30 dezembro 2010

novela, novelo, todo enredo





Final de ano é igual fim de novela. Alguns morrem, outros fogem, alguns se casam e, com sorte, algumas mulheres ficam grávidas. E, entre vivos e feridos, estamos aqui, tentando continuar, tentando escrever, vencer (ainda não sei bem o quê), estocando comida para os dias de inverno e fazendo dieta para os dias de verão. A pergunta que permanece em mim sempre que um ano termina é: E aí? O que aprendi? Você já parou para pensar nas lições de casa que não fazemos? Nas quebradas de cara? Nas necessidades que nos regem e nunca nos protegem de estar, de vez em quando, meio de mal com tudo? Há lições demais e nossos cadernos não possuem tantas páginas. Penso desta forma e permaneço tentando viver um dia de cada vez. É de praxe que se escreva algo sobre o ano que está terminando, felicitando amigos pelas conquistas, desejando força, paz e saúde pra continuar. Eu não poderia deixar de escrever. Não poderia ficar de fora e silenciar. Não sei há quanto tempo o blogue afeto literário está ativo ou se sou eu quem estou na ativa. Sei que escrevi muitas coisas e pude compartilhar com pessoas de vários lugares e diversas opiniões. Ingenuidade dizer que aprendi algumas coisas? Ingenuidade dizer que faço questão de não aprender outras? Há coisas que faço questão de não aprender. Não quero me tornar certa ou exata feito relógio suíço. Não pretendo escrever centenas de livros ou passar a vida inteira trancada e lendo histórias. Quero viver. Assim como você. Assim como a mais simples pessoa que mora onde não mora ninguém. Sempre penso nestas pessoas. As esquecidas, as tristes, as envelhecidas. Que seja por sofrimento ou qualquer outro motivo. Penso nas pessoas que perderam familiares e sofreram. Pessoas que perderam suas casas ou seus motivos para continuar acreditando. Penso na senhora que viu sua neta morta em um terreno baldio (desagradável, não?). Mas é a vida. Novela a cores que não diz o lugar exato em que o raio irá cair. Mas ele cai. Com ou sem fé em Deus, estamos todos no mesmo barco. E que não sejamos náufragos de sentimentos. Que saibamos aceitar o que há de vir. Aprendi que não posso dar passos tão grandes. Aprendi também a quebrar a cara com mais elegância. Porque não deixo de ser gente e sonhar e ainda querer sentir o que nos é humano. Vou continuar errando, escrevendo, lendo, vivendo? A resposta é sim. Ou não. Porque todos nós iremos continuar. Até os que partem também continuam. Em lembrança ou memórias. Como em final de novela. A vida continua e surge a história seguinte. A gente não estanca.






Feliz Tudo.

E desejo paz de colher cheia
E toda felicidade clichê
Que é pra todo mundo saber que ser clichê é bom.


Beijo para todos.





29 dezembro 2010

virginianas




Canto alto música revoltada na beira da estrada. Parada obrigatória pra mulherada mijar. E mijar é feio. Diga urinar, baby. Eu já disse que não gosto de ser chamada de baby. Para com isso que todo gay gosta da palavra baby. Assim como todo gay gosta de tarô. Já percebeu? Sim. Eu já percebi. Todo gay joga tarô ou lê palma da mão ou prevê futuro em borra de café. Gay de verdade gosta de fazer crochê, falou a Ana. Falando tudo sem pausa. Você faz crochê? Esbarrei na fala da Ana pra ela parar de me açoitar os ouvidos com suas histórias. Esquece isso, Ana. Além do mais, qualquer pessoa faz crochê. E conheço muita gente que gosta de tarô. Ela ordinária ri e olha minha cara e me tasca um beijo de carinho. Acendo um cigarro e o sol chia forte no asfalto. A Ana faz questão de dizer que sou lésbica. Diz na frente de todos que é pra todo mundo saber que sua melhor amiga pode ser aceita por seus amigos como se fosse normal. Eu a deixo falar o que quiser. Encosto o corpo no capô do carro e vejo a mulherada no meio das árvores e arbustos. Uma delas foi correndo lavar as mãos no rio. Sorte ter parado aqui, perto deste rio. Onde vai dar? Não sei. Só sei que desce. Todo rio desce, Ana. Nunca vi um rio que sobe. Você fala muita porcaria, Ana. Ela limpa a cara toda com lenço umedecido. Limpa a cara e olha pra cima como se caísse água do céu. Por que não vai ao rio e lava essa cara, Ana? Vou nada. Quero ficar aqui com você. Você canta bem. Canta mais alto. Canta música pra mim. Vou cantar aquela que você gosta. Ainda ouve Dolores Duran? Ouço sim. Fui criada ouvindo as músicas que a mãe ouvia. Aí eu ouço até hoje. A Ana encolhe o corpo todo quando eu faço pergunta sobre as coisas dela. A Ana fantasia comigo. O tempo todo. Mas não diz. Marcou viagem com a mulherada da igreja e me convidou pra dirigir. Ela sabe que não gosto de igreja. Nem rezar eu sei. Deus me causa urticária. Imagina um bando de mulher na praia, algumas rezando, outras falando mal das que estão rezando e a Ana organizando tudo: Toalhinha de piquenique, guardanapo, e traz comida pra todo mundo e ainda traz criança. A Ana poderia ser santa senão fosse tão boa. É bondosa demais. Tão boa que eu deixo que ela acredite no que quiser. Até no olhar dela me querendo fingindo que não me quer. Eu canto, Ana. Qual música você quer? Ela vem corada saltitando dizendo a música. Sou vizinha da Ana desde que éramos crianças e sempre fomos assim, grudadas. A Ana usava frauda e eu cuidava dela. A Ana foi namorar menino sacana e eu fui atrás dela pra ver se o cara se comportava. Eu tomei conta da Ana até agora e não seria hoje que eu a largaria com este monte de mulher rezadeira. Não gosto de dizer à Ana que ela se deixa envelhecer antes da hora com essa coisa de andar em igreja com um monte de mulher que só reza e nada mais. Dou umas fisgadas pra ela tomar jeito. Ana, por que não veste outra coisa? Vamos sair com outras pessoas, vamos ao cinema, te ajudo a arrumar namorado. Vamos, Ana. Ela sempre diz que não pode ir. E até as roupas são sérias demais pra ela. Não sente calor com esse vestido? E a Ana corre e veste o que mando. A gente se confia demais. Por isso eu aceitei dirigir pra esse monte de mulher religiosa em pleno feriado. Porque ela pediu. E eu canto. A Ana diz que anda numa fase pra lá de MPB. Você canta? Canto. E a mulherada mijando na beira do rio e eu ali na beira da estrada cantando pra Ana. Ela me olha enquanto canto e meu mundo se completa. O mundo inteiro é um círculo sem defeito ou falha. Se isso não for amor, não sei nada de nada. A Ana finge não saber, mas entende muito bem o rumo que tomei. E eu entendo o caminho da Ana. É mistério sempre o que nos comove. Se o que sinto é descoberto, talvez a Ana tome susto. Talvez fique com vergonha. E eu não vou saber viver sem a Ana por perto. Ela me olha com vontade antes de entrar no carro e diz que sem mim estaria perdida. E eu acredito ser belo amar tanto um bicho do mesmo aspecto. Espero apenas o dia em que nós duas, após orgasmos e Altemar Dutra, possamos rezar juntas nossas ave-marias e nos beijar loucas e abertas de ternura.











Image by clara

27 dezembro 2010

1/3 de homem






E o ano parece não querer chegar ao fim.
Quanto mais eu ando, lá está ele, parado feito poça d’água.
De queixo caído, ele zomba de mim.






Sérios problemas causam sérios males. Por isso sempre ando protegido. Figa, arruda, pé de coelho e ainda me pego rezando por tudo quanto que é canto. Louco? Não. Não sou. Sou homem. Posso dizer que eu seja um pouco lunático, mas, por via de minhas razões, me defendo dizendo que estou sempre ocupado. Ocupado e completo o gentil mentiroso. Faço o que quero. Vou à lua, volto pra casa, como com as duas mãos e vou à missa ereto pelas meninas que cabulam suas perninhas por baixo de suas saias. Homem é assim. Minha mulher diz que não. Minha mulher nunca tem razão. Aliás, nem mulher eu tenho. Por que devo seguir padrões? Nunca me casei. Vejo hoje meus amigos casados e infelizes. Engraçado é que também sou infeliz. Mas não sou casado. Fato que me salva. E o que me salva também me condena. Por que devo querer salvação se nada fiz? E hoje penso nos planos. Os tais falecidos, natimortos, esquecidos planos. Eu tenho vergonha de lembrar que não realizei metade da parafernália que prometi cumprir. E, como sou meu próprio ditador, comigo o sistema funciona assim: Finjo para não ter de responder questões e reinvento situações para soar melhor meu contralto digno de desafino. E quer saber mais? Sei que você também sente vergonha. Chora sozinho? Sente calafrio? Anda na ponta dos pés quando todo mundo dorme e só você fica acordado esperando esmolas da noite que sempre chega ao fim? Somos pele da mesma estirpe, rua de calçamento trapaceando o caminhar dos mitos e digo mais outra coisa que talvez doa aos ouvidos: somos pólvora do mesmo cano e nossas ameaças de guerra não saem do engano. E, agora que nos tornamos íntimos, não vejo motivos para mentir. Ditadores de regra falhos, luz queimada na hora do salto e um bando de abutres mandando a sorte sumir. Somos todos covardes sabotados em festim.

















