levou a mulher? Ou o tempo? Ou terá a mulher encontrado outra rua e não vende mais flores? Há múltiplas traduções para o fato. Mas é direito que todos saibam que até estátuas fazem falta no cenário quando nos surge o vazio. Só se começa quando se chega ao fim. Parece até que a gente só existe quando deixa de existir.





Image by K. Madran

08 setembro 2010

eu me LIVRO




Hoje, dia comum no calendário gregoriano, uma amiga me ligou. Eu estava pronta para fazer nada, deitar e olhar o tempo passar pela janela, quando, de repente: trim! Trim! TRIM! Eu atendi. A voz denunciou quem era. Nem precisou dizer. Aí veio a enxurrada de novidades. Eu ando fazendo isso, eu ando fazendo aquilo, quantos portugueses são necessários para limpar o jardim e assim seguiu a conversa. Até o ponto crucial quando, no auge do falatório, ela me disse: Não estou bem. Murchei. Como pode? Você está sempre bem. Sempre está sorrindo. Sempre está de pé. Admito que já cheguei a sentir inveja de sua alegria exagerada. Então me dei conta. Mas não é que as aparências enganam mesmo? E ela foi falando. Tenho passado por isso e mais isso e mais isso e outro isso e o mundo não é feito só dos livros que você lê, menina. Isso me tocou profundamente. Porque, enquanto minha amiga de longa data estava passando por todo o processo evolutivo de nossa era (casamento, desmantelo, divórcio, Deus nos acuda), eu estava plantando bananeira com o Neruda. Péssimo, não? E eu nem gosto do Neruda. Então passei a aconselhar. Faça isso, anda assim, não chora que borra tua cara, não fica deprê, não sofre e, depois de muitos conselhos, percebi que há o necessário. Coisas pelas quais devemos passar. É mais ou menos como querer chegar a um lugar, procurar um atalho e passar mesmo assim na frente de algum outro lugar que não passaríamos caso tivéssemos ido direto ao ponto. Entendeu? Eu também não. Mas é isso. Gente sofre. Gente chora. E canais de TV reprisam novelas e ainda passam na cara da gente que muitas outras pessoas vivem em situações bem piores que a sua. Ou seja, você se sente egoísta por estar sofrendo por coisa tão miuda quando tem gente que sorri mesmo sem ter o dente da frente. E eu sou péssima para dar conselhos. Comecei a criar histórias baseadas em livros que leio. Olha, não fica assim. Conheço uma mulher que ficou tomando umas e outras com uns amigos e nem viu que o filho estava morto em cima da cama. E falei de mais gente. Tem um cara que mora aqui perto. Dizem que ele era apaixonado pela irmã e ela foi assassinada pelo pai. E também tem um caso parecido com o seu. Uma mulher abandonou os filhos por causa de um cara e hoje se arrepende. Vive de escrever cartas pra família e ninguém responde. E mais. Mrs. Dalloway comprou as flores. Ela mesma. Existe coisa pior? Então ela riu. Bobamente. Porque eu não estava falando coisa com coisa e era tanta confusão que ela pensou que tudo pode desacontecer da mesma forma que acontece. Sofrimento é humano. Passar por problemas faz parte de nossa nomenclatura. E, quando eu já passava para o exagero de narrar a história inteira de Dom Quixote, minha amiga falou: Já chega. Já estou convencida. Quando eu tiver um problema te ligo e você me fala bastante em livros e compara tragédias de outros com as minhas. Já me sinto bem melhor. Eu salvei alguém do precipício? Não sei. Mas ela riu. E ouviu histórias. É por este e outros motivos mais que eu escrevo. Entendeu?







05 setembro 2010

clavicórdio



Bisbilhoteiro de si mesmo chegou tarde e a casa estava ordenadamente vazia. Apenas a mobília existia e a força destes elementos superficiais é impactante. Decepciona-se. Olha vulgar ao redor e finge não ver seu rosto no espelho. O velho, o jovem, o arabesco. Chegara cansado de mais uma reunião entre amigos. Todos falam e ninguém motiva uma explicação para seu estado permanente de estar-se vivente, porém morto nas calças. Quase transparente planejando vitórias, o homem voltou para casa ainda a tempo de ler, para si mesmo, em bom português falante, uma página de seu diário. Ando ausente de mim mesmo. E a mobília parece me importunar em sua obsequiosa lucidez. Elementos superficiais me tangem de meu lugar. Porém, sempre retorno. Pensou em tocar alguns tons de Chopin. Tão clássico estou, eu diria. Tão piedosamente contido. Coexisto ou serei apenas coincidência de um humano defeituoso que ainda maquina outras tentações? Após ler seu diário, destinou-se a correspondência do dia. Frias contas e cobranças e um fiasco de vivência. Considerava-se tolo. Quem poderia me saber tanto a ponto de enviar-me uma correspondência? Não faço sentido algum. Tolo, pensou novamente. Sentou-se ao piano e praticou a solidão das horas, fugidias tartarugas sem destino, sem causa, sem manifesto que as faça caminhar. Para mim o mundo está dividido em horas, desperdícios e simbolismos. Atravesso tempos vagando de uma boca a outra boca e vejo o homem extinto. Que sou eu. Que ora sinto. Mergulho de meu andaime de ressentimentos. Considero espetacular minha inteligência, minha perspicácia, meu sóbrio andar tristonho que arma peças teatrais. Mas, no entanto, não há quem me ouça, quem me aborde nas ruas dizendo-se de mim. Não há quem me recorde. Desnecessário sentia-se o homem porque ela não o havia percebido. Por que mulheres vagam? Por que a mulher não quis de mim o espólio que trato? Por que se rebela a mulher a quem me devoto? Volto para casa imenso de amarguras infinitas. Vontades em tantos desejos que me corrompem e que ninguém me saiba nesse instante. Observo meu calibre rígido e enervado. Imagino cenas. Eu as crio de forma obscena e agora ela me quer. Rasteja sóbria a mulher de horas atrás. Aquela peste que olhava nos olhos e não envergava em mim o que sou. Fortaleza urgente de necessidades. Não sou óbvio, mulher. E, recolhido em meu quarto, desnudo do mundo, minhas mãos são todas as mulheres que desejo. Eu as enfraqueço. Eu as estraçalho e faço de todas elas um ejacular de fracassos e durmo como se estivesse em um altar de todas as santas. Mostro-me virtuoso, devorado de orgulho, equilibrado, manso. Quando, na verdade, atrapalho-me ambíguo. Sou de sexo. Doentio. De brutalidades me visto. Sou apenas um homem em viços de reprodutor.