Image by Federica

22 dezembro 2010

à luz do dia




Abriu os olhos. Sentiu-se feliz por ter acordado cedo. Espreguiçou o corpo na cama e levantou-se de forma tão veloz que chegou a sentir uma breve tontura. Sorriu. O corpo está desacostumado. Ele não aguenta movimentos bruscos. O sol despontava amarelo incandescente por uma das janelas. E ela acordada lentamente começava a funcionar. Que dia é hoje? Que dia foi ontem? Que diferença faz? Caminhou até o banheiro, urinou despreocupadamente, olhou-se no espelho. Estava bonita ainda após tantos dias. Escovou os dentes e lembrava-se de repetir os movimentos para frente e para trás lentamente e não há necessidade de força, pois as cerdas limpam os dentes sem que seja preciso esfregá-los como se esfregasse o chão. Alarmou-se. Mas é claro que devo estar feliz. Acordei cedo e posso então fazer tudo mais cedo antes que ele acorde. Ele ficará feliz ao acordar e perceber que estou pronta. Estarei limpa e, feliz de sorriso brilhante, anunciarei que a casa está limpa e eu não ficarei reclamando do tempo, da falta de tempo, da perda de tempo. Estou aliviada. A casa não estava suja, mas ela, com suas manias de limpeza e tão perfeccionista, precisava sempre do excesso para acreditar que a realidade era a mesma que observava. Tomou café ligeiro feito gente que viaja de ônibus. E não fumou. Hoje não fumarei pela manhã. Não ainda. Vestiu um colorido vestido de casa. Precisava estar leve para a limpeza. E disposta. Por isso não fumaria. Mas, assim que eu terminar de limpar a casa, vou me sentar relaxadamente e fumarei um cigarro. Será o melhor cigarro já consumido no mundo. Estarei em paz. A casa limpa. Eu estarei limpa. E ele irá acordar e ver que tudo está feito e eu estarei pronta. E começa a limpeza. Vãos e pisos e retira bem a poeira da mobília e preciso mudar de lugar este tapete. Ele já não combina mais com a sala. Carregou o enorme tapete para fora de casa e passou a tirar a poeira do tapete e que mania besta a gente tem de acreditar que o sol é bom para os tecidos. Colocou todas as almofadas ao sol. E também as camisas. E o divã. Encheu um enorme balde com água e muitos produtos de limpeza. A casa já se sentia limpa. Ela já se sentia nítida. E ele ainda dormia. Tentava limpar tudo sem fazer o mínimo ruído para que ele não acordasse antes. Era preciso mais tempo. Agradecia contente por ter acordado cedo. Não entedia como poderia ter passado tanto tempo presa à cama dormindo sonhos desvairados deixando de lado sua vida ali tão acordada feito soldado em vigília. Mas não queria pensar. Limpava, movia-se, subia e descia degraus. A poeira se dissipava, mas nunca completamente. Lembrou-se de ouvir alguém que dizer que a poeira é composta por partículas da pele que se desprendem do corpo. Sentiu náusea ao saber do fato. Mas não hoje. Que seja poeira de carne humana de todas as pessoas que passam por minha casa. Eu não me importo. Deu de ombros e passou a limpar mais frenética. Limpou armários, esfregava o chão como se tirasse nódoas das roupas dele que tanto sujava as camisas e não se preocupava se ela conseguiria ou não tirar aquelas manchas potencializadas com o passar dos dias. Sempre que algum pensamento a invadia, sacudia a cabeça para evitar que algo a desviasse do trabalho. Preciso limpar para quando ele acordar e para poder fumar um cigarro e observar a fumaça desenhar no ar meus alívios de estar limpa e em dia. Limpava, erguia-se, suava, mordiscava a boca por dentro. Sentia gosto de sangue na boca ao morder um dos lados da língua. Quis gritar. Mas não o acordaria. Estava tudo pronto em sua mente. Levaria seu café na cama e ele sorriria satisfeito e ficaria surpreso com a atitude dela. A vagarosa era talentosa enfim. E limpou mais ao vingar dos pensamentos. Limpava janelas, lustrava mesas e cadeiras, tudo brilhava límpido e a lavanda do produto de limpeza era suave e deixava a casa tão perfeitamente alva. Não sabia dizer quanto tempo, mas, enfim, havia terminado. Preciso acordá-lo feliz para que ele fique feliz e tomará seu café e verá que sou feliz. Somos todos felizes. E fumarei meu cigarro esvaindo descanso de meus lábios e ficarei mais feliz porque ele estará feliz assim como todos deveriam estar felizes. Preparou o café. Bandeja ornada de pães, suco de laranja, leite e uma fatia de bolo. A casa estava tão perfeitamente limpa. A bandeja estava tão odiosamente organizada. Ele ficaria feliz. Subiu as escadas e seus chinelos quase deslizavam sobre o piso limpo e ofuscante. Abriu a porta do quarto onde ele dormia, o único que ainda precisava ser limpo. Mas como poderia limpar se ele ainda dormia? Fingiu não se incomodar com o medonho pensamento de um quarto sujo em uma casa limpa. Mas não estava sujo o quarto. Ela o havia limpado ontem. Mas ontem não é hoje. Ontem não é lugar algum. Moveu-se para abrir as cortinas de forma que a luz não o incomodasse ao abrir os olhos. Seria apenas uma branda luz do dia para dizer que há vida e que ela já sorria enquanto ele ainda dormia. Descansou a bandeja em um baú perto da cama e apoiou-se sobre ele para acordá-lo. Acorde. Já é dia. Ele diria da alegria por vê-la acordada e tão feliz. Ela diria que felicidade estar acordada para vê-lo tão feliz. Mas o corpo inerte não sorria. A boca cerrada não dizia. As mãos fechadas não se abriam e o coração não ritmava vida. Finalmente o horror que faz ruir os sonhos. Ele estava morto enquanto eu pensava em limpar ladrinhos. Ele estava morto enquanto eu me ajoelhava para remover manchas do piso. Ele estava morto enquanto eu desejava que ele dormisse até que tudo estivesse pronto e eu faria seu café e traria à cama e ele comeria feliz e depois saltaria para o piso que agora está tão limpo e o sol faz brilhar a casa inteira. Ele está morto e eu dormi a vida inteira. Ela descansou. Observou a bandeja e o café que não mais fumegava. O suco esquentava. O pão endurecia. Tudo se esvaía. A mulher não poderia terminar infeliz após ter acordado cedo. Ela precisava celebrar a limpeza. Celebrar a urgência que a fez tombar da cama expressiva e ávida por fazer algo diferente. Ele estava morto, a casa estava limpa e ela, como se fosse feliz, desceu as escadas, caminhou até a varanda e tranquilamente fumou o primeiro cigarro do dia. Tranquilamente ela fumou enquanto ele morria, a fumaça torneava o tempo envaidecida e a casa excessivamente reluzia.







Image by Ainsworth

18 dezembro 2010

fio da meada





A primeira vez que a vi eu estava no fundo do poço. Sentia-me mal, deprimida, não enxergava solução alguma para meus problemas e pensava até em fazer o tal concurso para o Banco do Brasil (Salve Caio Fernando Abreu). Eu estava ruim mesmo. Já sentiu como se você fosse a pessoa mais azarada, triste e desgraçada do mundo? Eu já. Sei exatamente o que é sentir-se a pessoa mais azarada, triste e desgraçada do mundo. Então decidi vê-la. Seria minha última tentativa antes de entregar-me à bebedeira e à luxúria desgarrada. Quisera eu ter feito isso ao invés daquilo. Percebo agora que o homem perde tudo quando deixa para trás seus princípios. Os meus nunca foram tão virtuosos. Eu queria viver, aborrecer, usar, esbanjar, envelhecer e, finalmente, me tornar adubo para uma árvore frondosa. Todo cemitério tem árvores. Eu havia perdido todas as esperanças. Fugi de todos os ensinamentos da igreja. Mas eu não estava procurando o diabo. Ele já estava comigo. E não era uma tentativa de entrar no inferno. Era apenas um pontapé para chegar mais rápido. Uma coisa é certa: Se me apego ao que aprendi desde criança não saio mais de casa. Todo dia é uma prova de que me deram o mundo todo torto e enfeitado pela visão católica das coisas. Cresci assim: Católiquinha, menininha, medrosinha e uma grande abobrinha que pensava muito em sexo. E, por falta de visão, acredito eu, calcei sapato e fui dar com ela. Encontrei o cartão dentro de um livro, telefonei e marquei hora. E fui. Ao chegar ao local, senti que talvez fosse hora de voltar, desistir, buscar outro caminho. Talvez fosse hora de me tornar crente do tipo que nem assiste TV porque é pecado. Mas eu já estava ali, frente à casa, que era amarela e azul, portões grandes, carro na garagem, jardim imenso cheio de damas da noite, jasmim, petúnias, cães, pássaros e havia enormes janelas e eu não poderia mais voltar. Eu havia me tornado o que anda na boca do povo. Uma versão moderna de Macabéa (Pessoas gostam de Macabéa só por que Clarice disse não gostar? Pessoas gostam de Macabéa por que é o personagem mais famoso de Clarice? A nordestina desgraçada faz sucesso porque é feia, desconcertante, triste e todo mundo adora dizer que entende personagem complexo. Mas ela não é complexa. É apenas uma mulher que sofre e morre no final das contas). Eu penso demais. Este é meu problema. E, por causa deste pensar é que estou aqui de cara com a casa da mulher que provavelmente vai falar muita bobagem e vou sair daqui me sentindo pior do que cheguei. Campainha, empregada, sala, mulher de vestido longo e sorriso bem grande, pergunta meu nome, vai lá dentro fazer não sei o que e volta. Aí ela abre a boca:

― Você é de peixes. Tem um filho. Está sofrendo. Seu pai bebia e você foi criada por freiras enquanto sua família se refazia. Você casou. Mas não foi feliz. Vejo um amante. Sim, você teve um amante. Homem forte, porém não a satisfez. Você é compenetrada e gosta muito de ler. É muito sábia.

Espantada, eu a segui por um imenso corredor e chegamos a seu consultório esotérico. A mulher, que cheirava à lavanda em excesso, me mandou sentar, sentei, disse para eu me concentrar, me concentrei, pegou um monte de cartas, abriu tudo em leque e me mandou escolher algumas. Prontamente eu escolhi as cartas e ela foi falando o que via.

― Vejo um homem forte.
Forte Forte ou forte forte?
― Vejo que este homem está no seu caminho.
― E de que lado ele vem?
― Você ainda não o conhece.
― Rico?
― Muito.
― Poxa... Eu não queria homem rico.
― Espera. Eu vejo. Ele entrou em processo de falência. Virá até você e pedirá ajuda.
― Pobre assim? Não quero homem dependente de mim, não.
― Vejo que ele pedirá seu amor. Não é por dinheiro.
― Entendo.
― Mas não espere grande coisa. Tenha paciência com a vida. Tudo vai se ajeitar.
― Entendo de novo.
― E há um bom emprego esperando por você.
― Entendo mais uma vez.

Entendi tanto que acabei encontrando o fio da meada. A tal mulher falava exatamente o que eu esperava ouvir. E como é bom ter alguém que trace sua vida através de cartas de tarô e diga que tudo será perfeito. E a mulher continuou a ladainha e eu passei a sentir medo porque, além de cartomante, a mulher era vidente de situações passadas. Como ela poderia saber tanto de mim se mal abri a boca. Eu apenas disse meu nome completo. Só o nome. O nome completo. Um sino de proporções devastadoras soou dentro de minha cabeça. O sino badalava Google, Google, Google. Assim, bem alto. Aí ouvi um click que clica na mente de gente burra como eu. Basta digitar seu nome no Google que sua vida pode (ou não) aparecer num piscar de olhos. Não existe mais essa história de segredo. Todo mundo sabe de todo mundo. Arrasada, voltei para casa. Não fui atropelada, Clarice. Rindo-me de mim, pensei: Quando foi que me tornei tão medíocre?

O tempo passou e nunca mais vi a cartomante. A depressão sumiu. Fiz concurso, tenho emprego e estou bem. Ou quase bem. E foi preciso que eu pagasse 80 pratas de meu bolso furado para saber que vida é traça, que nada é mágica e que de mim, ilusoriamente, cuido eu.






Image by Luis Serrano

16 dezembro 2010

a caixa registradora






Money, it's a gas
Grab that cash with both hands
And make a stash
New car, caviar, four star daydream
I think I'll buy me a football team.






É este o livro. Arremessou o objeto no balcão e derrubou tudo quanto foi coisa. Calendário, maquineta de cartão de crédito, cartões de presente. A vendedora abismou-se com tamanha falta de educação. A mulher franziu a boca e depois sorriu como se pedisse desculpas à vendedora por seu estabanado ato trágico.
─ Vai levar?
─ Vou.
─ Dinheiro ou cartão?
─ Dinheiro.
Vou levar o livro a dinheiro. A mulher começou a catar os trocados em sua bolsa. Enquanto isso a vendedora se adiantou e passou a atender outro cliente. E Isadora ainda catava dinheiro. Tanto bolso e eu só me perco, pensou. E quanto mais pensava, mais pensava e mais pensava. Não parava de pensar Isadora. E nada de dinheiro aparecer. Enquanto isso a vendedora passou a atender outros clientes e passava cartão e Isadora sentiu saudade do velho barulho da caixa registradora. Aquela bem antiga mesmo que se abria e fazia plim e trim e tinha uns grampos pra prender as notas e era cor de cobre. Lembrou-se de sua vontade de organizar o dinheiro que o homem da mercearia depositava fora de ordem quando ela e sua mãe iam às compras pela manhã. Eu sempre quis organizar as notas por tamanho de quantidade. Na verdade, meu sonho era ser bancária. Por isso eu adorava jogar banco imobiliário com meus amigos. Viviane, Nice, os irmãos da Viviane e outros garotos da rua. A gente jogava tanto que perdia a noção do tempo. Chegava tudo quanto era mãe chamando todo mundo pra ir tomar banho e jantar. E nada me incomodava. Aliás, eu me sentia irritada por não conseguir comprar tantas ruas quanto meus amigos e sentia-me envergonhada quando um dos irmãos da Viviane dizia que eu estava amadurecendo. O menino (que era mais velho que Isadora) ficava olhando o corpo da menina que crescia mais que as outras. Eu sentia vergonha. Nice era sempre a mais astuta e comprava tudo. Ela e a Viviane. Parecíamos jogadores de poker intercalando olhares entre os parceiros. O ruim é que todo mundo cresceu e até o banco imobiliário mudou. O tabuleiro não é mais como era antes. E as notas de dinheiro são feias. Sei disso porque tenho um sobrinho e ele joga com seus amigos. Jogam, mas não demonstram vontade. As crianças de hoje estão ficando velhas e chatas. Insuportavelmente velhas e chatas e cheias de pretensão. No meu tempo não era assim. A Nice tinha lá seus problemas. A menina se achava bonita demais. Ela tinha o cabelo louro meio acinzentado e o rosto era lindo. Ela se exibia o tempo todo e isso também me incomodava. Mas não tanto quanto me incomoda ver a Nice gorda feito uma vaca comendo pizza na esquina. Eu a encontrei dia desses e mal acreditei quando ela gritou meu nome. Lembro que sorri, falei algumas bobagens para apaziguar meu susto. Nice, que merda aconteceu com você? Quis perguntar, mas nada saiu de mim a não ser palavras que retardam a verdade. Muita gente desanda na vida. A Viviane tá de boa, eu acho. Soube que se tornou advogada, os pais dela morreram (deve ter recebido herança) e os irmãos ainda são deliquentes. Algo de ruim sempre permanece. Nada muda totalmente. Eu não sei bem o quanto mudei. Alguns dizem que sim, que mudei muito, que isso, que aquilo mais. Eu não vejo diferença. Sinto falta de algumas coisas que já passaram por mim. Lembro de um cara que conheci e me fazia ler um monte de livro de crônica. Agora vejo o quanto ele era louco. Toda semana me levava livros. E eu lia. Que mais havia de fazer? Lia e beijava na boca. Lia e ouvia falar de uma guerra na Bósnia (era na Bósnia a guerra?). Lia e beijava na boca e olhava pros lados. Eu sempre fui idiota e sempre gostei de rir mais que o merecido. Eu costumava usar umas roupas estranhas e comecei a fumar no tempo em que algumas outras meninas viajavam pra Disney. Eu nunca quis conhecer o Mickey. Aliás, eu queria o Mickey Rourke. E por mais de nove semanas. Eu ficaria com ele até que começasse a me incomodar. Mickey Rourke teria sido a minha viagem de férias. Mas hoje não. Já reparou como ele está velho e todo remendado? O que acontece com certas pessoas? Eu nunca mais ouvi falar de alguns outros amigos. Parece que todo mundo morreu. Será este o grande mistério? Somos crianças, depois banco imobiliário, depois salto alto e depois o crime da vida de gente grande. Eu não sei o quanto cresci, mas sei o quanto vivi. E livro algum vai medir minha vida. Muito menos o dinheiro que busco. Nem esta bolsa cheia de compartimentos que de nada servem, entende? A vendedora, a esta altura do campeonato, não aguentava mais a cliente tagarela que catava dinheiro na bolsa e falava mais que respirava. E sabe de uma coisa? Não vou mais levar este livro. Se a loja tivesse uma caixa registradora antiga, daquelas que faz plim e trim, eu levaria. Mas, como não tem a tal caixa cor de cobre que faz plim e trim, levo nada. Isadora saiu da livraria coberta de nostalgia e carregou consigo o vago sentimento de que nunca mais voltaria a ser do trem o antigo vagão.








Image by jw miller

12 dezembro 2010

libertinas são as horas da manhã





Era noite e eu precisava ler. Cato na estante o livro que me serve e o poeta zomba de mim. Eu visto cetim, largo a carapaça e detesto o mundo. Ou amo tudo. Ando varando Dias ao pé da letra. A teus pés me comporto, tenho fé em reticências e estreito ligações. Alô de boca em boca. Maligno é ser objeto indireto. Exaustão de calor profundo sou. De curto acesso. A veia salta aos trampolins. Amor não é tiro de festim. Visto prosa e acho engraçadíssimo ouvir gente falar em Érico Veríssimo. Não sofro disso. Tenho um abscesso antigo e saliente. Esta é a posse, a peça, a pedra no meio do caminho. O desconforto. Pedra que entrou de sola no sapato e me fez resistir. Escrevo e leio Cecília toda prosa atuando cantigas. Fala de bicicletas, romanceiro e flores no jardim. Mas sei da cólera que a subestima. E recorto a noite ao vapor do frio. Frio é nítido, colóquio é desafio e urgência é bandeira antiga que afunda meus navios. Bandeira gasta de traça e caça. E sou de virgem ou qualquer outro signo. Sei lá de mim. Retrato-me no espelho e versam poetas libertinos. Vaidade é a nova hora e medo é desconcerto. Se você não me entende, ao menos esteja prestes. Somos todos pestes. Repentinos e desconcertantes. Olho seu poema pela quarta vez. Ainda não sei bem o que devo saber. Terá segredo o que diz a palavra sem querer? De cetim em festim gera a vida minha voz. Volátil feito álcool que embriaga velhos iludidos às 3 da manhã. E visito de novo seu poema. Ainda sem entender. Vai ver é assim: Entender faz sumir o sentido. Então não tento. Abandono seu livro antes que ele me consuma. Em suma, sou fugaz. E não sou capaz de usar palavra simples que diga isto e mais isto com o dedo esticado na ponta do nariz. Tenho fraco por correr riscos e digo que loucura é fardo de qualquer um. Mas qualquer um não é todo mundo. Um milímetro no gatilho do tempo ou minutos de intervalo na programação. Consumindo castigos e lendo versinho de rima intercalada volto ao livro. Ao pé da letra, caducando malabares, releio humana meus escritores. Invejo suas vidas, seus amores e suas saliências verborrágicas premiadas com louvor. Invejo tanto o que leio que escrevo. Gloriosa concepção a literatura. Mente mimeticamente o belo anjo caído à vida. E tudo aquilo que criamos viciosamente nos cobiça.








Image by Trixis

06 dezembro 2010

um gato entre os pombos







Edição 43 do site escritoras suicidas.
E eu inventei de estar lá.


E, através do mundo virtual (Este que muitos falam mal, mas estão todos aí, conectados, vidrados, viciados e coisa e tal), conheci Neusa Doretto (poeta que escreve o blog Poesia Rápida). N. Doretto também tem seu espaço no escritoras suicidas. Eu recomendo.