Image by wezzelicum

03 setembro 2010

darwinistas





My name is Luka, sou Hare Krishna Ishna Ishna, e, convertida em pára-raios, não sou moralista e que Deus salve a rainha.

Tudo depende de mim. Ou não. E hoje acordei de olhos bem abertos. A janela estava escancarada e havia cara de chuva, mas não choveu e agora faz sol, amigo meu.

Sonhei muitas coisas durante a madrugada. Fui pra cama por volta da meia-noite, assisti a um filme porcaria clichê, fumei um cigarro cantarolando baixinho a marcha do soldado desconhecido, pensei em sexo algumas vezes multiplicadas de outras vezes e decidi, no auge da sensatez, redigir uma carta. Com as mãos. Veja bem a modernidade.

Eu tenho papéis de carta. Pego de um e escrevo. Cito a cidade, dia e ano. Começo a carta. Escrever carta não é fazer uso de eu lírico. É deixar bem claro que não fora em vão a invenção da escrita. Escrevi mais que presidiário em filme estadunidense. Letras e mais letras para dizer fim. Será preciso tanto? Não podemos pegar um atalho?

E me apaixonei. Foi perfeito. Cara a cara, eu e minha sombra, minha preguiça perversa e agradei até dizer basta. Conversamos por dois minutos e eu poderia dizer "Chega! Estou convencida. Há gente demais na China e faço sexo tão lento que rasgo a roupa e te mastigo com os dentes". Desculpa. Falei em sexo novamente. Santa cabeça cheia de porcaria. Eu deveria assistir mais filmes do Gordo e do Magro. Talvez seja a cura.

Pausa para o orgasmo.

Um movimento seu e já entro em estado de nirvana ou será mesmo um pseudo-ataque cardíaco? Satisfeitos, nos deitamos um de frente para o outro e olhos mentem. Um sorriso idiota de contentamento corrompe nossas caras e, cara, repete a dose porque sou kármica e nunca me satisfaço. Água não mata minha sede. Outra vez ele se justapõe aos meus quadris, diz que diz, suspira, beija e eu penso em ursos polares, fotos em Polaroid e existe vida em Marte? Mas ele não me deixa pensar. E a gente se confunde. Dois meridianos cruzando o mesmo ponto, matéria-prima da mesma origem, santos darwinistas mordendo línguas. Outra pausa, orgasmo protegido e você têm erva daninha?

Acendemos.
Oremos.
HORA DO SERMÃO.

Falamos de amor, carros estrangeiros, poças d’água, cargas d’água e, de novo, meu corpo é seu. Não canso de me dar. É o conhecido livre arbítrio.

E agora se faz tanto barulho. A cama está rangendo e nos atiramos na superfície nivelada que nos equilibra. Em outras palavras, orgasmo no chão e ele orgasmo na cara.

Deixo o quarto tonta de querer. Porque há tréguas e uma batalha não deve ser travada de uma só vez. Abro a geladeira, penso no unicórnio que sempre atrapalhava a volta pra casa (Uni deveria morrer). Geléia, torrada, a vida de tanta gente é uma verdadeira desgraça e me sinto egoísta outra vez. Uma música, ele me persegue e voltemos ao caos de nossa espécie. Agora será a minha vez. Salto o trampolim em feminilidade, educada feito moça recatada, escandalizo os móveis de casa. Outro orgasmo gera energia e, catalisadores que somos, nos amamos e servimos a sede um do outro.

E sonhei muitas coisas durante a madrugada. Sonhei enquanto olhava sua cara amassada no travesseiro e escrevi uma carta à luz da luminária em forma de cone. Assisti filme clichê e te roubei de você. Rebelados representantes da nova era, nos beijamos sufocados e travamos outra luta que não se acaba e, a cada hora que passa, nos unimos mais. É a tendência de nossa raça.

Oremos em silêncio. Deus está em casa.