E adoro este título (Um gato entre os pombos)
Livro de Agatha Christie.









É isso.
Um abraço para todos.
E um beijo especial para o Papa e o Rei da Noruega.
















Agradeço à Mariza Lourenço pelo convite.

05 dezembro 2010

raro amor





Escritores gostam de escrever histórias de amor.
Eu não sou escritor. Sou malabarista.
Minha vida pende em equilíbrio
Da primeira à última hora do dia.





Escrevo com medo de que você me leia. Tenho certeza que irá pensar que estou surtando, chutando barracas ou morrendo de sede frente ao poço cuja água transborda no piso da casa. Escrevo comedida de palavras e cheia de receio. Mas medo não combina comigo. Assim como passado não combina com ninguém. Os grandes poetas acabaram com tudo. Destruíram minha fé. Leio freneticamente a obra de Baudelaire. Flores não são perfumosas desde que você partiu com sua cara lavada de quem busca outras guerras. Eu não poderia impedir que você fosse. Agora eu conto tempo até o próximo outono quando, por fim, eu me desfizer em folhas e, talvez, quem sabe, com muito azar banindo a sorte, você olhe para trás e queira novamente a mulher que eu era e que já não sou mais. Fantasmas seguem outros rumos. Eu já gastei minha artilharia. A gasta pólvora de seus artifícios não mais me sacia. Cortejo outro tempo verbal e desculpa por não tê-lo avisado, em bilhete ou carta de despedida, que um dia, raro amor, eu também mudaria. Afinal de contas, somos ou não destilados da mesma refinaria?








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02 dezembro 2010

bagatelas






Nada disso tem moral
Nem tem lição
Curto as coisas
Que acendem e apagam
E se acendem novamente em vão.


(Frejat e Adriana Calcanhotto)




O dia começou bem. Dois alienígenas fantasiados de pintores de parede invadiram minha casa. Decidi pintar um cômodo e o teto da sala maior e também o teto da varanda que dá acesso à rua, ao mundo, às ilusões. Sorri aos pintores, embora ardesse em mim uma necessidade de fuga. Quer mesmo esse tom de azul, senhora? Sim. É este o tom de azul. Incrível a necessidade que temos de manter contato um com o outro. Não poderíamos ficar todos em silêncio? Mas não. Precisamos falar, nos exibir, travar comunicação e esbanjar nosso senso humanitário. Este pensamento me ocorreu ao encontrar uma antiga conhecida em um shopping da cidade onde moro. Ela vinha que vinha toda tatibitate. Felizinha e contentinha, a mulher falou a respeito de seu doutorado. E contou toda a história sem que eu perguntasse absolutamente nada. Falou por 15 minutos. E eu suportei aquela felicidade forjada. Foram 5 anos para terminar a graduação, 2 anos para o mestrado e agora mais 4 anos concluídos e sou doutora. Regurgitei entusiasmo. Que felicidade, não é? Agora veja quantos anos de sua vida você perdeu fazendo o contrário do que queria apenas para agradar sua família e dizer que recebe contracheque gordo. Que glória. A mulher me olhou espantada como se fosse novidade o que eu acabara de dizer. Senti tanta euforia por exterminar a falsa alegria da cidadã que decidi tomar sorvete de açaí. Eu não gosto de sorvete de açaí porque me remete às pessoas que frequentam academia de ginástica e ficam malhando seus corpos por horas a fio enquanto se sentem extremamente infelizes. Corpo são, mente estraçalhada. Não entendo as pessoas. Mas sei que cada um tem o que merece. Alguns conseguem até bem mais do que lhes é devido. Eu tenho o que mereço e procuro dividir meu tempo de forma bastante adequada. Duas horas para me sentir totalmente disposta a enfrentar o dia, outras duas para me assegurar de que vesti a calcinha adequada ao meu corpo, outras duas olhando o tempo, outras horas mais pensando em sexo e, nesse ínterim, eu trabalho. No total, devo trabalhar 1 hora por dia. O resto do tempo sou uma mulher comum. Recepcionista em uma clínica de cirurgia plástica. Sou a moça que fica atrás do computador ou ao telefone agendando consultas. Mulheres e homens entram e saem do consultório e eu sou a sombra que atende o telefone. Meus crimes não existem para tais pessoas que passam por mim. Bom que seja assim porque, desta forma, não sofro avarias em minha caricatura. Nessa vida optei pelo anonimato. E sou decente. Pago tudo em dia e escolho cor de tinta para pintar cômodos da casa. E sinto necessidades como qualquer ser vivo. Ontem mesmo, após chegar do trabalho, liguei para ele, o homem que me faz achar graça em piadas de péssimo gosto. Não arredondei o assunto. Disse logo o que queria. Ele me respondeu: Mas assim, de repente? Como de repente? Passei o dia pensando nisso. É de repente pra você. Para mim já levou mais tempo do que deveria. Ele desconversou e veio com histórias de cansaço e ainda disse que hoje dormiria pensando em mim. Eu transbordei em risadas ao desligar o telefone. Homens são engraçados. Querem o mundo. Mas basta que lhes sejam oferecidas bagatelas, agem como se fossem difíceis. Morra você, homem destinado ao lado comum das coisas. Viva sua televisão, seus amigos, seus trajes de menino ainda filho de uma mãe. Eu ficarei aqui olhando as latas de tinta que comprei. Provavelmente vou substituir você por outro consumidor de carne vermelha. E eis que ouço a campainha tocar. Entra o segundo da lista. Estou perfeita na linha de frente. Sorrimos falsamente e não gosto de perder tempo. Aproveito as noturnas horas de meu dia fazendo relinchar outro personagem de meus romances de cavalaria.








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01 dezembro 2010

diacromática





Acabo de pintar as unhas de vermelho. Percebo que borrei uma delas e ouço Tchaikovsky. Nada especial. Mais da metade da população não conhece Tchaikovsky e ninguém faz questão de conhecer. Acredito, então, que não conhecer seja talvez o melhor traje para que se viva melhor. Do outro lado da rua um par de velhinhos caminha como se fosse de vidro. Vagarosos, silenciosos e gentis, os velhinhos estão sorrindo um para o outro e eu investigo olhares. E, vez por outra, descanso minha cara na televisão. Vejo a pseudo-guerra no Rio de Janeiro e penso no homem que amei durante vinte anos. Sinto-me quase triste por saber que ele vai terminar seus dias sentado em uma cadeira de balanço olhando seus netos brincarem, enquanto espera sua esposa trazer seu prato de lentilhas para que ele coma e fique bem alimentado em sua velhice. O fim é trágico. Ainda mais quando nos lembramos do início. Todo início é bom. Assim penso após pintar as unhas. E estou seriamente envolvida com um inseto que, ora pousa na tela do computador, ora pousa na luminária que me aguça a leitura. Insetos devem ser felizes. Eles não precisam dos nós que atamos para sermos isso que somos. E há muito S na sentença. Alguém lerá e dirá que alitero. Que diga. Você tem todo o direito de dizer o que pensa e eu, por minha vez, tenho todo o direito de não querer saber sua opinião. Rebelião? Onde? Em mim? Talvez. Mas há um motivo. Hoje resolvi comprar livros e tive o desprazer de ser atendida por uma vendedora que começava todas as frases com Então. Tudo era Então. Senti a impertinente vontade de saber o que ela finalmente iria concluir (Finalmente Concluir não seria pleonasmo?). Enfim, a que será que se destina? Perguntei a respeito de um autor. A vendedora disse: "Então... este tipo de livro fica na sessão de livros estrangeiros". Na dúvida, peguei o celular e liguei para alguém que poderia me ajudar na escolha do livro. O alguém não atendeu. Por que pessoas estão sempre ausentes? Estarei ausente? Você já parou para pensar quantas emergências deixou passar por simplesmente não se importar com nada além de sua vida que mal cabe em seus pensamentos? No fim das contas, comprei um único livro e saí da livraria feito desesperada. Andei depressa para me afastar do Então. Não suporto gente que começa frases dizendo então. Então o quê? Eu bem que poderia berrar palavrões para resolver de vez meus arroubos. E já estou há mais de 20 dias passando por um processo de abstinência. É uma dieta bastante saudável porque, desta forma, não corro riscos de ter de me socializar. Permaneço incólume como se fosse um baú de uma velha senhora que guarda seus pertences. Sinto-me asseada, controlada, e mergulho de cabeça em um romance que tento escrever. Estou tentando narrar a história de Dora, A Cínica Patriota. Já dei início ao que chamo de esboço. Tenho outro romance na culatra e queria muito narrar a história de um bilhete deixado pela esposa a seu marido. Chamarei de Vice-Versa. Assim como o destino. E, coincidentemente, uma cena de um texto lido ontem se repete enquanto vou à cozinha e preparo leite com café. Formigas transitam no pote de açúcar. Fazem filas. Todas em ordem e eu não me atrevo a colocar as mãos no pote de açúcar. Não incomodo formigas. Na verdade, não incomodo ninguém. A não ser pelo trombone comprado semana passada, vizinhos não podem reclamar de mim. Eu toco trombone sempre no fim da tarde. Grave, agudo, gravíssimo, sério, urgentíssimo estado em que estou. Notas musicais invadem a casa e logo não ouço mais os ruídos da rua. Apenas o trombone. É o que faço para esquecer meus contratos obrigatórios. Torno-me lúdica. Sempre sonhei em me tornar a cromática Amélie Poulain. E hoje estou coloridamente despreocupada. Sento sob a árvore e penso quinquilharias a respeito da vida. Ouço Tchaikovsky e, por um segundo, o tempo é silêncio e não há ninguém por perto. Estou a salvo, estou a mim, estou como sempre quis. Ilha deserta, pacífica, contra  todos os males, observando casais de velhos passearem pela rua e nunca comerei lentilhas sentada em uma cadeira de balanço. Prefiro a fome. Prefiro fingir loucura a me tornar comum. Não serei uma formiga cercando um pote de açúcar. Prefiro ser toda ruim. Ou boazinha e obediente feito um querubim.




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29 novembro 2010

a vaca lambeu o boi



O homem tinha uma quitanda que não era bem uma quitanda. Era uma mercearia. Mas qual é mesmo a diferença entre quitanda e mercearia? Quitanda é lugar onde se vende frutas e hortaliças. Em mercearia, como se sabe, podemos encontrar outros produtos. Tais como: arroz, feijão e a vaca lambeu o boi. Então o homem tinha uma Quitandaria que vendia de tudo. Até cachaça. Mas aí já não é mais quitanda nem mercearia. É boteco. Então era isso que ele tinha. Um boteco que vendia de frutas à cachaça. O lugar vivia cheio de homem bêbado contando vantagem. E mulher também. Mulheres compravam produtos e os homens olhavam as mulheres que compravam produtos e falavam das qualidades físicas destas mulheres que frequentavam o lugar. O homem que era dono do boteco, quitanda, mercearia (por que não dizer Empório?) era um sujeito de cara amarrada e não vendia fiado. Mas era só o que ele fazia. Toda hora alguém comprava algo e mandava pendurar na conta. De arroz a saco de batata. Mas quem no mundo compra saco de batata? Só sei mesmo afirmar que o homem dizia não vender fiado. Mas ele vendia. E, sempre que começava alguma confusão por causa de algum bêbado de cabeça quente, o homem gritava dizendo que botaria todo mundo pra correr. E nunca botava. E quem bota é galinha. Ou não? Com ou sem galinha, o homem, dono da mercearia, nunca fazia da vida o que era pra fazer. Dizia que tinha quitanda, que só vendia a dinheiro, que isso e mais dois tostões daquilo. E dizia que não vendia fiado e ainda encurtava briga de bêbado dizendo que fecharia mais cedo e nunca fazia nada que prometia. O homem não se cumpria. E eu não o conhecia. Parei um dia para comprar dois pacotes de fubá e li a placa proibindo fiado tilintando ao lado de outra placa que alardeava o marketing Quitanda do Almeida. Percebi que de quitanda o lugar não tinha nada. Era um boteco no meio do brejo, cheio de varejeiras, e o homem com cara de besta achando que era dono do mundo inteiro. E aquele bando de bêbados vagabundos observando aquelas mulheres feias comprando misérias para cozinhar suas vidas desgraçadas e sem horizonte. Não vejo beleza alguma nesta história. Por mim nada seria dito não fosse a porcaria da necessidade em dizer que existe homem dono de boteco e que, um dia, não sei como, fui parar lá. Desgraçada mesmo é essa necessidade que tenho de me contar.








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28 novembro 2010

gregos e troianos





Enquanto gregos e troianos morrem, Telma fala ingenuidades. Surge como se viesse de uma batalha de lençóis e sonhos mal passados e inventa de conversar. É uma ameaça ter por perto uma mulher quando tudo que se quer é um pouco de solidão. Eu nem me importo que a cidade exploda com seus milhões de habitantes. Quero apenas ficar aqui, inerte, suspenso e surpreso por ser tão genial como sou. Surpreendo-me comigo mesmo. Na cama, ainda deitado, com preguiça de fazer qualquer movimento, ouço os passos dela pelo corredor. Parece um elefante invadindo a savana e eu sou o caçador. Já imagino o que virá dessa vez. Mais uma conversa a respeito de seus anseios de mulher que, passou pelos trinta, enfrentou os quarenta e agora invade os cinquenta, e sofre ao ver seu corpo cada vez mais flácido. Telma é cheia de frivolidades. Tenho pavor de seus batimentos cardíacos quando deita ao meu lado e dorme feito uma vaca cansada de ser leiteira. Muitos têm razão por optarem pela solidão. Esta mulher de nada serve a não ser fazer ruídos pela manhã quando de mim se despede e volta à noite com seus ares de cansaço porque, segundo Telma, trabalhar é preciso. E ela se aproxima do quarto. A janela fechada esconde o sol. Não quero ver que já é dia. Acendo um cigarro e Telma não suporta o cheiro de meus cigarros. Mas, estando comigo, será assim. Eu fumarei meus cigarros. Ela sempre diz que está comigo porque precisa sofrer. Aliás, ela nunca me disse isso. Eu deduzo por suas ações. Filha de pais separados quando ainda era jovem, complexada e indecisa, Telma nunca soube de si. Considera-se velha aos 46 anos de idade. Telma não sabe de nada. Quase posso ouvir seus seios chacoalharem quando ela abre as cortinas e deixa entrar o irritante sol da manhã. Telma olha para mim hesitante sabendo que, caso reclame de mim, sairei pela porta da frente e nunca mais voltarei. Começa então a dobrar algumas toalhas que tirou do varal. Sinto seu cheiro de água sanitária e detergente de roupas. Ao menos ela é prendada. Ao menos isto. Senta-se ao meu lado, finjo não perceber que me olha, e me envolvo cada vez mais em meu cigarro. Telma não diz nada, mas sinto a necessidade de olhá-la. E vejo a pecaminosa sujeira em seus olhos. Ela acordou e não lavou o rosto. Ainda maquiada da noite passada. O lápis preto escorre envelhecido no óleo de sua pele. A boca enrugada em batom. Sinto asco. Não digo. Ela me sorri e diz bom dia. Pergunta se quero torradas e ovos fritos. Telma não sabe de nada. Não me atrevo a deixá-la saber de mim. Aceno com a cabeça. Positivamente tomarei meu café e voltarei a deitar e ficarei aqui o dia inteiro esperando que ela volte e faça meu jantar. E ela voltará. Telma é dessas mulheres que sofrem por vontade própria. Eu a entendo. Eu a machuco quando ela pede e berro quando ela me interrompe. Hoje sei que haverá sessão de choro após fazermos o que nos é concedido. Ela vai chorar solitária e eu me sentirei esquisito por ter minha mãe abandonada por meu pai e sendo molestada por seu próprio filho.








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26 novembro 2010

lilith oratória





Mulher que se preza finge orgasmo. Nem sempre, é claro. 
Mas palhaço algum faz a plateia inteira sorrir em todo espetáculo.




Mulher de Graça, Ave Maria Descalça, Traça de Homem vivendo à risca do risco da mão de Deus. Respeita mandamentos, tateia pelo chão e rasteja à oração da manhã. Deus, não faça ouvido de quem não sente. Ouça-me uma vez. Falo direto com você. Não gosto de meia palavra e por isso vou direto ao Divino Ponto G. Inventaram que eu tinha tal ponto e que ele me elevaria aos céus como se fosse levada pelas mãos de Zeus que é Deus que é Você. Minha religião é tudo. Da zombaria ao catolicismo esquemático de olhar na cara de um padre e devorar a hóstia consagrada feita de farinha e água. Gosto ruim não é Teu Corpo, Pai. Dizem ser Teu Sangue que recebo, mas, como creio que seja o mais belo dos seres, não pode ser insosso o Pai que me criou tão bem ordenhada filha, mãe e a entidade que sou. Que não sou apenas uma. Sou milhares. Mas duas incorporam minha ladainha. Uma delas, a cética, ladra aos ventos e arranca do tempo mais dúvida para poder dizer que não. A outra, bélica estonteante, tem amante, se declara, fala sozinha e estende a mão a estranhos. A primeira não segue regra alguma, a segunda é estúpida e, através das duas, faço declamação. Deus Pai, concretiza-me poeta de tudo. Que eu fale por Tua Boca, que eu ande sobre Teus Pés e liberta-me desta chaga imunda de ser mulher em mundo de bíblias, arquétipos e tradições. Deixa-me, Senhor Deus, tornar-me Lilith e prometo entregar aos homens meu poder de sexto sentido, de adivinhação, de querer mais que alimenta e pão. Deixa-me Lilith, Senhor, tornar-me santa neste mundo fechado que não tem misericórdia dos entediados, dos abandonados, de meus semelhantes que vagam como eu. Que toda mulher seja homem e que o contrário se faça por feitiço. Que todo sexo seja libertino e que as ovelhas corram loucas no campo de abater. Liberta-me, Pastor. Sou mulher, ovelha, casta, escancarada e louca de viver.





Texto também publicado AQUI.
Inspirado na arte de Fernanda Franco.






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23 novembro 2010

expresso temporário





Expresso





Ele afirmou, olhando pesado em meus olhos, que sou viciada em café. Sorri, olhando profundo no expresso, e guardei minha resposta na ponta da língua que mais tarde beijou a boca da única substância que realmente prejudica minha razão. Amor é um velho estúpido, ângulo agudo, a vértice de toda traição.





Temporário





Relógios se exibem aos falsetes das horas que engolem dias. Saímos o homem e eu. Ele estava decidido, em seu jeans ultra blue e camisa cor de rosa, que compraria o primeiro relógio de sua vida. Seguimos pesquisando em várias lojas qual seria o melhor modelo para pulsar o tempo. Relógios à prova d’água, relógios dourados, relógios caros, relógios baratos. Relógios e relógios e mais relógios. Parecia que no mundo só havia relógios. Tentei persuadir o homem a investir seu dinheiro em algo rentável que pudesse ser dele por muito tempo. Um grande investimento. Um relógio, por exemplo, pode ser seu por 24 horas + 24 horas + 24 horas por muitos dias e muitos anos a fio. Não sei bem se o homem entendeu meu raciocínio, mas o relógio foi comprado, negócio da China fechado, com direito à garantia e muitas regalias. Agora ele tem seu relógio pulsando tempo, dizendo horas, ditando obrigações e histórias. Quanto a mim, não uso relógio. Há séculos percebi que horas fogem de mim. Cansei de agarrar tempo que não me pertence. Porque é fugitivo. Será traiçoeiro o inimigo? E nos despedimos, o homem e eu. Ele levou consigo as horas e eu permaneci, ao dobrar de esquinas, esboçando meu ingênuo sorriso.







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21 novembro 2010

terapêutica





Siga meu conselho. Procure um terapeuta. E um que seja, de preferência, recém-formado. Que tenha fome de ouvir e procurar nó em chifre de cavalo. Entende? Eu encontrei o meu. É homem. Faz dois anos que frequento sessões quinzenais que muito me ajudam a viver a semana inteira esperando por outra sessão. É perfeito. Não tomo medicação alguma porque, segundo meu terapeuta, não preciso. Estou bem. Ele ainda não me diagnosticou, mas já arriscou alguns palpites e, sempre que arrisca, volta atrás e diz que precisamos caminhar mais e buscar mais respostas. Por mim está tudo maravilhoso. Adoro caminhar. E, ao lado daquele homem, subo até escadaria da Penha. Não que ele que seja bonito. Não é. Mas botei na cabeça que ele me ajuda e pronto. Minha cabeça é feita de tudo que acredito. E eu engano o terapeuta bonitinho. Há dias em que invento de chorar porque digo estar me sentindo traída. Ele me passa uns lenços e eu choro de me deitar no sofá e fico feliz com aquele homem olhando para mim com seus olhos semicerrados e sua expressão de Freud Explica. No início pensei que as sessões seriam gravadas como nos filmes. Mas não. Ele sempre anotou tudo. Em papel mesmo. Eu falo e, vez por outra, ele anota e diz que entende muito bem. Ele é tudo. Homem de armadura que fatura de mim 150 reais a cada 15 dias. O consultório dele era localizado na Rua General Osório quando comecei a me tratar. Agora ele atende em um belíssimo empresarial na Avenida Edson Ramalho a dois passinhos do mar. Que alegria é sair de casa, ver o azul do mar, o sol tostando os pobres miseráveis que transitam pelas ruas e entrar no edifício onde darei de cara comigo em uma sessão de terapia. Sento na sala de espera e vejo que a recepcionista usa sapatos apertados que lhe causam inchaço nos tornozelos. Mas nada digo. Cumprimento a mulher com um breve sorriso, sirvo-me de água e sento a ler Marie Claire. Assim deve ser o céu. Música ambiente, aroma de lavanda, poltronas confortáveis e muitos loucos que entram e saem do consultório de meu terapeuta. A janela tem uma bela vista de toda a via litorânea. Posso até ver a África se eu fizer pensamento positivo. E o dia está lindo perolado de um sol forte e nuvens distantes. O mar murmura suas ondas de forma angelical. Como estou feliz por ser maluca e poder fazer terapia com este homem que veste calças muito justas e deixam as partes íntimas muito espremidas e bem volumosas. Tento não olhar, mas é impossível. Ele fica como aqueles bailarinos e suas roupas apertadas. Ele deveria esconder mais aquele troço para que eu não o veja. E olha que não sou a paciente mais louca. Há outras. Devem agarrá-lo. Provavelmente algo mais deve ocorrer. Mas não me importo. Entro em sua sala, respondo que estou bem e sento no aconchegante sofá que me espera. Já fiz de tudo neste sofá. Hipnose, exercícios de respiração, preenchi questionários e minto minha vida a cada quinze dias. Hoje decidi dizer a verdade. Só por hoje falarei a verdade feito um bêbado evitando o primeiro gole. Conto de meus relacionamentos. Mas ele já sabe. Já falamos muito a respeito de tudo e do homem com o qual me deitei algumas vezes. Meu terapeuta não pode dar opiniões. Não diretamente. Mas sempre faz uso da famosa psicologia reversa. Ele me questiona por que ainda me deixo guiar por tal homem quando eu bem poderia ter muitos cavalos mais rápidos e velozes. Por que se envolve com alguém de tão baixa estirpe? Por que ainda se deixa fazer parte da vida de uma pessoa que simplesmente não tem vida? Por que se importa com um tolo que mal consegue sair do lugar? Por que fica a se punir se envolvendo com um mundo inferior ao seu? E por que se preocupa com coisas tão ínfimas quando o mundo é imenso e cheio de outras possibilidades? Você chora sem motivos, mulher. Sacudo a cabeça confusa. Não entendo a fala do interlocutor. Como pode um terapeuta falar com uma paciente dessa forma? Desde quando ele passou a falar comigo assim? Estranho o comportamento do homem a quem sempre menti uma verdade e agora ele me fala como se me conhecesse. Você não me conhece, eu digo. Ele me olha de forma feroz e me manda sair. Sua hora acabou. Pego você às nove. E esteja pronta. E não me venha dizer que não acha certo o que fazemos. Ele então beija minha boca com força e eu saio do consultório congestionada e confusa feito uma girafa em uma manada de elefantes. Mas sinto-me bem. Ao menos hoje ele me tratou de forma diferenciada. Hoje, finalmente, meu terapeuta não me deixou mentir e falou a língua que eu precisava ouvir.







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18 novembro 2010

mundanos





Eu tenho um amigo crente. Ele frequenta uma dessas igrejas de gente que sai pregando o evangelho. Meu amigo prega o evangelho o tempo todo. E eu escuto. Logo, eu deveria ganhar o Nobel, ou ficar isenta de impostos, ou poder entrar de graça em ônibus e cinemas ou ainda ser beatificada. Porque o pote é bem maior que a rodilha. É dia e noite falando dos arrebatados enquanto eu, que não sigo dogma algum, penso em sexo. Ele fala e eu fico imaginando pessoas nuas. Minha cabeça é Sodoma e Gomorra. Tudo junto. E meu amigo prega e eu peco em pensamentos. Fico imaginando diversas posições sexuais. Todas que eu puder e conseguir fazer. Dia desses, enquanto ele pregava a respeito de luxúria e adultério, juro que fiquei excitada. Foi um tanto embaraçoso. Ele falando e eu me contorcendo imaginando uma cena de dar água nos olhos. Imaginei um homem atrás, outro homem na frente e um voyeur atrás da porta. Então meu amigo pregava e eu imaginava toda a cena de estar com dois homens fazendo o que o diabo gosta. Se bem que, em tempos de arrebates e pregação, só me falta que o diabo seja crente também. Não tenho nada contra religiosos. Que fique bem claro. Nada mesmo. Mas não suporto pregação. E comigo é assim, quanto mais intensa a ladainha, mas louca me sinto e não duvide se eu tirar a roupa. Acho que tenho fraco por parábolas. Eu amo os cristãos. Amo de boca cheia. Embora também os odeie. Eles e suas histórias de pecado, julgamentos e juízo final. Meu amigo acredita que realmente será salvo e viverá à sombra do altíssimo. Logo ele que passou boa parte da vida fazendo inferno com os outros. Eu lembro. Meu amigo costumava usar drogas e mulheres. E ainda traía sua mulher com a mulher de seu irmão. Ou seja, tudo em família. E veja só como os cristãos são up to date. Eles pecam bastante, fazem todo tipo de sacanagem, depois se dizem arrependidos e passam a integrar cultos e fazer pregação do evangelho. Ser salva assim eu também quero. Mas, antes disso, quero fazer sacanagem. E muita. Ficar atolada em meus pensamentos perniciosos que vão contra os domínios da boa religião e do comportamento cristão. E agora meu amigo fala a respeito do apocalipse. Eu vou concordando com tudo porque é exatamente no apocalipse que entro em curto. Adoro as histórias de demônios e chifres. E meu amigo continua. E eu sigo fervendo de vontade. E, então, a necessidade fala mais alto. Tiro logo a roupa toda e meu amigo, homem por criação divina, mesmo pregador do evangelho, não conta conversa. Faz o que só o diabo faria. Me come com vontade de que eu seja a mais pura das virgens. E, enquanto meu amigo me martiriza, eu digo amém e mudo de opinião. Pregue o evangelho em mim todos os dias, meu amigo, e salve minha indigna alma da perdição.








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16 novembro 2010

diário bordô



Coitada da Helena Leocata que não gosta do sobrenome que tem. Por muitas vezes, de forma solene, Helena mente se dizendo Alcântara. Mas a mulher sabe que não se pode mentir o tempo todo. Algo sempre nos declara. E é nesta hora, de exibir documento de identificação, que Helena se torna Leocata. Não há como fugir. Sentada desde as onze da manhã (e o relógio já marca cinco da tarde), Helena passa o tempo entre um cigarro e outro, seu livro de bolso e lê e fuma que Benza-te Deus, tu vais morrer, Criatura. Leocata se distrai ao ver o decolar dos aviões. São muitos, tão sortidos, de tantas companhias aéreas. Helena está extremamente familiarizada com a história da aviação. Pensa em Santos Dumont e seus horrendos planadores que mal ensaiavam o voo e tombavam esqueléticos feitos de papel. Eram rudimentares e nada se comparam as aeronaves que ela observa da plataforma onde, sentada, lê e fuma cigarro após cigarro a doce Leocata. Helena sente-se burra. Suspira profundo enquanto pessoas caminham apressadas pelo saguão. Percebe que há mais pessoas tatuadas do que ela imaginava. São diversas tatuagens. Borboletas, luas, dragões, estrelas e todas tão coloridas. Eu poderia fazer uma tatuagem. Em um lugar íntimo. Talvez na vagina. Helena fica ruborizada ao perceber que havia pensado outra palavra ao invés de vagina. Helena não pode ser obscena. E já não quer mais tatuagens. Quer tomar uma xícara de café e comer pão de queijo. Pensa em se arrumar primeiro. Refazer a maquiagem e estar digna e bonita para a noite que chega. Outro avião decola e Helena pensa nas pessoas sentadas em suas poltronas, ao aperto do cinto de segurança, e visualiza a esperança que guia tantos humanos. Enorme estrondo fazem as aeronaves enquanto a mulher se comove ao perceber que sua solidão talvez esteja levantando suspeitas. Quem é aquela mulher que lê o dia inteiro? Ela decide se levantar e fazer algo. Caminha, vai ao lavatório e se arruma perfeita a Leocata. Já recomposta, Helena senta-se à mesa, pede o cardápio e, em alguns instantes, a mulher está sorvendo café e devora fumegantes pãezinhos de queijo na praça de alimentação do aeroporto. Que alívio sente Helena esboçando beleza e regozijo. Trêmulas estão suas pernas de um gozo derretido que apenas ela pode descrever. Sorri e pensa que o tempo traz mudanças. Só é preciso ter paciência. Helena Leocata já não se sente um terrível planador criado por Santos Dumont. Helena é histórica, moderna, gostosa, misteriosa e eclética. Sente-se terrivelmente bem, embora, minutos antes, tenha chorado no fétido banheiro, solitária e entristecida, feito uma gazela abandonada por seu companheiro.




Image by Nachan

09 novembro 2010

fitzwilliam





"A felicidade é um subproduto da função.
Você é feliz quando está funcionando."

(William Burroughs)




São três da tarde. Não. São duas e 58 da tarde. Gosto de ser exato. Estou à espera do homem que virá montar o guarda-roupa que comprei. A vida é tudo isso: guarda-roupa, fogão, trocar lâmpada do banheiro e amar errado. Aliás, amar errado é exagero. Se amo é porque amo e nunca o amor será errado. Ou será? Não sei. E minha narrativa é tão gasta quanto a vida é gasta e sinto falta da mulher que não presta. Eu tenho uma amiga. Éramos amigos. Sempre fomos. Sempre conversei de tudo com a mulher. E muita gente diz que ela não presta. Então faço meus cálculos. Quem desdenha quer comprar. Penso na mulher com tanto carinho que me atina uma vontade que não tenho. Ela é dos ares e eu sou libriano e acho todo mundo um bando de sacana querendo ver o mal do outro. E não sei montar minhas sentenças. E também não monto guarda-roupa. E o tempo chacoalha no relógio e eu fumo outro baseado. Penso em masturbação. Ando tão sem tesão. Nem de mim eu gosto. Uma amiga disse que masturbação é coisa de criança se descobrindo. Prefiro seguir a visão do Burroughs. Masturbação é autoconhecimento. Em um mundo cheio de pessoas extraordinárias e resolvidas eu me masturbo às 4 da tarde. Penso em muitas coisas. E penso na mulher que não presta. Ela me dizia que, às vezes, queria desistir de tudo. Como se fosse abandonar o navio. E eu dizia que também desistiria. Era recíproco até nisso o que a gente sentia. Até a fraqueza era a mesma. Talvez, por termos sido tão iguais, tão inescrupulosamente iguais, não tenhamos vingado. E eu não a amava. Ela apenas me preenchia um vazio que ninguém mais preenche. Cometo o crime de achar que encontrarei perfeição em outras pessoas. Moro em outra cidade agora. Meus amigos ficaram para trás. Fazer mudança é sofrer de parto, sempre digo. Mulheres devem saber como me sinto. Comprei apartamento, compro coisas e vou me estufando. Mas, ainda vazio, minto aos amigos dizendo que estou bem pra caramba. Mas não estou. E me falam a respeito do mal do século. Alguns falam em Jesus e salvação e eu tento ir ao trabalho sem que me sinta enjoado de tanta repetição e mentira por cima de mentira. Nunca fui pessimista. No entanto, sempre quis morrer. Nunca vi um motivo que me fizesse ficar aqui nesta vida só para cumprir tabela. Acho tudo muito chato. Pessoas, lugares e não penso em conhecer ninguém. Estou exausto de falso aperto de mão e sorriso forçado. Eu não aguento mais esperar o cara que viria montar o guarda-roupa. Ligo pra loja e já fecharam. Ninguém cumpre metas. Cumprir metas é tão patético quanto dizer que nunca pecou. Eu peco. Eu rezo. Faço até macumba. Acredito em ideais fajutos e, depois de beber, escrevo aos amigos que não tenho mais e peço desculpas. E escrevo à mulher que não presta. Ela é tão indigna que só mesmo ela para vir até mim e dizer que sente minha falta e que daria a vida por mais um dia ao meu lado. Por isso não presta. Porque é ingênua. E ninguém percebe ingenuidade atrás de um sorriso que finge ser forte. A mulher é como eu. Espera homem chegar, martela pensamentos e acredita que masturbação é pedir conselho ao próprio corpo pra saber que diabo de fome é esta que nos faz olhar o relógio a cada cinco minutos só pra saber se a vida ainda continua ou se alguém vai entrar pela porta trazendo flor ou carta ou chegar de joelhos pedindo perdão. Que ninguém saiba que somos iguais. Que ninguém saiba que também sou ingênuo e acredito em tudo que vejo. Telefono para a mulher que não presta, ouço a risada dela e o mundo fica para trás. Se eu soubesse que seria apenas assim, simples, ligar e me sentir em casa, eu teria ligado outras vezes. Você sabe. Eu teria ligado. Sou homem estilo crachá, que se vira sozinho e não me deixo passar por idiota. Mas, pela mulher que não presta, eu choro por horas. Choro no ombro dela e a gente se completa por sermos humanos. E nem vento entra em meu apartamento. Será que sempre é pedir demais? Vivo pela raiz tudo que a vida traz. Até meu azar de ser quem sou me faz ver que ainda há algo a se fazer. Talvez uma viagem. Talvez uma mentira a mais para esquentar o dia que termina sem rima. Sinto-me esquisito. Típico galã de filme retrô.








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07 novembro 2010

cinderela beatnik





Estou em minha cama. Digna tecnologia a nossa. Eu poderia escrever tudo em papel e deixar palavras largadas ao esquecimento. Mas não. Tenho essa coisa miúda a qual chamam netbook. Mas é apenas um computador portátil. Nada mais que isso.

Verifico minha conexão.

Excelente.

Banda larga é elite? Então não me bando nem me alargo.

Escrevo apenas.

Deito-me nessa cama de madeira e colchão ortopédico. Meu travesseiro é daqueles que se moldam aos formatos. Dizem ser tecnologia da NASA. Para mim é apenas um travesseiro coberto por uma fronha estampada floral. Só.

Estou simplificada desde que aprendi a comer de minha própria colher.

E eu escrevo antes que me venha o elementar adormecer que nutre os mortais. Escrevo para dizer da festa a qual você não compareceu.

Esqueci-me de convidar-te?

Não é perfeita nossa vernácula?

Eu não esqueci. Seu nome era o primeiro da lista. Ordenei que, se porventura, chegasse tal pessoa de sotaque imenso fricativo e pulso forte, deixasse-o entrar.

Sua mesa reservei.

A seiva de todo o manjar esteve servida a você que não compareceu. Meu papo cinderela tagarela seria dirigido a você somente. Não é clichê o romantismo que nos une?

Mas você está longe. E, por experiência das dores, sei o que significa estar longe. Distante. Como se eu tentasse alcançar a prateleira mais alta. É assim que me sinto.

Ainda falando da festa, fora tudo maravilhoso. Muitos estiveram aqui. Muitos sorriram e dançaram à sombra da felicidade simplória. A felicidade que nunca nos atormentou. Porque éramos infelizes de mão cheia e adorávamos sofrer. Era bom sofrer ao seu lado. E todo sorriso que me ardia a face vinha acompanhado de um gemido. Fizemos sentido e deixamos rastro em tudo que agora vivemos.

E, durante a festa, eu quis, por duas vezes ou mais, anunciar seu nome. Dizer de você. Desejei poder tocar suas mãos e sermos honestos de uma vez por todas e darmos caras ao mundo. Sorri fraquinho porque agora visto roupa invertida.

Sou eu quem devo permanecer escondida.

Sou eu quem devo não me declarar.

Vida arredia que nos desvia de nossas tentações.

Mas eu teria falado. Por duas vezes seu nome encharcou minha boca de vontade de dizer que amo farto e me denuncio.

Vejam.

Olhem o ser que me corrompe noite e dia. É ele. O homem. Sereno obtuso de bom tempo. Minha augusta criação. É ele o anjo externo de meus sacramentos. Olhem nos olhos de meu delator.

Mas não anunciei.

Eu poderia? Já não me suporto mais sozinha. Batalhões andam a me cercar e não me farto de outras mesas.

Transitei em astros em busca de sua companhia. O manjar não sacia a fome em mim embutida. Quase deixei que o mundo ouvisse.

Bobagem minha pensar que ninguém sabe. Porque está em meu corpo, meus princípios, meu caminho há muito decidido. Traçado o mapa de minhas regiões, vivo de amor e faço listas de desejos utopistas para que você saiba que em toda festa sua presença será minha. Toda festa bendigo seu nome e repito a ladainha. Sou de amor único. Vaso de grande dose, porém, somente recebo baobás de seu porte.

Caio espantada na solitária neurose das estrelas.
Faço declarações.
Condeno mediocridades.

E sou verdadeira. Quando digo que há ceia, farto a promessa. Esteja certo que sua boca de tudo irá provar. A palavra nunca anunciada ou a sede de um vasto temporal. E que algo nos destrua a casa e leve consigo nosso corpo marginal entregue ao maiúsculo domínio de nosso mal. Adormeço elementar e desperto fortificada para outro dia de adoração. E hoje é outro pé na estrada. Que a vida urge e o tempo de mim se farta em voz severa e articulada forjada de preocupação.





Click-me.

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Image by Ruben Añón

30 outubro 2010

diacáustico



"Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar."

(Adélia Prado)


Vi em teu dorso o corpo de deus. Sob os céus recortados em nuvens vi teu prumo tomar palmos de terras em tua ária de cânticos. Teu quintal de brincares de ares de outros tempos. Vi o hemisférico erotismo de teus pensamentos tombados em mim e tuas plantas de arrancar leveza das coisas que não são brandas vindas de tua boca que canta sacrifícios. Vi, à pálida veracidade dos lábios do criador, a bestial cegueira dos errantes guerreiros que te erguem os ombros. Vi a mentira formulando açoites de derrota e tua vitória é sempre olhar para trás. Vi, com tantos olhos de olhar tua miragem, teus punhos em combate de matar-me sufocada de amor dormido, amor romântico, amor tecido. E, de teus altares, corajosos santos adestram rios ao resistir de um sol poente que nos guia sempre enquanto, em vãos, homens comemoram misérias. Deus fez da terra o baldio elementar de tua indecência. Teu sorriso é pura crueldade sádica dos leões que enfrento. Ouço de tua boca o que apenas o deus saberia dizer. E de minha boca terás o acorde de meu canto feminino que somente eu aprendi a reger. Ora a língua entorna o caldo entorpecente de um feitiço que somente loucos concebem. Esta aventurosa sede romântica repele ignorâncias. Em teu inferno adorno as mãos do demônio que admiro. Nasce então minha criatura no sangue que corre em tuas veias e a ti ofereço a mesma praga. Subvertida a maldição é contraída, doença repentina, e que te sirva de alimento meu corpo de entregar-me ateu.






Image by Rovi

28 outubro 2010

prosaica








A história. Um casal e uma casa. Mobília e empregada. Não, eles não têm empregada. É apenas o casal e a casa. E um carro velho herdado do pai. Carro cheio de ferrugem no para-choque, vidro com adesivo antigo de time de futebol. Mas a ferrugem corroeu o carro. E eles não têm carro. Nem herança. Nem pai. É apenas o casal e a casa e uma moto na garagem. Moto recém-comprada paga à prestação e muito beijo na boca pra esquecer que o dinheiro é curto. E o casal acasala de sede. Normal de jovens. Comum de amor. Mas a moto escapa da história e já não existe. E o passeio que fizeram pelas avenidas de ricas luminárias nunca houve. Ainda é apenas o casal e a casa e alguns cupins. E os cupins comem a mobília e até os livros eles atacam e também algumas imagens de muitos santos erguidas em um pequeno altar na sala de jantar que já não há porque a história é apenas o casal e a casa e dedetizaram tudo e morreram as larvas. Agora é reinventar começo de saga. E ainda existe o casal e a casa. Tudo no mesmo lugar. Rua grande, algumas lojas e um mercado. E também uma banca de jornal. O casal costuma comprar revistas todo início de semana. E o casal vai ao mercado com dinheiro contado e compra pão que logo endurece ou mofa. O casal tem fome de outra coisa e pão não alimenta. Então não existe mercado nem pão. Nem rua larga ou loja em liquidação. Mas ainda se faz a história só do casal e a antiga casa de mobília ultrapassada. O casal ainda beija. Ainda faz amor. Mas é amor de não ser amor. É apenas força de intenção de estar bem. Forçado à felicidade, o casal não se separa. Vive junto na mesma casa e não compra mais revista que não há dinheiro para luxo. Nem sonha mais o casal. Nem desabotoa camisa. Nem disco afina a voz do tenor. A história se desfez do casal sem casa que o amor desmoronou. E outra história há de vir. Pois a vida, complexada narrativa, não cansa de se repetir.





Image by Colby Bluth

26 outubro 2010

histórias para colorir




"Não gosto dos homens.
Gosto do que os devora."

(André Gide)



Damião, homem caprichoso, não perde um segundo sequer de seu tempo. Dizem até que conta vantagens às ferrovias alardeando que faz questão de manter sua vida em total zelo perfeccionista. Acorda cedo, trabalha, vai ao supermercado, enche a geladeira pra família e, quando chega a noite, Damião, que não perde tempo na vida, se entrega aos televisivos prazeres nocivos à imaginação.

Filomena vai ao centro. Havia marcado encontro com uma antiga amiga dos tempos de colégio. Pensava exuberante o quanto seria bom rever sua amiga Regina que era tão bonita, buzinava alegrias, falava tanto de suas conquistas e cansava os ouvidos de Filomena que, repentinamente, sentiu um frio na espinha, deu meia volta e desistiu de encontrar Regina. A vida muda de forma gratuita.

A mulher uiva e o homem sorri frente ao espelho. O casal faz amor desde cedo. Tanto grito, tanto jeito, tanto amor escorrendo por tanto tempo. Prazerosos se beijam. Famintos se alimentam e, humanamente, se enganam ao mentir um pro outro. Porque, de outra forma, prazer não haveria. Verdades interrompem coitos, há quem diga.

Está quase amanhecendo e a mulher não dorme. Agoniada com tanto canto de passarinho à janela, a mulher levanta, toma um banho, enche de alfazema o pescoço, maquiagem no rosto e chora pensando que a vida continua repetida. Deus faz milagre, pensa a mulher. Mas a longo prazo. E ela adormece profundo e perde a hora de ir ao trabalho.

E todo aquele que acredita que literatura faz a gente enxergar a lua, esqueça. Bota a viola no saco, desarma a tenda e abandona o circo. Literatura é chave secreta e não abre qualquer porta. Nem a todos ela sustenta. Ela sofre de cisma. Vai e volta, bloqueia estrada, seqüestra palavra e não se serve de graça. Literatura é uma engenhoca ingrata e não acolhe qualquer crença.

E lá embaixo a multidão se agitava, cantando em coro e fazendo algazarra, esperando que o homem pulasse logo do prédio e acabasse com aquele mistério de tragédia não ocorrida. Mas o homem que não era doido nem nada apenas limpava vidraças obedecendo ordens de um patrão. É que o povo espera demais. Inventa desculpa, vive outras vidas e não olha sua barriga cheia de amargura e vazia de compaixão. Nada no mundo há de se espantar sem razão.




Image by isasi

24 outubro 2010

invisíveis inimagináveis




Depois de uma partida regada à regra de beber com amigos que não são, parti para casa a fim de me deleitar um pouco ao obséquio da tv. Entregar-me ao ócio, estar mais consciente de minha estupidez, ser mulher cheia de vontades e sorrateiramente feliz.

Mas o destino faz atroz seu recital.

Decido escrever uma carta. Papel azul. Caneta preta e mãos às confissões. Vou falar de toda a sacanagem existente entre minhas ideias e o resto do mundo.

Olá, Amigo Querido. 

Que tal? Clichê? Já me disseram que clichê sou eu. Desisto, então, de usar o jargão Amigo Querido. Entro de sola na carta. Te amo. Alguém começa carta desta forma tão disfórmica? Eu nunca vi. Das cartas que recebi nunca flagrei tamanha vertigem verborrágica. Guardo meus sentimentos para o fim. No entanto, não te amo, entende? Não te amo daquele amor coerente de copa e cozinha. Te amo mambembe. E você é meu amigo. Nosso amor é diferente. Fraternal. Coisa de irmão.

Esqueço o eu te amo. Já basta de mentira no mundo. Recorro à simplicidade.

Querido Fante,

Como anda sua vida? A minha já não anda. Estancou na quinta avenida e, vez por outra, faço sexo feito uma vaca sendo currada por leões.

Pausa.

Como posso começar assim, falando em sexo e me expondo? Sei que o Fante é meu amigo, músico, talentosíssimo, inteligentíssimo, tudíssimo. Mas dizer que sou vaca é forçar a marginal. Mudo tudo.

Querido Fante,

Como está o clima? Sol, semi-árido ou ainda há receio de temporal? Aqui em minha terra não chove como lá. As aves...

Quê? Não leio Gonçalves Dias. Não tanto quanto gostaria. Não posso usar frase que não me define. Isto é camuflagem. Vou ser direta. Engato sinfonia para escrever e lasco xícara de café pelando. Acordo e escrevo.

Fante,

Já reparou como estamos distantes? Você aí, eu aqui e um boi atravessando a estrada? Não gosto de distância, Fante. Por isso telefono. Semana passada, depois de ouvir conversa fiada que não mata fome (Deus que me proteja dessas gentes infelizes que falam com medo de serem capturadas em plena vernácula ejaculativa).

Vernácula ejaculativa.

Definitivamente é um bom título para um conto erótico. Imagino a cena. Mulher, meias de seda, homem ereto, discrepâncias e desejos e os dois rolam na relva amando ardente o que Deus uniu e o homem não separa.

Estou pior do que eu pensava, Fante. Agora faço uso de oratória religiosa. Acode meu coração vagabundo.

Outra tentativa.

Tomo um baita gole de licor. Café e licor e o vapor de um cigarro. Estou simetricamente despida. Gosto de escrever nua. Ao pé da letra da vagina.

Novamente.

Fante,

Tem reparado que todo mundo anda se descambando? Não sei explicar, mas me parece que todo mundo anda fugindo. É uma covardia demente. Ninguém aparece mais. Ninguém sabota meus planos, ninguém toca minhas mãos e o pior é ver pessoas fingindo que futilidade é festa. Sabonetes fogem. E também os peixes já reconhecem os anzóis. Ninguém mais cai na armadilha, Fante. Que acha de fazermos um pacto de não descambarmos também? Eu prometo solenemente permanecer louca até que Deus me ouça.

Tô bem de rima, Fante?

Que ridícula essa tua amiga, hein? Mas me diga... Como vai a Maria? Ou era Cecília? Ou Magnólia? Qual era mesmo o nome da criatura feminina que você dizia, vez por outra, digerir para fugir da solidão? Minha memória é curta, Fante. E minhas pernas também. Claro que pensei em visitá-lo. Centenas de vezes. Mas, sempre que penso em ir, me vem a velha ideia na cabeça: Por que ver se posso sentir? Ver pode cegar, Fante. Encontros podem ser maléficos. Ainda não somos tão humanos a ponto de olhos nos olhos e sorrir. Ainda não somos. Mas eu estou aqui torcendo por você. Espero que você não caia no abismo da mesmice e não fique quadrado como as pessoas que nós costumávamos odiar. Lembra do nosso ódio? Você quase gritava comigo quando eu dizia amar é. Você nunca suportou a sensação de fila única. Eu também não. Por isso gosto de confusão. E por isso escrevo carta pra você. Porque é seguro. Não quero para mim o limite das coisas que findam. Quero que seja breve. Porém, quero tudo sem fim.

Assino a carta decidida. Com amor e carência literária, Eu. Pronome que pode dar margem a diversos questionamentos. Ponto final.

Carta escrita. Envelope, correios e que merda de endereço devo usar?

Dias depois recebo notícias do Fante. Ele também acredita que não sejamos humanos o suficiente. Ele sonha. Ele vive com pressa. Ele desperta em mim o que tenho de mais diversa. Meu lado caleidoscópio, que chora e toma porre de ansiedade à espera de uma carta. Meu amigo Fante é meu despertador de imaginar que todo dia segue rente quando, na verdade, assim como as pessoas, o mundo também descambou. De que lado estamos, Fante? Ele diz de supetão:

Não há lado, minha amiga.

Apenas interseção.





Image by Aramelh